PSICOLOGIA PARA HOJE
Sobre ansiedade e introspecção

Segundo Rollo May, psicólogo existencial, a ansiedade é uma apreensão caracterizada diante da ameaça a algum valor que o indivíduo considera essencial para sua existência como pessoa.
Etimologicamente, ansiedade deriva do Latim, animu ou anima, que significa, “o que anima”. Em Hebraico, é equivalente à alma, mas também anapnéo ou respiração. No Grego, psykhé, que significa “ser”, “vida”, “criatura”. Como se sabe, uma pessoa em momentos de ansiedade, imediatamente tem sua respiração encurtada, dificultada e, sem ar, todo o ser fica em sofrimento. A respiração é um ato fisiológico e ao mesmo tempo de relação com o mundo, sendo que a contenção da respiração, pode sugerir um hábito apreendido no decorrer da história do indivíduo, quando o mundo se apresentou por demais invasivo, opressor e, por isso, inassimilável.
Vista a etimologia da palavra, vamos à sua etiologia do quadro, ou seja, às suas causas. O que faria acontecer esta dificuldade? Ansiedade também vem do verbo ansiar, desejar, buscar algo que falta. Na verdade, estamos constantemente em busca de algo que nos falta. Este seria o motor da vida, pois tão logo se consiga algo, novo desejo ou nova necessidade constela e seguimos em nova busca de satisfação para o retorno ao equilíbrio que logo será desfeito… Neste caso estamos falando de ansiedade normal, aquela que nos põe em movimento, desafia em busca de crescimento, de satisfação, de novas conquistas e horizontes. A causadora de sofrimento, no entanto, é a ansiedade neurótica ou patológica, situação em que a pessoa perde a conexão com seu aqui e agora, projetando-se constantemente para o futuro pressentido como penoso, fora do controle sensações, sentimentos e pensamentos. Resumindo, a ansiedade, nesta perspectiva, seria consequência da fuga de si e do momento presente, por medo do contato com um sentimento ruim, desconfortável e “suspende” a respiração. Este ato incide em seu corpo físico, por meio de sudorese, tremores, enfim, sofrimento intenso e constante. Tal estado coloca a pessoa em desespero que a faz projetar-se, a fim de proteger-se, indo ainda mais para fora de si, para o mundo externo, buscando algo que a conforte e tranquilize. Não percebe ela que não está no externo o que a fará reconectar-se consigo e com o que lhe falta, pois a insuficiente oxigenação intensifica o desespero, estabelecendo um bloqueio no fluxo respiratório e, portanto, na percepção. A fuga de si, a fim de distanciar-se do próprio sofrimento, gera mais ansiedade e mais desespero.
Paradoxalmente, a capacidade de encontro está ligada à coragem de suportar e experienciar o sofrimento. Por exemplo, quem consegue conviver com a solidão consegue ir ao encontro do outro. Porém, quem o busca para não ficar só, de fato não busca o outro, mas o que falta em si mesmo. Assim, o outro é um objeto e não há genuíno encontro, mas uma ilusão de contato, como meio de fugir do próprio vazio, gerador de insegurança e ansiedade. Na ansiedade neurótica, a pessoa em sofrimento não o faz por vontade própria, mas pela dificuldade em se perceber, se conhecer e identificar o que lhe falta, que aspecto pessoal não foi visto e cuidado. O sofrimento se agrava quando, pelo medo e angústia, a esquiva de si se transforma em um círculo vicioso. Neste caso, o organismo se interrompe e se sobrecarrega com tantas situações incompletas que não pode prosseguir satisfatoriamente com o processo de viver e se nutrir de forma eficiente. Aprender a caminhar pelo seu mundo interno e lidar com os próprios sentimentos, sensações e pensamentos aplaca o medo e a ansiedade.
Em tempos de sociedade hedonista, superficial, a experiência introspectiva é estranha, incompreensível para quem tem pressa e não suporta o desafio do auto conhecimento. Não é isto a vida, a busca de conhecimento de si para que o conhecimento do mundo seja possibilitado? Lembrando que do Latim ansiedade vem de ânima, alma, as premissas da psicologia analítica ensinam que o desejo da alma é servir. Mas servir a quem ou a quê? À própria vida, começando pela vida pessoal, pelo mundo interno, onde habitam os sentimentos, a ânsia de ser, a busca de crescimento e expansão para que então possamos ir ao mundo externo, sensíveis e capacitados para as trocas afetivas e sociais que a todos beneficia.
Situações de ansiedade fazem parte da vida e não são necessariamente assuntos psiquiátricos. A panpsiquiatrização da vida e dos sentimentos humanos quer estender seus tentáculos e a todos rotular, pois para tudo há uma fórmula química nas prateleiras das farmácias, que surgem cada vez mais, em cada esquina, tomando lugar de escolas e livrarias. Nem tudo é doença no sofrimento humano. Existem os modos de ser, de sentir e de existir que são a própria vida e importa cuidar para não nos perdermos na sanha da cultura da patologização.
Desde o início deste tempo de isolamento social, os serviços de Psicologia e plantão psicológico foram muito acessados e três situações de ansiedade se evidenciaram, mas nem todas eram doenças. A ansiedade e medo normais ocorreram, colocando muitos de nós em situação de grande apreensão pelo temor diante da ameaça real representada por um vírus que adoece e mata, como de fato matou tantas pessoas distantes e próximas a nós. Outro fator de sofrimento foi o próprio isolamento que limitou nosso ir e vir, como também os encontros sociais tão necessários à espécie humana. Mas também aconteceu a exacerbação da ansiedade neurótica daqueles que já a possuíam. Em todos os casos, a escuta psicológica teve a função de auxiliar na vivência de cada situação específica, auxiliando na identificação e experienciação de sentimentos, na elaboração dos mesmos.
Finalizando, que em caso de ansiedade, esta possa agir como um dispositivo de introspecção e acesso aos pedidos e pendências ainda existentes em nosso self, pois estes têm a função de transformar esta falta em busca de crescimento em direção ao melhor que cada um de nós pode ser.
20 de agosto de 2021 – Maris Stela