PSICOLOGIA PARA HOJE

Escutar ajuda?

Em primeiro lugar quero agradecer o convite para participar deste periódico de tão longa tradição em nossa região. Espero poder contribuir com reflexões sobre nosso modo de ver e viver o cotidiano, à luz dos pressupostas da Psicologia Humanista Existencial. Esta tem seu enfoque não meramente na explicação dos fenômenos comportamentais, mas em sua compreensão, pois entende que cada ser tem potencial para o crescimento e aprimoramento de si na relação consigo, com o outro e com a natureza.
Dentro da perspectiva Psicologia para hoje proponho refletirmos sobre a ampla campanha de valorização da vida e da solidariedade, objetivo do Setembro Amarelo, na qual volta-se o olhar para pessoas que estão em sofrimento e que não vêem saída para ele. A campanha visa sensibilizar para o acolhimento e a escuta daquele que está em desespero e investe na prevenção de atos extremos. Este sofrimento pode se ter múltiplas razões, mas vou me referir, rápida e inicialmente, a uma questão deste espectro, oautoconhecimento e suas possibilidades de auto regulação emocional.
Muitos de nós não recebemos educação emocional que ajude a identificare lidar com o que sentimos. Identificar e nomear sentimentos ainda é um desafio. Já é de senso comum a realidade de que o homem explora o cosmos, mas desconhece e até teme os meandros de sua subjetividade. Diferente de cultuar dores e sofrimentos, é preciso olhar para dentro, identificar, respeitar e lidar comnossos sentimentos para que fluam e voltem ao equilíbrio necessário ao bem estar possível.
Neste ponto dois aspectos desejo abordar: escuta e prevenção. Quando esta pode começar?
Aqui, a escuta acolhedora e livre de julgamentos se faz necessária se quisermos ajudar, como alerta a campanha. Nesta hora é importante discernir que nem sempre escutar significasolucionar o problema daquele que precisa de ajuda. O que ela necessita, muitas vezes, é ser ouvida. O que dizer para a pessoa em sofrimento? Nada. Ela precisa falar e fala pede escuta. Ao ser escutada sem que nela projetemos nosso não saber resolver, sente-se acolhida e com espaço para a expressão de seus sentimentos. Não confundir desabafo com pedido de solução. A escuta já é a ajuda.
Carl Rogers, psicólogo humanista que concebeu a Abordagem Centrada na Pessoa, declarou que algo que muito o emociona é o que vê nos olhos da pessoa que realmente é ouvida. Seus olhos brilham, pois luz é lançada em seu eu como ele é aqui e agora, e não em quem deveria ou poderia ser. Ela sente-se considerada positivamente em seu momento atual e não em quem pode se tornar, forma perfeita de ser, caso isso existisse. Ilumina-se pela emoção em ser escutada, respeitada naquilo que sente e não no que o interlocutor espera que ela diga, sinta ou seja.
O segundo ponto da reflexão é a prevenção de atos extremos. Quando ela pode começar? Em agosto, quando já está chegando setembro e algo precisa ser feito? Quando notamos a pessoa em sofrimento? Este pode ser um momento, mas a prevenção começa com o respeito ao ser, desde seus primeiros momentos de vida. Estou falando do ser criança. Ela não seráalguém após estudar, se formar e ter uma profissão. Ela já é alguém agora e, quanto mais tivermos isso em mente, mais contribuiremos para sua autopercepção como sujeito, aquele que tem subjetividade, mundo interno único e ilimitado em formação, com ajuda de seu meio, de sua família. Assim, ela vai construindo seu lugar consigo, com os outros, com o mundo e, dificilmente, mas muito dificilmente pensará em saídas extremas quando estiver com problemas.
É importante intuir esta necessidade e descobrir o encanto de ouvir uma criança. Ouvir não apenas quando ela chora ou pede coisas que a mídia a induz a pedir ou a ter e fazer o que os amiguinhos têm e fazem. Isto já é feito amplamente. Não é desta escuta que falo. Falo da percepção e escuta de seu ser em formação, de sua fala original e espontânea que vem de seu experienciar e processar o aprendizado sobre a vida, mesmo quando está brincando. Falo de presença em momentos seus que nunca mais se repetirão. Quem cresce neste ambiente constitui seu lugar no mundo e, quando precisar, saberá pedir ajuda a quem o percebeu e escutou desde sempre. Em situações de crise, muito provavelmente não irá pensar em dar cabo da vida, mas sim do problema,pois aprendeu que aqui é seu lugar e agora é momento de mobilizar-see utilizar sua autoconfiança e suas aprendizagens para ultrapassar osobstáculos reais, prática conhecida e análoga aos jogos virtuais que tantos apreciam. Quando se deparam com umdesafio a ser vencido, acessam seu repertório, tentam e repetem meios até conseguir a saída para nova etapa de vida.
Concluindo… proponho que nos lembremos de uma vez ou vezes em que fomos realmente ouvidos, mesmo quando não estamos em sofrimento, mas no dia a dia simplesmente… Você já foi escutado, ouvido? Como se sentiu?
Serviços voluntários de escuta qualificada:
União Pró-vida: (42) 3523-7217 – 99138-1467
Plantão psicológico UnC – (42)3523-2328
CVV – 188

18 de setembro de 2020 – Maris Stela

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