PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Frankenstein

Um clássico nunca morre. A frase é conhecida, praticamente todo mundo já a ouviu ao menos uma vez na vida. Mas, por que é assim? Qual será a base do poder mágico que permite aos clássicos continuarem relevantes mesmo passadas décadas, séculos, de sua concepção? Claro que, aqui, estou me referindo a livros. Poderia falar de músicas, também, ou mesmo dos chamados clássicos do futebol. Poucos acontecimentos esportivos têm o poder de me transportar a tempos idos quanto um São Paulo x Corinthians. Trata-se de um clássico que, certamente, vive em mim há pelo menos trinta anos. Mas, hoje, quero me referir a livros. Livros clássicos. Um, em particular. Voltemos ao poder mágico das obras clássicas.
Uma das verdades menos conhecidas do ato de ler diz respeito ao fato de que, quando lemos, não estamos apenas introjetando em nós dados e informações externas até então desconhecidas. Isso até pode acontecer, principalmente quando nossa preocupação é o estudo de uma matéria nova ou a preparação para alguma prova ou concurso. A leitura de um clássico, contudo, não é o estudo para uma prova ou concurso. Ou, pelo menos, não deveria ser – ainda me lembro da experiência desagradável que experimentei ao iniciar a leitura de Dom Casmurro, tendo por objetivo apenas a preparação para as provas da Fuvest. A leitura de um clássico é feita em modo descontraído, desarmado, sem qualquer expectativa de vantagem ou ganho futuro. Quem se põe a ler Machado de Assis não pode esperar enriquecer com base nessa atividade. Pode esperar, no máximo, passar algumas horas agradáveis de relaxamento ou reflexão. E é aqui que reside o poder de tais obras. Ao nos convidar a refletir, se colocam na posição de despertar algo que já reside em nós, que sempre esteve conosco e que, muitas vezes, simplesmente esquecemos que está ali. O clássico é um amigo que dialoga, não um tutor que ensina. Ao dialogar, ensina mais do que qualquer bom professor. O clássico sobrevive ao tempo porque conversa com nossas mudanças. Escancara nossas inconsistências. Lembra de nossas limitações. Como a passagem das águas de um rio, a leitura de um clássico nunca poderá ser repetida. Por mais que o leiamos várias vezes, serão com várias obras que teremos contato. Não porque ela tenha sido misteriosamente alterada entre uma leitura e outra – pretender isso seria absurdo. Mas porque nós somos os agentes que terão mudado entre um momento e outro, refletindo a cada novo contato essa mesma mudança a partir de nossas reflexões íntimas. A leitura de livros clássicos, assim, é um exercício consciente da busca por nós mesmos; de nossos sentimentos, nossos valores, nossa humanidade. O ideal, portanto, é que fosse realizada frequentemente por todos. Se a recorrência não for possível, que o seja, ao menos, algumas vezes ao longo da vida.
Tenho a boa ventura de poder conviver com muitos livros. Não raramente passo dias inteiros imerso no hábito da leitura, e nas reflexões por ela suscitadas. Tratam-se, contudo, de leituras especializadas, ultra focadas em temas históricos específicos, realizadas com o objetivo quase exclusivo da aquisição de novos conhecimentos e da compreensão de problemas identificados de antemão. Muito recentemente me descobri pobre no conhecimento das obras clássicas. Apenas um iniciante na prática do autodescobrimento a partir das páginas de uma obra imortal. E, tendo identificado essa limitação, me pus a buscar remediá-la. Foi durante esse processo que me caiu nas mãos a obra prima de Mary Shelley: Frankenstein, ou o Prometeu moderno. Livro fantástico. Único. Verdadeiramente um clássico.
Não espere o amigo leitor que eu vá lhe contar a história dessa obra. Até porque, publicada pela primeira vez em 1818, é possível dizer que, hoje, a história do monstro criado com partes de cadáveres pelo dr. Victor Frankenstein é conhecida por todos, ainda que apenas em seus traços gerais. E buscar replicar com alguma consistência os traços magistrais com que a autora inglesa desenvolve essa narrativa seria uma pretensão duplamente ridícula. Primeiro porque teria como resultado inevitável a oferta de uma sombra tosca e mal-acabada da complexidade oferecida pela obra. Seria como pedir a uma criança que reproduzisse a pintura presente na cúpula da Capela Sistina. Não dá. E segundo porque pressuporia uma arrogância de minha parte que, se não provocasse pena, provocaria ao menos um riso condescendente. Não. Não é e não poderia ser esse meu objetivo ao escrever essas linhas. Ao invés disso, desejo convidar o amigo que me lê para que se presenteie com a experiência do contato com essa obra. Para que se deixe levar pelas reflexões finas e inquietantes acerca da natureza humana, ofertadas por uma personagem enigmática que, rejeitada no berço, passa a existência a oscilar entre emoções que, a princípio, não compreende, e que durante toda a narrativa, não controla. Que se permita enxergar pelas lentes de um monstro que não queria existir, mas, existindo, em todos provoca medo e repulsa, se descobrindo identificado com os sentimentos magistralmente elaborados por Shelley em linhas dotadas de uma inigualável maestria. Porque Frankenstein é uma obra que nos convida à compreensão de que somos, todos, anjos e demônios, na mesma intensidade devotados ao bem e tentados ao mal. Somos, por vezes, Victor; mas também sentimos e agimos, com uma frequência incômoda, como o monstro.
A compreensão desse fato deve nos levar à conclusão de que monstros somos, tal qual a personagem central dessa obra? Certamente não. Deve apenas nos lembrar de que somos humanos, e de que carregamos em nós uma humanidade inevitável, inigualável, inexplicável e, em larga medida, esquecida. Eis um exemplo de reflexão provocada pelos clássicos. Sobre nós, nossa natureza, nosso lugar no mundo. Frankenstein, de Mary Shelley, nos convida ao diálogo há mais de duzentos anos, com um sucesso que já o levou ao cinema, a séries, a revistas em quadrinhos, a músicas. Por essa razão pode ser considerado, com certeza, um dos maiores clássicos de todos os tempos. Se ainda não o conhece, faça um favor a si mesmo e o procure. E depois, caso queira retribuir a gentileza do convite, me chame para conversarmos sobre nós mesmos, pelas páginas desse monumento à literatura universal. Até a próxima!

17 de setembro de 2021 – Vitor Marcos Gregório

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