BREVES HISTÓRIAS

Saber contemplar

Como já contei em crônicas anteriores, costumo caminhar na pista de atletismo do Estádio Municipal, sempre acompanhado por música e num horário em que o sol já em declínio, incide sobre a cidade, proporcionando uma luz que vai do prateado a uma tonalidade mais diáfana. Nesta segunda-feira, por volta das 16h fui ao Estádio e lá havia um treino de uma equipe de futebol, que imagino fosse o Iguaçu.
Decidi então, não caminhar ali. Seguindo sugestão dada pelos diletos amigos, Cinthya e Carlos Senkiv, fui caminhar no Parque Ambiental. Desci por uma rua até o Bairro Navegantes e de cara já me deparei com uma bucólica pracinha, emoldurada pelas águas do Rio Iguaçu. Não parei, já que pretendia faze-lo ao final da caminhada.
Há quem seja mais afortunado ou afortunada do que eu e caminhe tendo o mar como testemunha, o que já não consigo fazer desde dezembro de 2019, última vez que pude sair de União da Vitória.
Mas é preciso dizer, caminhar contemplado pelo Iguaçu e também a contemplá-lo, é quase tão magnífico como andar à beira mar.
É verdade que o Parque Ambiental está precisando de melhorias, mas de qualquer forma, a caminhada ali é magnífica.
Comecei a caminhada ouvindo Silva, que também me havia sido sugerido por Carlão Senkiv. Depois de algumas canções deste criativo cantor e compositor, migrei para Gordon Haskell, seminal baixista que no início dos anos 70 tocou no King Crimson, banda que para mim, ao lado do Pink Floyd e do Traffic, compõe o triunvirato das melhores bandas da história do rock progressivo, embora o Traffic flertasse com algo assim como um jazz-rock, de altíssima qualidade melódica.
A exemplo do que disse também aqui nas páginas de Caiçara, minha amiga, Alciomara Buch, em uma de suas brilhantes crônicas, às vezes caminho ouvindo apenas duas ou três músicas, repetindo-as, não a exaustão, mas sim ao prazer de meus ouvidos.
E foi assim naquela bela tarde, depois do Silva, ouvi por várias vezes a, How wonderfull you are, belíssima canção de Haskell e que compõe Harrys Bar, para mim o mais bonito disco deste fabuloso compositor. Desta canção fui para Say no more, de Ray Charles que é, igualmente, bela.
Caminhei até a Ponte dos Arcos. Passei debaixo dela, andei mais um pouco e retornei, ainda na companhia de Haskell e Charles, imerso em pensamentos e na contemplação daquele belo décor.
Voltei sem pressa, ensinamento que a idade está me proporcionando. No caminho não encontrei quase ninguém, exceto alguns raríssimos ciclistas.
Como planejado, concluída a caminhada, parei na pracinha já mencionada. Havia ali um jovem casal, romanticamente, namorando ao bucólico cair da tarde.
Fiquei ali contemplando as águas do Iguaçu que cedia a turbidez de suas águas para um prateado brilhante e confortador.
O filósofo alemão, Martin Heidegger disse certa vez que o homem moderno havia perdido a capacidade de contemplar, movido pela necessidade de coisas novas. Heidegger disse isso nos anos 60, quando o homem ainda não havia mergulhado na instantaneidade da era virtual. O que ele diria de hoje, quando vivemos numa época de impermanência e de sua consequente falta de reflexão, que culmina claramente na alienação.
Mas nem todos perderam a capacidade do contemplar e eu me encontro entre os contempladores. Posso permanecer horas sentado, tanto em frente ao mar, como em uma galeria de arte ou em um museu.
Naquela tarde foi assim e só não fiquei mais tempo sentado em no banco, assistindo o sol despedir-se, porque fui me constrangendo, achando que atrapalhava o casal de namorados.
Como também já contei por aqui, outro dia sentei-me em um banco da Praça Coronel Amazonas e fiquei contemplando as últimas luzes da tarde cederem lugar à escuridão da noite. Fui vendo as luzes da Praça, uma a uma se acendendo e tingindo o local com seu brilho artificial.
Encerro essas linhas, como também terminei a caminhada de segunda-feira, ouvindo Gordon Haskell, desta vez interpretando a igualmente bela, Antonio´s Song.
É isso. Até outra hora.

27 de agosto de 2021 – Delbrai Augusto Sá

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