O título dessa crônica foi retirado da bela canção Bom conselho, de Chico Buarque de Holanda, para mim o maior letrista da música popular brasileira. Nessa toada usarei canções para falar da vida.
Quando saí da Fundação de Cultura no final de agosto de 2013, a convite do senhor prefeito de União da Vitória, Pedro Ivo Ilkiv e absoluto silêncio do vice prefeito Jair Brugnago, assim como de seu partido, o PSDB e após completar 10 anos à frente daquela instituição, passando por dois mandatos de Hussein Bakri e um de Carlos Alberto Jung, confesso que demorei algum tempo para assimilar a tão repentina e inadvertida mudança.
Gostava e gosto muito do fazer cultural e o fazia com entusiasmo quase que juvenil.
Dias após minha saída, fui, gradualmente, elaborando, o que para mim representou uma perda que, naquele momento, parecia irreparável.
Em casa, sozinho, ouvindo a canção Mordaça, de Eduardo Gudim e Paulo Cesar Pinheiro, fui percebendo que havia certa identificação da letra com aquilo que sentia.
Os primeiros versos me diziam muito:
“Tudo o que mais nos uniu separou
todo o que tudo exigiu renegou
da mesma forma que quis recusou
o que torna essa luta impossível e passiva
o mesmo alento que nos conduziu debandou
tudo o que tudo assumiu desandou
tudo que se construiu desabou”.
Parecia que Gudim e Pinheiro haviam escrito aquilo para mim, embora a canção seja dos anos 70.
Eu via o que havia construído em 10 anos desfeito por um simples canetaço, cuja então justificativa, munca se justificou.
E a letra prosseguia ainda com mais identificação:
“ o que faz invencível a ação negativa
é provável que o tempo faça a ilusão recuar
pois tudo é instável e irregular ”
Eu naquele momento ouvia a canção em um vinil dos anos 70, em belísssima interpretação do MPB 4 e à medida que a música avançava mais eu me sentia identicado.
E hoje ao ouvi-la novamente, eu percebo e sinto com inequívoca exatidão, que:
“ e de repente o furor volta
o interior todo se revolta
e faz nossa força se agigantar”
E a canção termina dizendo:
“ mas só se a vida fluir sem se opor
mas só se o tempo seguir sem se impor
mas só se for seja lá como for
o importante é que a nossa emoção sobreviva
e a felicidade amordace essa dor secular
pois tudo no fundo é tão singular
é resistir ao inexorável
o coração fica insuperável
e pode em vida imortalizar”.
Necessito utilizar novamente, os versos de outra, igualmente, emblemática canção do mestre Chico Buarque, intitulada Cordão, para exprimir o que sinto hoje:
“ Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão
Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder seguir”.
E encerro essa crônica, meio com cara de desagravo me utilizando de outros versos de Cordão, que dizem que aqueles como eu, vão formar um imenso cordão e então queremos ver o vendaval.
15 de abril de 2014