Erva Doce – Duas mulheres e uma loja de tradição e sucesso
Como docente no curso de Psicologia da Universidade do Contestado, campus Porto União, por ocasião das aulas de Psicologia do Desenvolvimento III, que trata do sujeito humano em sua vida adulta, meia idade e velhice, solicito aos acadêmicos que pesquisem em suas cidades lojas, estabelecimentos comerciais que permanecem sendo geridos por seus donos/as, tendo sido estes também seus fundadores. O objetivo desta pesquisa é o envelhecimento saudável ou bem sucedido, ou seja, aquele em que pessoas com 60 anos ou mais, permanecem com suas funções físicas, fisiológicas, psicológicas e cognitivas, bem como de autonomia e independência preservadas, o que lhes permite manterem-se em suas atividades laborais, sociais e culturais. A cada semestre em que a disciplina é ministrada, os alunos escolhem lojas e estabelecimentos a serem pesquisadas por meio de entrevista a seus proprietários. No ano de 2015, uma das lojas escolhidas foi a Erva Doce, situada à rua Professora Amazília, desde 2011. Sua proprietária, Domicela Lordes Chibior Sawaya foi entrevistada para contar a história de sua loja. Nascida em Campo Largo, Paraná, veio para União da Vitória com 13 anos de idade, mas começou a trabalhar aos 18 anos, com Salin Touma Sawaya, libanês, que chegou ao Brasil aos 27 anos. Ele foi o fundador da loja. Passado um tempo, casaram-se Domicela e Salin que já trabalhavam na loja, cujo primeiro endereço foi na Avenida Manoel Ribas, onde atualmente funciona uma agência dos Correios. Era o ano de 1958. A casa comercial São Jorge, vendia roupas e, conta Domicela, não houve inauguração com foguetes e flores. Apenas abriram as portas e começaram a trabalhar. A venda de vestuário continuou na Sawaya e permanece na Erva Doce, com moda íntima feminina. Para o vestuário masculino vende quase tudo, menos terno e calçados. Ela conta como era a rua onde a loja funcionou inicialmente: “- Bem, era a rua mais comercial na época. Já tinha calçamento, mas era só até o Clube Apolo. As lojas próximas, na época, não existem mais. A loja Flor da Vitória, que era bem antiga, a Casa Branca, que depois fechou, a Farmácia Minerva… Tinha outra farmácia, a Moderna. Tinha o Gabriel Nemes, que vendia serpentina, confete, lança perfume, que na época podia usar. A farmácia Vitória. Casa Spack também era mais antiga. A canaleta veio bem depois. A rua, no começo ia e voltava. Depois ficou só um sentido, depois fizeram a canaleta e continuou no mesmo sentido também”. Sempre comercializando roupas, Domicela conta que o poder aquisitivo de seus clientes era alto e lembra que na época não era comum a venda de roupa feita, ou seja, vendia-se tecido, como brim, sarja. Mais tarde começou a vir camisas, quando a loja começou com vestuário masculino. Depois que passou para Sawaya Magazine, passou a vender roupa social, vestidos longos, mas tinha roupas de todos os estilos. Os homens usavam mais terno com gravata, chapéu. De vez em quando ainda compra chapéus, pois, segundo ela, tem muita gente que gosta de usa-los no inverno. Ela lembra que na época da São Jorge vendiam galochas para proteger os sapatos. Quanto às mulheres, usavam mais saias. Era pouco jeans, estava começando a entrar no comércio. Quando mudaram para Sawaya Magazine, tiveram dois funcionários, mas as filhas, já moças, também ajudavam. Samari, uma delas, está hoje, junto com sua mãe, na gestão da loja. Sobre os costumes do início de sua vida laboral, Domicela conta que eram destaque social os passeios depois da missa das 10 horas nos domingos, quando os jovens passeavam na praça em frente à matriz, onde moças e rapazes se conheciam e namoravam. Falou também dos bailes, muito frequentes, cuja música era executada por orquestras que vinham de fora da cidade. Estas ocasiões exigiam roupas novas, quando a Sawaya Magazine era lembrada para garantir a roupa nova e a elegância. Falou dos bailes de debutantes, mas também do carnaval, informando que até desfiles de rua existiam. Ao ser indagada sobre seus primeiros clientes, Domicela não lembra, mas diz que se seu esposo estivesse presente, lembraria e contaria com detalhes tudo que lhe perguntassem. Na época de Natal, vendiam presentes para a família toda: “- Eu quase amanhecia fazendo pacotes de presente. Nossa! Eu ia dormir e ficava vendo pacotes passando em minha frente”. Depois veio o costume do amigo secreto e diminuíram as vendas de Natal. Sobre conselhos que daria para quem quer abrir uma loja, Domicela sugere o bom atendimento e simpatia. E é assim que Domicela e sua filha, Samari acolhem e tratam seus clientes até hoje. Com estas atitudes e profissionalismo competente, estas duas mulheres vêm atravessando o tempo, que todos sabem, grandes desafios têm imposto ao comércio, pois, dos estabelecimentos mencionados acima e que existiam na época do início da hoje Erva Doce, nenhum existe mais. Com o conhecimento e a sabedoria que construiu ao longo de sua carreira, Domicela recebeu o Troféu Guerreiro do Comércio, em 2014, concedido pela FECOMERCIO, após ser reconhecida por seu tempo de mercado, projeção, reconhecimento da comunidade e notoriedade empresarial. Pessoa que transmite alegria, doçura e competência na arte de viver e de bem atender seus clientes, a vida de Domicela entrelaça-se com a história da cidade e, com Samari, continua nos recebendo com elegância e serenidade cada vez que entramos em sua loja. 1 Pelos alunos Andressa Caciane Miranda, Aurea Olenka, Douglas Borges, Iomar Otto. 2 Fitas de papel para serem usadas no Carnaval.