Mais de uma vez fui convidada para falar às mães em escolas. Nestes encontros, cuidei em reportar a fala para além da mãe, ou seja, à mulher e à pessoa como um todo, que existe em uma mãe. O intuito era o de que se ampliasse o olhar desta dimensão da vida para outras esferas, pois ainda hoje há uma relação direta da vida de mulheres com a compulsória maternidade, mesmo sabendo-se que há muito tempo, ou melhor, desde sempre, este é um dos papéis e não o único e nem sempre o principal na vida de uma mulher.
Assim como nem sempre houve o sentimento de infância, ou seja, o entendimento das especificidades deste período evolutivo e as necessidades de cuidados de higiene e educação às crianças, também não havia o pensamento, ora consagrado, de que o amor materno é inerente às mulheres. Somente no recente Séc. XVIII foi que se atribuiu, social e culturalmente, nobreza a esta tarefa, antes entregue a amas de leite, que cuidavam das crianças. Estas, caso sobrevivessem, somente eram levadas de volta à família de origem quando já estivessem livres das fraldas e do peito. Pouco importava a qualidade dos serviços prestados pelas amas. Phillipe Ariès, historiador francês, entendia que as famílias não se apegavam aos filhos pequenos porque a mortalidade infantil era imensa, mas outras visões acreditam que a mortalidade era imensa porque as famílias não se apegavam a eles. Como se vê há muita diferença de lá para cá. Hoje até câmeras são instaladas em algumas casas que precisam de cuidadoras para suas crianças, as babás, que também têm filhos e cuidam de crianças para que outras mulheres possam trabalhar.
Elizabeth Badinter, filósofa, também francesa, em sua obra O mito do amor materno, desmistifica que mulheres são dotadas naturalmente de amor materno e desejo pela maternidade. Em suas colocações ela expõe que esta convenção pesa sobre as mulheres e, se uma mãe, vez por outra ou mesmo frequentemente, tem momentos de cansaço, tédio e sentimentos não tão amorosos, sentem-se culpadas e ainda mais, são cobradas e julgadas por serem assim… humanas.
É indiscutível que o papel de mãe é relacionado a cuidados e responsabilidade de servir e educar. Neste afã, não raro, sobrecarregam-se as mães com tarefas dos filhos, entendendo que, para que tudo saia bem, ela precisa supervisionar ou mesmo fazer por eles aquilo que já são capazes de fazer. Usualmente, em nossa cultura, são elas que devem tomar a frente nas tarefas relativas ao cuidado com os filhos, ficando muitos pais como coadjuvantes e “ajudantes”. Muitas orgulham-se (sobrecarregam-se) de serem mãe e pai, adotando para si as tarefas e as responsabilidades que estes não assumem porque não se percebem tão responsáveis como as mães pelos filhos que geraram, ou por não lhes ser permitido ocupar este espaço diante do mito de que somente às mulheres pertence este lugar.
Mas o que é ser mãe? Esta foi uma das questões colocadas nas acima mencionadas falas às mães com o intuito de que elas fizessem sua própria reflexão sobre esta vivência, na qual estariam imersas ao ponto de nunca terem pensado nisso. Outra pergunta: “Que mãe eu sou?” objetivou que houvesse também reflexão sobre seu próprio jeito de ser mãe, a fim de identificar e validar seu modo único de maternar. E a questão da escolha por ser mãe? Naquele momento, como em outros também, ouvi de algumas mulheres que nunca pensaram em escolha por acharem que era um caminho natural e não a ser escolhido.
Uma dupla questão: “que mãe eu quero/posso ser?” Esta resultaria na percepção da “mãe que sou”, levando em conta a mãe e pai que cada uma teve que, por sua vez, foi filha de outra mãe, assim adentrando a genealogia e a história familiar, social e cultural que as trouxe até aqui e a construção da mãe que hoje é.
A boa mãe e a mãe perfeita! O que é isso??? Conceito naturalizado e tido como obrigação de cada mulher que tenha filhos, este é um dito que, segundo Badinter tem forte e devastador efeito em algumas mães que são apenas humanas e não perfeitas, mas a mãe que podem ser.
E que mãe se pode ser? Com esta questão recorro à contribuição de Donald Winnicott, psicanalista e pediatra inglês, que declara, a partir de seus estudos e pesquisas: para que haja o bem do filho, há que existir o bem de sua mãe, lembrando que ela é uma mulher, uma pessoa, com múltiplas possibilidades de existir e não somente a de ser mãe.
E vem a pergunta: “Que pessoa/mulher eu sou?”, provocando a reflexão de que se é também filha, amiga, profissional, esposa, namorada… Cada uma destas vivências precisa do mesmo cuidado e atenção para que exista uma mãe suficientemente boa, diz Winnicott, realçando a importância de que todas estas dimensões estejam bem atendidas. Difícil? Este é mais do que um desafio somente para as mães, mas para todos, no processo evolutivo que começa no nascimento e termina com a morte.
Os filhos crescem e sua interrelação com os genitores se transforma. Como ficam as mães que só cuidaram do outro e não cuidaram de si? O caminho e a descoberta para este novo ciclo tem profunda e intrínseca relação com a pessoa que se é ao longo da vida, para que, quando os filhos não mais necessitem dos cuidados iniciais, possa-se descobrir e vivenciar o jeito de ser mãe de adultos, com a mesma e intransferível importância, em vez da triste experiência do ninho vazio. Neste momento emergem as outras dimensões da vida que vêm integrar-se às experiências anteriores e, por isso mesmo, exigem atenção e cuidados para que possam agora efetivar-se, configurando a pessoa integral em cada mãe, em cada um de nós.
4 de maio de 2021 – Maris Stela