Na coluna “Milho no Monjolo”, publicada pelo amigo Odilon Muncinelli na edição de 4 de fevereiro de 2022 do jornal “O Comércio”, de nossa cidade, a professora Aldair Muncinelli (outra amiga pela qual possuo grande carinho) apresenta um relato precioso da trajetória da imponente construção que, hoje, é ocupada pela Secretaria de Educação de Porto União. Seu terreno foi doado pelo governo do estado do Paraná em 1905, para que ali fosse construída a Escola Alemã de Porto União da Vitória. Naquele mesmo ano chegaram os trilhos da ferrovia, ainda limitada pelas águas do rio Iguaçu na ausência de uma ponte que permitisse sua travessia. Sua última parada era uma primitiva estação localizada onde, hoje, é o distrito de São Cristóvão
Em 1917 o atual prédio já existia, e a efetivação do acordo de limites assinado em outubro do ano anterior provocou singular acontecimento: construída no Paraná, a escola mudou-se para Santa Catarina sem sair do lugar. Juntamente com a Basílica, o São Brás e uma série de construções pioneiras de nossas cidades, encontra-se entre os poucos que passaram por tal mudança em todo o país. Em 1933, quase trinta anos após a doação primitiva do terreno, o local ainda era ocupado pela mesma Escola Alemã. Neste intervalo o mundo assistiu à conclusão da Primeira Guerra Mundial, à Revolução Russa, à Gripe Espanhola (que, imagino, deve ter provocado a ocupação de todos os poucos leitos então disponíveis na região), à ascensão do nazi-fascismo (Mussolini chegou ao poder na Itália em 1922; Adolf Hitler o emularia em 1933). No Brasil, houve a primeira greve geral da história do país, a Semana de Arte Moderna, o início do movimento tenentista, o centenário da independência, com seus festejos e eventos nacionalistas. Getúlio Vargas chegara à presidência pelas mãos de um golpe militar, após oferecer às centenas de pessoas que ocupavam a praça central de Porto União um de seus primeiros discursos após ser alçado a este cargo. Acontecimentos que devem ter sido estudados nas salas de aula ou, ao menos, comentados nos corredores e escadas da mais que centenária construção.
Com a Segunda Guerra Mundial e a perseguição aos germânicos e às instituições que difundiam sua cultura, a Escola Alemã deixou de funcionar e, sinal dos tempos, suas dependências passaram a ser utilizadas como depósito de armas do exército. Posteriormente, abrigariam a prefeitura e a câmara de vereadores. Em 1969, ali estava o corpo de bombeiros; Vargas há muito se fora, cometendo suicídio em resposta às pressões políticas que sofrera e, logo após, com ele se foi a democracia, ferida de morte pelos tanques que tomaram as ruas, com a conivência de setores da sociedade civil, no 1º de abril de 1964. A capital da república não mais se banhava nas águas do oceano Atlântico; passara a se esconder nas colinas do cerrado, no centro geográfico do território brasileiro. O futebol – esporte desconhecido quando do erguimento das imponentes paredes hoje pintadas de azul – tornara-se paixão de um povo, base de uma identidade nacional que, cada vez mais, identificava-se com camisas amarelas e calções azuis. A pátria vestira chuteiras, sem conseguir (ou se preocupar em) agasalhar todos os marginalizados cujos antepassados haviam sido massacrados nas terras do contestado.
Após os bombeiros mudarem-se para outra localidade, em 1982, o prédio passaria por restauração, após o que receberia as dependências da Secretaria de Educação e Cultura, posterior Casa da Cultura. Hoje, 117 anos após a doação do terreno onde foi erguido, o histórico solar ainda se destaca na silhueta urbana de nossas cidades, embalando a curiosidade de todos quantos se deparam com sua fachada, como pude constatar todas as vezes em que familiares ou conhecidos cá vieram visitar-me. Na verdade, mesmo quem aqui nasceu nutre uma curiosidade a custo contida… é que não parece de bom tom fazer perguntas sobre um elemento da paisagem que sempre esteve ali mas que, estranhamente, poucas vezes havia sido notado. Em um país que desconhece sua história, construções e documentos adquirem a singular capacidade da invisibilidade. Visitados diuturnamente por transeuntes ocupados demais para prestarem-se à reflexão, não raro tornam-se obstáculos indesejados ao progresso que, ardentemente desejado, raras vezes é compreendido. Começam então as petições, as exigências; segue-se a derrubada. Um antigo hotel, localizado ao lado a Sanepar, deu lugar a um novo empreendimento imobiliário vertical. No lugar de tantas antigas casas, de madeira e alvenaria, hoje existem convenientes estacionamentos. O mato puro e simples toma conta do espaço anteriormente ocupado pela oficina ferroviária, sumariamente eliminada sob acusação de abrigar “mendigos e viciados”. Claro, nada mais natural. Dá trabalho demais cuidar de um espaço de inegável importância histórica, melhor deixar que o mato o faça.
Enquanto isso, no lugar anteriormente ocupado pela Escola Alemã… o prédio resiste, grandioso. Assim como a Estação União, o Castelinho, o São Brás, a Basílica, o antigo Paço Municipal de União da Vitória, e tantas outras construções históricas de nossas cidades. Que possam continuar de pé, firmes e fortes, por muitos anos ainda. Para que isso ocorra, é necessário fazer da conscientização histórica uma prática diária, e da difusão e defesa da importância única de nossa trajetória, um valor maior. Esta é a responsabilidade compartilhada por todos que governam, investem, trabalham, vivem em cidades históricas, como Porto União da Vitória. Um povo que não sabe de onde veio, está condenado a não saber para onde vai, diz o famoso historiador/youtuber. Que bom que ainda possuímos nossas bússolas, personificadas em tantos faróis que, por detrás de nossas cabeças, iluminam o caminho que todos devemos trilhar. A preservação do prédio da antiga Escola Alemã é um exemplo que deve ser aplaudido e multiplicado. Oxalá sejamos capazes de fazê-lo, não importando o que nos espera no futuro. Até a próxima!
11 de fevereiro de 2022 – Vitor Marcos Gregório