NACO DE PROSA

Será que a curiosidade mata ou ensina?

Era uma quarta feira à tarde, eu estava entre algumas pessoas que acabara de conhecer. A conversa seguia seu rumo normal, quando alguém demonstrou vontade de ir embora para assistir à novela. Eu mais que depressa falei:
– Ah, vá ler um livro!
Ela olhou-me humildemente e respondeu:
– Não sei ler nem escrever.
Com o coração a galope, a mente em ebulição, pus de lado as outras pessoas e me aproximei dela. Eu havia perdido o chão. As palavras, as ideias, os pensamentos estavam estranhos em minha mente. A pergunta fervilhava dentro de mim.
– Como não sabe ler?
Em meu íntimo, tinha certeza de que ela estava brincando, (ela era uma mulher de trinta e poucos anos) e disse-me que não sabia ler. E eu não sabia mais falar nada. O momento disse tudo. Resolvi mexer fundo no assunto, e fiquei sabendo que havia muitas pessoas próximas a ela que também não sabiam ler, inclusive a mãe dela. Contou-me ela que nem o ônibus conseguia pegar, porque não sabia ler a placa, que se confundia com o dinheiro, e onde trabalhava estava ficando muito difícil até para anotar números de telefones, foi me contando todas as dificuldades que continua encontrando, fatos inacreditáveis, em um tempo repleto de comunicação, cores, celulares e tantos outros meios de leitura, mas para ela tudo é sem sentido. Confesso que chorei sem que ela percebesse, pois eu, com a habilidade de alfabetizar, mas que não tive o amor suficiente para detectar antes, tantos problemas por falta de um olhar mais apurado ao meu próximo. Infelizmente, ao nosso redor há muita gente que ainda não sabe, e não conhece as letras, que lamentável!
Esta história é recente, triste e eu, sou professora, já fui alfabetizadora também.
Nós que estamos sempre afirmando que todos devem estudar, mudar de pensamento, evoluir, ler e ler. Sócrates disse que: “Educar é ensinar a pensar”.
Penso que antes vem a alfabetização e, que a aprendizagem, leitura, reflexão devem caminhar juntas.
Sócrates há 25 séculos também disse que aprender é uma condição humana natural. Todos aprendem, só precisamos facilitar o processo de aprender e conduzir o aprendizado para o fim desejado; isto é, integrar o aluno à sociedade, desenvolver suas competências para usá-las na construção do todo.
Temos que ensinar a arte de perguntar. Voltando a Sócrates, ele dificilmente respondia, apenas perguntava. Com isso, ele levava aos alunos a usarem a cabeça, isto é, a pensar, refletir, analisar.
E hoje, podemos perguntar?
Tenho pena dos perguntadores e dos curiosos.
Se perguntam muito, são rotulados de mal-educados e impertinentes, como são vistos como perturbadores são punidos.
Educar exige paciência, porém é quase impossível no mundo de hoje, termos paciência, pois o mundo está impaciente, veloz, digital, cibernético, inconstante, e até podemos afirmar: está louco.
Podemos afirmar que a paciência ainda existe, mas apenas na consciência do educador, aquele que realmente educa, pois há professores que não são educadores.
Segundo Johann Heinrich Pestalozzi, deveríamos ser como o apóstolo Paulo, que desafia os cristãos a buscarem os melhores dons, e conclui que o melhor dos dons é o amor (I Co.13), e também o amor é o melhor método pedagógico. Ele influenciou os governantes de seu tempo a pensarem na educação de seu povo. Infelizmente, existiu um Pestalozzi, apenas.
Voltando ao assunto da jovem senhora, citada no início, voltei para casa, pensando em como ajudar aquelas pessoas. Gosto de ler e estudar os grandes Educadores Pedagógicos, mas sem o amor nada acontece. O amor por elas venceu, e uma equipe foi formada para ensiná-las o básico para a vida delas.
Quem Ama, Educa! Escreveu o psiquiatra e educador, Içami Tiba.
“Não se pode forçar a janela: é preciso abri-la com carinho e espantar os corvos da desconfiança que porventura pairem na soleira.”
É a mais humana das esperanças, a única que pode responder ao anseio de construir não apenas uma sociedade, mas uma civilização. Parodiando o escritor: quem educa, ama.

24 de maio de 2017 – Marli Boldori

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