Por Celso Canteri
Em qualquer supermercado é bastante comum encontrarmos produtos de marcas famosas, habitualmente caras, em promoção com um preço muito abaixo do usualmente praticado. Por que isso ocorre? Nesse mesmo ambiente facilmente podemos observar alguns consumidores analisando minuciosamente cada item de suas compras em busca de uma informação nos produtos comprados. Que informação é essa? A resposta para esses dois cenários é a mesma: “prazo de validade”. Essas promoções ocorrem quando o prazo de validade de um produto está próximo de expirar. Isso é bom para o consumidor, que pode aproveitar um preço melhor e evitar o desperdício do descarte de produtos que podem estar perfeitamente utilizáveis. Ao comprar um novo produto eletrônico, será que você não deveria tomar os mesmos cuidados dos consumidores que observam os detalhes de produtos nos supermercados? Mesmo que você tente fazer essa verificação, você já viu celular (smartfone), tablet, notebook ou computador que exiba o seu “prazo de validade”? Apesar deste prazo não vir explicitado no produto eletrônico, saiba que, na maioria das vezes, ele já tem uma vida útil estimada, pré-programada, pelo fabricante. Entenda como. Recentemente vi a matéria: “É domingo! iPhones e iPads antigos têm hora para ‘morrer’; saiba resolver…”, na seção Tilt do UOL de 02/11/2019, e vem ao encontro ao que está sendo discutido aqui, pois cita a “data de validade”, nesse caso “morte” de “iPhone 5 e anteriores”. Mensagem semelhante está recebendo quem utiliza o Windows Phone: o WhatsApp vai deixar de funcionar no final de dezembro de 2019. Hoje em dia, quem quer um smartfone no qual o WhatsApp não funciona? No seu computador ou notebook mensagens como: “o suporte para o MS Windows 7 está chegando ao fim em 14 de janeiro de 2020” ou “o suporte para o MS Windows XP expirou em 08 de abril de 2014”, podem já ter aparecido.
Se compararmos um smartfone recém-lançado com o de sua geração imediatamente anterior verificaremos que, usualmente, as “grandes” evoluções de um modelo para outro podem se resumir a tamanho da tela, resolução da câmera, ou espaço de armazenamento aumentado. Se você for um consumidor consciente, que não quer comprar um novo equipamento enquanto o seu antigo ainda está funcionando, estará livre deste “prazo de validade” pré-programado do seu eletrônico? Para responder a isso precisamos entender que todos os aparelhos eletrônicos são compostos de hardware e software. Sem entrar muito em detalhes técnicos, pode-se definir Hardware como a parte física do seu eletrônico, é o próprio aparelho e seus componentes, e Software como a parte lógica composta por um sistema principal – o Sistema Operacional – e demais aplicativos e ferramentas. Muitas vezes equipamentos perfeitamente funcionais, sem nenhum defeito, repentinamente passam a exibir mensagens informando que não haverá mais atualizações. Pior ainda, ao tentar atualizar um aplicativo, podemos ser surpreendidos com a mensagem de que a nova versão disponível do aplicativo não é compatível com o Sistema atualmente instalado, e, ao tentar atualizar esse Sistema descobrimos que o fabricante não dá mais suporte àquele equipamento. Então agora é a hora de comprar um equipamento novo? Talvez não, pois deve-se analisar o que não funcionará devido à falta de atualização do Sistema e o quanto isso impactará no uso do aparelho
Por exemplo, quem recebeu as mensagens do MS Windows pode continuar a utilizar o computador ou notebook sem maiores preocupações, pois isso não significa que ele não funciona mais, apenas que não haverá mais atualizações e suporte por parte da empresa desenvolvedora. Porém, mesmo nesse caso, com o passar dos anos é bastante provável que os aplicativos e ferramentas também passem a não ter mais atualizações ou deixem de funcionar nesses Sistemas Operacionais “antigos”. Para tentar evitar o descarte do seu eletrônico com hardware ainda perfeito, mas com aqueles softwares que não tem mais atualizações, existem muitos pesquisadores que não aceitam fazer parte dessa obsolescência programada, e, heroicamente, desenvolvem projetos visando a utilização de Software Livre para dar sobrevida a esses equipamentos sem custo algum para o consumidor final. Uma rápida busca no Google pode exibir um passo a passo de como instalar um Sistema Operacional mais atualizado em seu equipamento “ultrapassado”, porém não há garantias que um Sistema desenvolvido em projetos independentes, ou não oficiais, mas não homologado para o seu modelo de equipamento, proporcione todas as funcionalidades que um dia estiveram presentes no seu aparelho eletrônico. Mesmo com mais de um passo a passo de projetos disponíveis na Internet, a falta dos conhecimentos técnicos necessários para aplicá-los pode tornar impeditiva a tentativa de “ressuscitar” seu eletrônico para a grande maioria das pessoas, e com isso continuaremos a consumir produtos eletrônicos que não estampam o seu “prazo de validade” e continuaremos engolindo a Obsolescência Programada.
20 de dezembro de 2019 – Conexão IFPR