BREVES HISTÓRIAS

Nem toda semelhança é mera coincidência

A velha senhora havia deixado a casa de repouso, ou melhor, havia desaparecido de lá. A diretora do estabelecimento sem a menor pista de como isso acontecera, decidiu chamar um dos filhos da velha senhora. Lá chegando, acompanhado de seu filho, logo constatou que a diretora não dispunha de uma única informação a respeito daquele súbito desaparecimento, exceto de que ela deveria ter saído na noite anterior. Ninguém viu nada, ninguém de nada sabia. Diante de tais evidências, ou, da ausência delas, pai e filho decidem ir à polícia. Lá chegando se deparam com um agente ou seja como eles são designados, de extremo mau humor, e, consequentemente, de extrema má vontade e ainda por cima, mal educado. O sujeito ouve a narrativa dos queixosos e após isso pergunta ao pai da velha senhora: Ela é maior de idade? Ao que ele entre a perplexidade e a indignação responde, com outra pergunta: O que o senhor acha? Eu lhe disse que ela é minha mãe. O senhor só pode estar querendo fazer graça, com algo que não tem a mínima graça. O policial se exasperou e disse: O senhor mantenha a calma, senão chamo os outros policiais. Velada ameaça, implícito abuso de autoridade. O pai vendo que o sujeito era tosco o bastante para segurá-los ali, resolveu responder a absurda pergunta. Sim ela é maior. E aí ouviu algo, igualmente, absurdo: Se ela é maior, nada podemos fazer.
E o pai e filho saíram indignados e com uma grande sensação de impotência, por nada poderem fazer, primeiro para encontrar a mãe e avó e depois ficarem à mercê de um sistema de segurança pública ineficaz e que não protege ninguém e ainda na linha de frente de atendimento um sujeito que jamais poderia estar ali.
Isso poderia ter acontecido aqui em União da Vitória. Mas não, trata-se de uma narrativa extraída mais ou menos, livremente, do livro As lembranças, do francês David Foenkinos, de quem eu já lera o também ótimo, A delicadeza.
Mas me utilizo desse sutil introito para me reportar ao arrombamento de meu carro, ocorrido na madrugada de 11 de agosto de 2013, em frente ao Cemitério Municipal de União da Vitória, durante o velório de meu querido tio René Linhares Augusto. Eu e Margarete deixamos o local por volta de duas da manhã, para levarmos para casa meu sogro e sua mulher, quando nos deparamos com o carro arrombado. A janela do motorista havia sido quebrada, tendo os meliantes levado a bolsa de Margarete que continha sua carteira com vários documentos, cartões bancários, dinheiro, três aparelhos de telefone celular e mais alguns pertences pessoais. Deixamos meu sogro em casa e fomos à Polícia Civil e obtivemos do plantonista, pelo interfone, que deveríamos ir à Policia Militar. Lá chegando, havia apenas uma policial falando ao rádio, coisa que ouvíamos do lado de fora. Passados alguns minutos ela nos atendeu pela janela, ouviu nosso relato e nos disse que teríamos que aguardar a volta de uma viatura que havia saído para atender a um chamado. Ficamos ali na frente por intermináveis minutos, com o vidro quebrado e com uma temperatura próxima de zero grau. Repentinamente, um policial surgiu lá de dentro, sem que nenhuma viatura tivesse entrado e nos atendeu. Registramos a queixa e no dia seguinte, fomos, novamente, à Polícia Civil, de posse daquele boletim de ocorrência para poder solicitar as segundas vias de seus documentos.
Decorridos uns 20 dias do acontecido, Margarete recebe a conta de um de seus celulares e de forma imediata, constata que de seu aparelho, foi enviada uma ‑­mensagem de texto para outro número, ali indicado, às 00h56, mais ou menos, de 11 de agosto, portanto com o aparelho já de posse do ladrão ou ladrões. Liguei para o tal número, me identifiquei e relatei o ocorrido, dizendo a meu interlocutor que caso ele não me apontasse até o dia seguinte, quem era o autor da mensagem de texto, eu iria à polícia. Ele deu um nome, que não sei se é verdadeiro e disse ainda trabalhar como segurança e que assim, recebia muitas ligações durante a madrugada. Veio o dia seguinte e nada do tal segurança se manifestar. Fomos à Delegacia e falamos diretamente com o delegado titular. Narramos o fato mais uma vez, agora acrescido daquele número de telefone, um potencial suspeito, que poderia ser um receptador ou talvez um traficante. Demos novo depoimento a uma mulher e como já havíamos dito ao senhor delegado, insistimos que bastava uma ligação da polícia para aquele número, com a posterior convocação daquela pessoa, que teria que dar explicações a respeito da emblemática, e, provavelmente, elucidativa mensagem.
Oito meses se passaram e nada foi feito, o que indica que a polícia sequer ligou para o número que fornecemos.
Cerca de um mês depois Margarete indagou o suposto agente encarregado da investigação, que a respondeu que nada poderiam fazer, a não ser com ordem judicial, pois a investigação quebraria o sigilo do proprietário do celular que recebeu a mensagem. Margarete perguntou: Como assim se o número está ali indicado e dessa forma não há sigilo a ser quebrado. De nada adiantou.
Meses se passaram e este agente entrou por engano no Escritório Regional da Secretaria da Família e Desenvolvimento Social, que é chefiado por Margarete, à procura de um consultório médico, e, novamente, foi indagado sobre o episódio em questão. Dessa vez não aventou mais o absurdo argumento da quebra de sigilo e se limitou a falar que a polícia tem falta de pessoal, de ‑­viaturas, de recursos e de tempo e que dessa forma tem que priorizar as ocorrências mais importantes.
Fica a pergunta, quanto demoraria uma chamada telefônica para aquele dito celular? Cinco minutos, talvez menos. Quanto demoraria a tomada de depoimento do tal sujeito? Meia hora, talvez menos.
O argumento da falta de tempo é injustificável, até porque, no dia em que prestávamos depoimento, esse mesmo agente chegou de um trabalho externo e ficou na porta da sala onde estávamos, por longos minutos, falando de amenidades com a mulher que tomava nosso depoimento.
Se voltarmos à história que abre esse relato, veremos que qualquer semelhança não é mera coincidência.

16 de abril de 2014

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