PSICOLOGIA PARA HOJE

Urgências de fim de ano – Presente de Natal

E mais um ano chega ao fim com suas características mobilizações, preparativos e urgências que faz com que muitos, muitos mesmo, entrem deliberadamente ou não em uma roda de atividades que lhes engolfam. O tempo escoa em meio aos compromissos, às confraternizações para falar da vida social. Junto com esta, a vida doméstica mobiliza outras urgências. A faxina de Natal, o deixar tudo pronto e limpo, pois, é NATAL! Que faxina é esta? Somente da casa e dos móveis, do espaço físico ou também de uma dimensão mais subjetiva, mais profunda, da qual nem sempre nos damos conta, que envolveria o self, o eu, outra dimensão da vida? Parece que todo este conjunto torna-se ativado, quando não exacerbado, neste período do ano e as urgências nos engolem. Urgência de cumprir com todas as promessas feitas, as explícitas e as implícitas, verbalizadas ou não, a nós mesmos e aos outros. Fim de ano, fim de ciclo. Estas demarcações cronológicas mobilizam para finalizações e cumprimento de metas, propósitos, promessas feitas em algum momento do ano que finda.
Parte significativa dos eventos de fim de ano, o Natal é data que remete aos bons sentimentos, àqueles que queremos ter e manifestar, mas que, na realidade do cotidiano, são dificultadas, esquecidas, postergadas, afinal, o ano ainda está correndo e o Natal está longe. “De repente” chega dezembro e as memórias, intenções e desejos parecem entrar em avaliação. Natal remete à infância, às crianças que fomos e às crianças com quem convivemos. Quem não lembra das primeiras experiências com o Papai Noel, o ser a quem devemos provar que fomos bonzinhos durante o ano para merecer o presente desejado? Diante do Papai Noel, muitos são os sentimentos possíveis: medo, expectativa, encantamento com a magia desta figura tão marcante que só aparece… no Natal. Lembranças boas para quem teve boas experiências com o Natal, na infância e mesmo em outras épocas da vida, ruins, em caso contrário, tristes para quem tem feridas e/ou vazios na alma.
Também é hora de lembrar das outras crianças e das outras pessoas, aquelas que não têm a condição material que todos deveriam ter e, aqui, mobiliza-se outra urgência, a de doar, propiciar um pouco aos que não tem. Campanhas de solidariedade e amor ao próximo sensibilizam e o espírito de Natal, como podemos chamar toda esta mobilização afetiva, faz com que, nesta época muitos o manifestem com sinceridade. Sim, há a vontade de fazer coisas boas, de agradar, de alegrar com aquilo que, supomos, vai propiciar bons sentimentos às pessoas. Há também o desejo de que todos possam, um dia, ter aquilo que precisam para viver e para crescer como seres humanos cada vez melhores. Neste tempo, mostra-se o que se tem de melhor, o que se aprendeu durante o ano, seja em provas escolares, seja em recitais de arte e música, seja com o melhor de nossos sentimentos. São presentes que damos e recebemos, seja de nós para os outros e deles para nós, seja de cada um para si mesmo.
Aqui entramos no desdobramento deste movimento intenso que se constela ao fim de cada ano. É como se estivéssemos avaliando, como fazem nossos professores, aquilo que realmente aprendemos de humanidade, de auto conhecimento, de melhoramentos de nosso ser… humano. Nem sempre é consciente este momento de avaliação. O que se quer, parece, é que o tão esperado dia, o dia do Natal, chegue logo. Isto se vê no trânsito de pessoas e automóveis que entram como que em frenesi pelas ruas, enfeitadas, e lojas da cidade. Tudo fica acelerado. Seria esta pressa para quê? A data chegaria mais cedo se correr mais ou é preocupação de não conseguir fazer tudo o que até o grande dia? Mas tudo o quê? A faxina da casa, a compra dos presentes, a preparação da ceia… “Será que não esqueci de nada, de ninguém? Comprei presente para todos? E que o que ganharei? Ganharei?”
Para que o presente seja merecido, temos que ser bons, bem comportados durante o ano. E temos que provar isso nas cartas ao Papai Noel. E a pergunta de cada um: Terei sido bonzinho o suficiente durante o ano? Em caso de dúvida, será que ainda dá tempo? Quem decide é o Papai Noel. O presente de Natal seria apenas um presente mesmo ou também a presença do sujeito consigo mesmo, com sua interioridade? Estando o sujeito ciente de si, ou seja, PRESENTE, sentimentos e encontros podem ser experiência de todos os dias do ano, trazendo possibilidades de aprendizagens significativas como desejamos às pessoas nos dias que antecedem o Natal? Neste dia não seria mais preciso uma data para um encontro espontâneo e de qualidade consigo e com o outro. Como projetados em mensagens de Natal, hoje enviadas por redes sociais virtuais, antes feitos de papel com lindos dizeres e lindas imagens de anjos e de Jesus, o quase esquecido motivo desta festa, todos os dias seriam dia de encontro e confraternização. Feliz Natal a todos! Com muitos presentes e muitas presenças!

23 de dezembro de 2021 – Maris Stela

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