PSICOLOGIA PARA HOJE
Saúde emocional X Medo – Filtros…

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) saúde é um estado de bem-estar físico, mental e social, ou seja, mais do que ausência de doença ou enfermidade. Esta definição contempla vários aspectos da personalidade e inclui pensar em qualidade de vida. Este conceito considera a dimensão física e mental, mas o contexto social e histórico também precisa ser incluído. Para o estabelecimento e manutenção da qualidade de vida, ainda segundo a OMS, é necessário que cultivemos bons hábitos de alimentação, exercícios físicos, relativos à dimensão física. Quanto à dimensão psicológica e afetiva, a conversa com pessoas de nosso círculo é fundamental, pois, como seres sociais, delas necessitamos para que haja interação afetiva, social e intelectual. Na base da qualidade de vida está o bom relacionamento com nosso eu. A percepção, a consciência e cuidado com os próprios pensamentos, sentimentos e emoções são condições fundantes para que haja possibilidade de relacionamento saudável com o outro. A dedicação a um hobby, um gosto pessoal faz parte do cuidado de si e da dimensão lúdica da existência, tão importante para o bem estar e alegria de todos nós. Por outro lado, a inconsciência e o descuido com pensamentos e sentimentos comprometem a qualidade de vida e mesmo os relacionamentos.
Os tempos de insegurança vividos de modo mais intenso há um ano mudaram a vida de todos e a previsão de “volta à rotina” não está a nosso alcance, situação que têm gerado cada vez mais ansiedade e medo, afetando claramente nossa saúde emocional. Com isso a necessidade de atenção e cuidado de si no aqui e agora é fundamental para a busca e manutenção da qualidade de vida.
Nos tempos atuais, notícias constantes sobre estatísticas de morte e perigos da pandemia, afetam nosso emocional. O medo e ansiedade constantes geram estresse, pois não há tempo para a recuperação do impacto recebido e logo vem outro. Com isso, o corpo também é afetado pela dificuldade de dormir para que a recuperação se processe. Deste déficit advem sofrimento, irritabilidade e desatenção ao trabalho. Esta situação de instabilidade, medo e ansiedade são o sofrimento que mais têm aumentando nos relatos que chegam aos serviços de saúde emocional.
As informações que o cérebro recebe atingem o emocional, sendo este o canal por onde o conhecimento chega depois de seu acesso a nós por um órgão sensorial. Esses estímulos acessam nosso cérebro pelas vias táteis, gustativas, auditivas, visuais, olfativas e atingem o sistema límbico, parte do cérebro que os recebe e direciona ao tálamo, que repassa estas informações para outras regiões cerebrais e, deste à amígdala cerebral que tem a função de disparar reações em outras partes do cérebro. Dependendo da natureza das informações, as reações atingem o sistema emocional, ocasionando medo e ansiedade.
Mas o que é o medo? Emoção bastante conhecida, o medo é natural ao ser humano, mas quando muito intenso, paralisa. Com medo constante, não vivemos. Dois tipos de medo são definidos pela psiquiatria e psicologia. Um deles, o medo real, é aquele relativo a situações que ameaçam a vida e é relacionado à sobrevivência. Este é necessário para a preservação da vida, como o medo de um animal venenoso ou o medo da violência que nada respeita. O outro, é o medo imaginário, pessoal, subjetivo, relacionado com alguma situação traumática ou não resolvida que atua como evitamento da situação original.
Na sociedade super conectada em que vivemos, estamos constantemente recebendo enxurradas de informações pelos meios de comunicação, midiáticos e mesmo das pessoas próximas. Com a pandemia, as informações estão concentradas em informes que podem nos ajudar, mas também confundir e amedrontar. Agrava a situação viral, a irresponsável politização do perigo que nos ameaça, gerando ainda mais insegurança pelo claro e flagrante desrespeito à vida humana perpetrado por governantes dos mais diversos níveis que têm a responsabilidade de proteger a população que os sustenta. A imaturidade revelada por essas lideranças é o mais perverso aspecto deste terrível e temível período histórico.
Diante disso, é importante selecionar e filtrar entre o assédio de informações o que é real, essencial e necessário para nosso conhecimento separando daquilo que é disfuncional e tóxico. Ou seja, funcional é o que mobiliza ao conhecimento que gera proteção e cuidado. Disfuncional é o que atordoa, confunde, assusta e intoxica, gerando mais medo e ansiedade. Outro aspecto a ser identificado é o da ilusão da informação absorvida com avidez, sem crítica ou seletividade para ter assunto para falar o que todos estão falando, apenas para “não ficar de fora”. Esta é destituída de funcionalidade, pois não direciona para a ação preventiva e protetiva, mas para o mero e maníaco repasse verbal que retroalimenta o medo e a ansiedade.
Contudo, diante do medo real importa conhecer e respeitar a realidade para poder conviver com ela. O respeito é base para a vida em sociedade, pois ele coíbe o medo e ativa outros sentimentos no cérebro, como gratidão, empatia e gentileza.
Essencial é filtrar aquilo que se ouve, a fim de agir com maturidade e consciência. Sem negar a realidade externa, e, atentos ao medo e ansiedade que esta suscita em nosso mundo interno, podemos reconhecer o perigo e identificar o que se sente a partir dele. Acolher o que se sente é um meio de trazer os sentimentos à consciência para poder com eles lidar. Isto pode ser feito buscando alguém de confiança para falar, desabafar, chorar, se preciso, atitudes que ajudam a recuperar a confiança em si e usar as medidas de proteção para poder respirar e viver neste contexto de ameaça enquanto ele existir. Quando estas emoções paralisam e impedem a fluência da vida, torna-se necessária ajuda profissional que favoreça identificar, desconstruir e reconstruir a possibilidade da convivência com o tempo adverso pelo qual estamos passando. Também este é uma possibilidade concreta de criação e manutenção da saúde emocional.
19 de março de 2021 – Maris Stela