CONEXÃO IFPR

A Ciência e Tecnologia na Sociedade Capitalista

Por Luiz Sérgio S. Silva

Os amplos avanços tecnológicos e científicos conseguidos nas últimas décadas possuem uma relação direta com marcos históricos da humanidade, tais como a revolução industrial, os conflitos mundiais da Primeira e Segunda Guerra e a chamada Guerra Fria, evidenciada pela corrida do homem a lua. Avanços tais como: teoria da relatividade de Einstein, a física quântica, uso da energia nuclear, invenção do laser, a física do estado sólido, que ocasionou o surgimento da indústria de semicondutores e microeletrônica, são alguns avanços científicos e tecnológicos que se deram em sequência aos fatos ligados às diferentes revoluções científicas, pós-industriais e tecnológicas.
Muitas destas descobertas contribuem até hoje para o bem estar social, porém, de acordo com o momento e órgãos financiadores das pesquisas, várias inicialmente foram utilizadas como ferramenta de manutenção da ordem econômica ditada pelas grandes potências econômicas. Parte-se da lógica de que certos países devem possuir o mínimo suficiente para ter condições de manter em movimento a roda do capitalismo, mas que também não podem ser suficientemente desenvolvidos, pois estarão concorrendo de igual para igual com as grandes potências e desta forma não se submeterão às ordens determinadas pelos acordos de mercado.
De forma simultânea em que foram ocorrendo estas relações de tecnologia e capital, as relações sociais, históricas e culturais também foram se modificando, bem como o modo de produção e consequentemente a relação com o trabalho. Por fim, culminando na institucionalização do capitalismo mundial, no qual o consumo voraz, desenfreado e em grande parte desnecessário, está ligado a um mundo cada vez mais tecnológico.
A cada descoberta e a cada necessidade humana suprida pelas soluções científicas e tecnológicas grande parte da população, em especial as gerações atuais, ainda se mostra distante de alguma motivação que a leve a tentar compreender ou estudar as bases teóricas que fundamentam esses avanços. O interesse é apenas do uso imediatista, limitando-se apenas à utilização do produto acabado.
Mas afinal, por que esse público deveria preocupar-se com o entendimento teórico por trás desses avanços científicos e tecnológicos? Certamente, uma boa resposta para essa indagação passa muito além da vontade de se ter o conhecimento por si só. É fato que a simples utilização desses avanços tecnológicos proporciona facilidades para a vida cotidiana de todos nós! No entanto, na contramão dessa mera utilização facilitadora, as produções científicas e tecnológicas necessitam cada vez mais de uma mão de obra especializada, capaz de não somente reproduzir e seguir especificações técnicas, mas também de possuir capacidade de iniciativa e tomadas de decisões, sendo essas ações, de forma notória, dependentes de um conhecimento minimamente superficial. O que pode estar acontecendo? Deve-se pensar que o desenvolvimento social e os meios de produção são afetados, uma vez que os instrumentos de trabalho são modificados e a relação que o sujeito tem com seu trabalho é modificada, abrindo inclusive a possibilidade do surgimento de novas divisões nas classes trabalhadoras para uma mesma área tecnológica, pois na maior parte das situações a mão de obra utilizada deve ser melhor qualificada.
Esta relação pode ser notada na divisão do trabalho em uma empresa multinacional, por exemplo, os trabalhadores brasileiros que possuem o domínio da tecnologia são raros, pois a todo momento são noticiadas vagas de trabalho que não conseguem ser preenchidas por falta de mão de obra especializada. Isso leva a duas possíveis situações: ou a oferta do serviço é precária; ou a mão de obra é importada, ficando para os trabalhadores brasileiros funções de menor expressão e remuneração.
Um olhar crítico nos leva a refletir que um possível motivo pelo qual a população, de modo geral, apresenta desinteresse pelo conhecimento por trás dessa ciência e tecnologia disponível, esteja intimamente ligado ao modo de produção capitalista, que procura garantir cada vez mais lucro, acelerando a produção de bens de consumo, banalizando a relação sujeito-bens de consumo, impondo uma dependência quase doentia para a aquisição de novas “necessidades” impostas pelo capitalismo selvagem. Existe ainda o fato de que qualquer bem material pode ser substituído ou comprado de forma simples e rápida, trazendo a falsa impressão que esta condição se estende a todo tipo de relação, pessoa-objeto, substituição de trabalhadores em seus empregos, a troca de profissionais por outros mais “baratos” e que se dispõem como servos para um mundo contemporâneo de satisfação imediata do capital.

27 de setembro de 2019 – Conexão IFPR

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