BREVES HISTÓRIAS

Twist in my sobriety

Engraçado como a expectativa pode com tanta facilidade tornar o entusiasmo de algo que enfim se concretiza num terrível pesadelo de real vazies capaz de desnudar tão drástica e abruptamente a inutilidade da longa espera.
Depois de tudo, parece que o entusiasmo é uma característica do abstrato, pois quando a tangibilidade chega ele transforma-se em algo longinquamente despropositado. Será que alguém entenderia tudo isso? Como me sinto bem sozinho. Caminhar me reconforta, me reconcilia comigo mesmo e me faz perceber certas coisas que a rotina cotidiana emaranha em minha mente e que só consigo desvendar nestas horas. Eu precisava falar com alguém, mas com quem? Sem nenhuma pretensão, sei muito bem que a maioria de meus conhecidos e amigos vive muito com os pés na terra e nunca compreenderia esse tipo de raciocínio. Sempre tive vontade de eleger como confidente uma amiga a quem quero muito, embora seu mundo seja bem diferente do meu. Uma única vez houve uma perfeita sintonia entre nós, mas ficou naquilo.
Naquela noite senti sua receptividade, sua quase cumplicidade. Submetemo-nos a um ritual de desvendamento que até me deu medo, pois sou muito vulnerável a envolvimentos emocionais.
Eu bem que gostaria, bem não, gostaria imensamente. Mas isso é outra história. Vou até sua casa, ela agora deve estar sozinha, como naquela noite de novembro. Vou apenas mostrar-lhe meus poemas, talvez meus contos. Mas eles são tão intimistas. Qual será sua reação? Estranha atração, conheço-a tão pouco, mas algo me diz que um enigma se esconde por detrás daqueles olhos negros. Nossa, estou divagando a tanto tempo que já passei de minha casa. Vou voltar para o mundo real. Indiscutivelmente razão e emoção não coexistem. Por isso a paixão nunca é racional, como a razão nunca é passional. Teria tantas coisas para contar-lhe, sei que sou meio egocêntrico, mas só assim apagarei a impressão errada que ela tem de mim. Se tivesse coragem além dos contos lhe contaria também meus sonhos e lhe daria um beijo. Que loucura. No que daria isto?
Será que a vazies de minhas atitudes mais recentes me levaram a estes questionamentos? O mais engraçado é que por algum tempo consigo dedicar-me só à contemplação, mas ciclicamente sinto a necessidade de abandonar a contemplação e efetivar essa cumplicidade latente. Vou esquecer tudo, é preciso, e voltar para órbita elíptica que sempre mantive em volta da luz, antes que ela se apague de vez e nada mais reste. As divagações me fazem lembrar Poe: “A ciência ainda não nos disse se a loucura é ou não é o sublime da inteligência”. Minha sanidade é incompatível com o real, que para mim às vezes parece ser insano. Ao caminhar de volta para casa percebo que o vento forte sacode as árvores que contra a luz tomam estranhas formas, prenunciando chuvas. É o verão finalmente se aproximando e deixando para trás a soturnidade do inverno. Dez e meia, será que ela já está dormindo?
Num ímpeto pego o telefone e ligo. Ele toca seis vezes que parece uma eternidade. Do outro lado da linha alguém diz: – Alô. É ela.
– Oi, sou eu, estava com saudade de você, de sua voz. Apenas silêncio.
– Engraçado você dizer isso, ou melhor, sentir.
– Pois é, queria vê-la.
– Venha então, estou, completamente, sozinha.
– Até já.
Sinto um frêmito percorrer meu corpo. Vou a pé. Não de carro é mais rápido, tenho pressa em vê-la, tocá-la. Toco a campainha, ela está me esperando, bonita e sensual como sempre, veste um jeans justo que acentua suas formas; uma camiseta curtinha que denota o bronzeado do último verão e por incrível que pareça, um tênis. Três beijos, seu perfume invade minha alma.
– Você está barbaramente linda.
– Como não somos tão íntimos, poderia até dizer que agradável surpresa, mas isso soa tão artificial e sei que você é muito perspicaz quanto à naturalidade das pessoas.
– Sempre te achei espontânea. Você é uma das poucas pessoas com quem realmente gosto de conversar. Uma vez disse-lhe que você sabe ouvir.
– Que tal se entrássemos e sentássemos.
– Ok, vim para isso.
– Quer tomar alguma coisa: cerveja, vinho, whisky?
– Cerveja. Toma comigo?
– Tomo.
– Quantas vezes conversamos assim?
– Nunca. Não, uma única vez. Também, nunca tivemos oportunidade, não deixaram e você nunca me procurou.
– Estou procurando agora, espero que não seja tarde demais.
– Nunca é tarde.
– Nunca te procurei dessa forma, porque sempre te achei racional demais, presa demais aos interesses corriqueiros e, portanto alheia às insatisfações que a vida nos reserva.
– Você está enganado. Pois o que você pensa ou pensava de mim, seu sempre pensei de você.
– Já percebeu que estamos acostumados a fazer pré-julgamentos, até já falamos disso uma vez, lembra?
– Lembro, é um erro que inconscientemente insistimos em incorrer.
– Trouxe um disco para ouvirmos.
– Coloque-o.
Momentâneo silêncio, o vento continua e os primeiro pingos de chuva tocam o vidro da janela.
– Quem é?
– Como?
– A cantora.
– Tanita Tikaran, é inglesa e esta música chama-se “Twist in my sobriety”, tem algo de difusamente etéreo, não acha?
– Acho. É muito bonita.
– Bonita como você, como seus cabelos, seu olhar, seus lábios e seus olhos.
– Obrigado. Gosto mas me constrange, sinto que estou ruborizada.
– Não seja modesta. Quer dançar?
– Gostaria.
Sinto seu corpo colado ao meu, minhas mãos estão trêmulas e geladas. Ela também parece perturbada.
O disco acaba. O tempo é ingrato, quando não queremos que ele passe ele voa e quando queremos que ele passe ele se arrasta.
Acordo.
Nas sombras da escuridão de meu quarto apenas as lembranças daquele 10 de novembro.
Conto escrito em julho de 1989.

26 de novembro de 2021 – Delbrai Augusto Sá

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