PSICOLOGIA PARA HOJE
Idades

Em 1991, a Organização das Nações Unidas estabeleceu o dia 1º de outubro como o Dia Internacional do Idoso, com o objetivo de sensibilizar a sociedade mundial para as questões do envelhecimento. Este vem se ampliando notavelmente e, em vista disso, estudos e mobilizações de atenção a esta população estão cada vez mais acontecendo, pois importa saber quem é o velho.
Por contraditório que pareça, a velhice é nova, ou seja, como fenômeno demográfico, nunca se viu um contingente tão grande de pessoas com mais de 60 anos, idade considerada início da vida idosa em países em desenvolvimento, como o Brasil e 65 anos em nações desenvolvidas. Para fins legais, também se considera 65 anos no Brasil, como demarcador cronológico da velhice.
Curioso em nossos tempos é saber que o fator cronológico tão indelevelmente associado à identificação de uma pessoa, nem sempre foi importante. Até o século XVIII, o dado “idade” não era usado como hoje, pois a periodização da vida tinha a fixidez dos ciclos da natureza ou seguia a organização da sociedade, sendo que as idades correspondiam a etapas biológicas, mas também a funções sociais. Para entender esta colocação, recorro a Ariès, que, a partir da iconografia, apresenta as etapas e as funções sociais de cada momento evolutivo. Assim, os infantes eram retratados com brinquedos indicando estarem na primeira etapa do ciclo vital. Depois aparece a idade da escola, com meninos segurando livros e meninas aprendendo a fiar, por exemplo. Em seguida vinha a idade do amor ou dos esportes, da corte e da cavalaria, na qual eram retratados jovens em festas, passeios, bodas ou caçada do mês de maio nos calendários.
Segue com a idade da guerra e da cavalaria, representadas pelo homem armado, homens da lei, da ciência ou do estudo. Adultos e idosos, representantes das idades sedentárias, era imagem do velho sábio, barbudo vestido segundo a moda antiga, diante da escrivaninha, perto da lareira.
Assim eram representadas as idades, diferentemente dos tempos modernos, em que a data de nascimento é documentada e faz parte da identificação e prova de cidadania do sujeito moderno. Hoje não se concebe que uma mãe, pai ou responsável e até mesmo a própria criança não saibam data sua de nascimento e idade. Salvo possível disfunção perceptiva ou psicológica, todos sabem quando nasceram e que idade têm. Cita Ariès que Sancho Pança, notável escudeiro de Dom Quixote, não sabia a idade de sua filha e assim dizia: “Ela pode ter 15 anos… dois a mais ou a menos…”. Para as pessoas de outrora, a vida era uma continuidade inscrita na ordem geral e abstrata das coisas, mais do que na experiência real, mesmo que poucos percorressem todas essas etapas.
Mas quem é o velho? Muitas são as dimensões pelas quais ele e a última etapa da vida podem ser olhados e conceituados: cronológica, física, social, psicológica…
O critério cronológico é adotado na maioria das instituições de cuidados e atenção à saúde. Este critério é também adotado em trabalhos científicos. Devido à dificuldade de definir a idade biológica, visões contraditórias se sobrepõem sobre o início do processo de envelhecimento. Nesta pluralidade, há a que entende que a velhice se inicia logo após a concepção, ou no final da terceira década da vida ou, ainda, próximo ao final da existência do indivíduo. Esta dificuldade de delimitação se dá pela inexistência de marcadores biofisiológicos eficazes e confiáveis do processo de envelhecimento. As evidências do envelhecimento biológico são claras, mas não se pode afirmar que sejam exclusivamente dependentes da senescência, como cabelos brancos, rugas e outros, pois estes podem ser resultantes de outros fatores, que, em seu conjunto, tornam difícil a definição da idade biológica.
Estudos gerontológicos apontam várias dimensões do processo de envelhecimento como demarcação etária. Uma delas é designada como idade funcional, relacionada com a idade biológica e grau de conservação do nível de capacidade adaptativa, em comparação com a idade cronológica. Outra dimensão é a idade psicológica, refere-se às capacidades de percepção, aprendizagem e memória que prenunciam o potencial de funcionamento futuro do indivíduo. Outra dimensão é a idade psicológica que inclui o senso subjetivo de idade, ou seja, como a própria pessoa se sente e avalia a presença de marcadores biológicos, sociais em si em relação a seus coetâneos.
A Idade social é aquela que avalia a capacidade de adequação de um indivíduo ao desempenho de papéis e comportamentos esperados para as pessoas de sua idade, num dado momento histórico de cada sociedade.
É multifatorial e multidimensional o fenômeno velhice. Mais do que em qualquer época anterior, o envelhecimento, a velhice e o velho desafiam a relação do sujeito consigo mesmo, com o outro, com o mundo do trabalho e com seu lugar em uma sociedade que, cada vez mais, confunde o valor pessoal com o valor utilitário, como se faz com um objeto pela sua funcionalidade ou inutilidade aos propósitos mais diversos.
O prolongamento da média de vida retirou as pessoas idosas do não-ser anterior e a linguagem moderna emprestou-lhes vocábulos, apenas teóricos, originalmente, para insinuar possíveis realidades novas. Terceira idade, melhor idade, gerontolescência, são eufemismos utilizados para evitar “velha/velho”, em clara associação com o caráter pejorativo do termo oriundo do utilitarismo produtivo de uma sociedade superficial.
Outubro se inicia com o Dia do Idoso e logo traz o Dia das Crianças. Cabe aqui refletir sobre o lugar que se dá aos sujeitos destes dois extremos do ciclo vital humano: a criança que “ainda não é” e o “velho que já não é mais” em contextos econômicos e sociais que têm no adulto o protagonista de uma cultura adultocêntrica. Por ser protagonista, ao cidadão adulto cabe cuidar que as crianças tenham sua infância cultivada e respeitada e os velhos possam manter dignamente seus lugares no mundo que ajudaram a construir.
22 de outubro de 2021 – Maris Stela