BREVES HISTÓRIAS

Constatação


Sinto que hoje será outra daquelas noites de interminável insônia. Já é quase meia-noite e nem sinal do sono, até que é bom, afinal estou ficando obcecado pelos meus sonhos doidos que mais parecem delírios reais.
Vou telefonar. Pra quem? Quem me compreenderia? Quem ao menos me ouviria? Ana Paula talvez? E essa chuva escorrendo lenta pela vidraça. A solidão às vezes reconforta. Vou telefonar, senão acabo entrando nesse transe e não saindo mais. Tenho medo de dormir e não acordar mais. Qual será mesmo o número de Ana? Acho que é 3592-1112.
– Alô, Ana. É Rui.
– Rui, como vai? Há quanto tempo você não me procurava?
A voz de Ana Paula denotava uma profunda amargura, quase que um ressentimento.
– Senti vontade de falar com você, estou sem sono, entediado e, sobretudo assustado.
– Por que tudo isso Rui? Mais uma de suas crises existenciais, ou será que você já não está bastando para si mesmo.
– Não seja intolerante Ana, você nunca foi assim.
– É. De repente posso ter cansado de tuas divagações inúteis, de tua fala monocórdica. Você já percebeu que só me procura nas piores horas? Quem você pensa que eu sou, sua analista?
-Ana, não seja injusta. Você sabe que esse sempre foi meu modo de ver e perceber o mundo.
– No início eu também achei genial esse seu jeito metafísico, agora vejo que você não passa de um angustiado egocêntrico. Seu romantismo onírico é depressivo.
– Bem Ana, se eu já não tinha sono, agora eu não dormirei mesmo. Sua definição a meu respeito foi muito objetiva e conclusiva, foi, como posso dizer? Letal.
– De nada adiantam suas súplicas, essa situação, esse clima em torno de si mesmo, essa mística toda, você mesmo criou. Que música é essa Rui? Ouço-a ao fundo, quase ininteligível. É jazz?
– É Ana, você tem alguma razão.
– Razão em que?
– Em quase tudo. A música é Jazz Bop e é Charlie Parker, um de seus precursores, do improviso, da experimentação.
– Rui você ainda não esqueceu Amarcord? Será que tudo aquilo o marcou tanto assim?
– Amarcord é muito bonito, muito real e, conseqüentemente, deprimente. Sinto calafrios cada vez que constato que a realidade é aquela que Federico Fellini, por meio dele, nos mostrou.
– Mas de nada adiante essa nossa conversa, ela se esvaziará, se perderá no espaço, assim como nosso relacionamento.
– Estou entendendo sua descrença Ana, diante dela, de sua irreversibilidade e até de sua própria intangibilidade, o melhor a fazermos é interrompermos a ligação. Não há “ressonância”. Não que ela seja necessária. Tchau Ana até qualquer dia.
– Tchau Rui, volte-se um pouco para o real antes que seja tarde demais.
Rui não estava perplexo com aquela situação “kafkiana” que ele mesmo criara, estava conformado, pois o que Ana lhe dissera ele já sabia que cedo ou tarde ouviria, e da própria Ana. Estava conformado porque sempre fora um conformista e, conscientemente, aceitava-se como tal, embora, eufemisticamente, se auto-denominasse dialético, um sujeito contemplativo que abominava o utilitarismo desse mundo cada dia mais mecânico. Sua cosmo-visão, após sua constatação de impotência, era metaforizada.
Eu bem que esperava isso. Ana, finalmente, foi enquadrada, orwellizada pelo sistema. Mais um ponto para o real que já têm tantos. Será que quase mais ninguém tem imaginação? Não é possível. Sempre achei as conversas telefônicas tão vazias, tão superficiais. Achava até que nada de definitivo era dito por telefone. Me enganei. Superficial são as pessoas não o aparelho.
1h37, a chuva continua a cair e desenhar na minha janela, e esse vento, parece balançar as luzes da rua criando um “decor” de sombras expressionistas, propício aos fantasmas que não consigo exorcizar.
Mas apesar de você e da exatidão espaço/temporal, amanhã há de ser outro dia e quem sabe até com outro amanhã. Chega de fantasias, preciso dormir, acordar e assumir meu outro eu, preciso dele, a linearidade do cotidiano assim exige, e até que a noite chegue, tenho que representar, afinal preciso continuar sobrevivendo, para poder viver depois do sol, depois de suas horas enormes.

Conto escrito em setembro de 1984.

Publicado em 5 de novembro de 2021

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