PSICOLOGIA PARA HOJE

Crianças e infância: da invisibilidade ao protagonismo, um pequeno percurso histórico

12 de outubro comemora-se o Dia da Criança. Famílias e comércio movimentam-se em torno desta demarcação do calendário na qual as crianças são o foco.
A data coloca as crianças e sua satisfação em evidência e virou um hábito nem sempre percebido ou questionado pelos educadores. Estranho é pensar que isto nem sempre aconteceu na história da humanidade. A visibilidade das crianças vem se modificando ao longo do tempo
Obviamente, crianças sempre existiram. Mas e a infância? Criança, infância, cuidados, escola, brinquedos, os termos se misturam, se entrelaçam. São itens de um mesmo universo e parece que sempre foi assim. Mas não foi. A visibilidade das crianças vem se evidenciando e esta deve-se ao conceito de infância construído historicamente ao ponto de, na contemporaneidade, haver um sentimento quanto a ela entendido como natural, como inerente ao sujeito humano. A criança amada, gracinha, fofa é uma forma recente de significá-la.
Diferente dos tempos atuais, na Roma Antiga recém-nascidos só eram aceitos como parte da família se o pai assim quisesse. Caso não os aceitasse eram abandonados diante da casa ou em algum lugar público. Como se vê, não havia preocupação social ou moral em relação a esta prática de descarte.
No século XII, impressionado com inúmeros bebês encontrados no rio Tibre, o papa Inocêncio III criou um hospital para acolher crianças abandonadas e prover-lhes cuidados. A partir do Renascimento, com o advento do Iluminismo, foi-se desenvolvendo uma visão direcionada à criança e discutindo-se meios para melhor criá-las. Com isso começou-se a perceber a importância da atenção aos pequenos para que se desenvolvessem de maneira mais saudável e com formação mais sólida. Até então, crianças eram vistas como pequenos adultos, sendo vestidas como eles e expostas aos seus mesmos costumes. Elas não recebiam tratamento diferenciado, nem possuíam um mundo próprio, não existia o sentimento de infância.
Com o advento da revolução industrial surgiram os primeiros hospitais para tratar crianças. Aos poucos, a pediatria começou a se desenvolver e iniciam-se investigações sobre sua fisiologia. Neste momento começa a se configurar a construção do conceito de infância, a partir do qual crianças passam a ser vistas em suas especificidades e a receberem tratamento diferenciado. Com o desenvolvimento das ciências humanas e consequente compreensão acerca desse período etário, as crianças passaram a ser inseridas em contextos promotores de aprendizagens sistematizadas, em instituições educativas. Agora, a noção de infância passa pelo crivo de conceitos técnicos e científicos, a ser respaldada e analisada à luz da Psicologia, Pedagogia, Sociologia, Medicina, dentre outros campos do saber. Estas ciências agora emitem parecer científico a respeito dessa etapa da vida humana e lhe confere respeitabilidade frente à sociedade.
Adentrando a contemporaneidade, com suas características mutantes e efêmeras, a noção de infância adquiriu nova roupagem e outro status. A criança desses novos tempos possui características e necessidades, muitas delas produto dos ditames da globalização e do consumo. Como exemplo dessas alterações em relação à visão da infância, temos as mídias que fornecem enorme quantidade de informação, que incide direta e indiretamente, na montagem dessa nova configuração da infância.
Como sujeito em processo de desenvolvimento, a criança tem plasticidade em relação às influências do mundo externo, o que faz dela um sujeito receptor e consumidor em potencial. O espaço de socialização, de ensino e de aprendizagem, antes prioritariamente ocupado pela família e escola, muitas vezes passa a ser terceirizado e ocupado pelas mídias que invadem a vida privada e a vulnerabilidade das crianças, independente da classe social ou faixa etária. Assim, a sedução ao consumo vai criando necessidades para este público, incitando à aquisição de produtos e costumes veiculados pelas mídias.
Todos os dias ouvimos e mesmo constatamos que a criança contemporânea amadurece precocemente, em vista das estimulações a que está exposta, o que lhes confere características de inteligência e criatividade que precisam ser ouvidas e consideradas como parte integrante da sociedade. No entanto e, até mesmo por isso, cresce a importância do apoio, proteção e orientação dos adultos de seu meio para auxiliá-las em suas escolhas, a fim de constituírem princípios e valores que levem em conta a justiça e solidariedade, propiciando bases para a construção de um olhar crítico frente ao mundo que nos envolve.
Quanto maior o assédio midiático, maior a necessidade da ação mediadora de adultos congruentes que auxiliem na filtragem de informações que ajudem as crianças na construção de critérios éticos para a apreensão da realidade. Assim estarão sendo preparadas para viverem seu tempo, protegidos pela presença amorosa e responsável de pais e orientadores em sua função educadora e propiciadora de crescimento afetivo, intelectual, social e espiritual, dimensões pessoais necessárias para que a sociedade evolua de modo cada vez mais inteligente e criativo, igualitário e justo.

Mais sobre o assunto em:
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Tradução de Suzana Menescal de Alencar Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
https://monografias.brasilescola.uol.com.br/historia/a-construcao-historica-sentimento-infancia.htm. Acesso em agosto 2020.

16 de outubro de 2020 – Maris Stela

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