REMINISCÊNCIAS

O baile

Noite quente de verão, insone. A cama pelos idos da madrugada, inconfortável em face de diversas e constantes mudanças de posição, desafia o usuário. Vagueiam pela memória lembranças que despertam saudades, incontáveis ocorrências de passado remoto, quase histórico.
Dessas memórias, talvez a que mais desperte sentimentos, o baile ocorrido no Clube Beira Rio, o Concórdia. Seleto, admitia a frequência tão somente de sócios e eventuais convidados, para os eventos que realizava. A rigidez era incontestável, nada demovia os responsáveis pela “portaria”, os seguranças eram eficazes.
Na primavera de 1957, festejando a estação, o Clube Concórdia promoveu o Baile da Primavera como era habitual, anualmente, e, contratou a então famosa Orquestra Cassino de Sevilha para abrilhantar a festividade. A notícia espalhou como fogo em rastilho de pólvora, rapidamente, incendiaram a população portouniãovitoriense. Tanto os rapazes como as moças motivados, planejavam, almejavam, aguardavam ansiosos a realização do esperado evento.
Anteriormente ao evento, qualquer grupamento de rapazes filiados ou não ao Clube Concórdia, outro assunto inexistia senão o futuro baile com o Cassino de Sevilha era constante aos aficionados assoviar, cantarolar, música executada pela Orquestra, em especial Caminito, interpretada na abertura da apresentação.
Na época e por alguns anos seguidos, fizeram estágio no 5º BE do Exército Nacional, incorporados no CPOR, futuros eventuais oficiais e que faziam o maior sucesso entre as jovens das gêmeas do Iguaçu. A insatisfação dos rapazes era indescritível, quase incontrolável, perder para os “milicos” era inadmissível.
Naqueles dias fazia parte da diretoria do Clube Concórdia um General do Exército, comandante do 5º BE. Induvidosamente os Tenentes do CPOR iriam participar do Baile da Primavera com o beneplácito da diretoria do Clube. Noutras oportunidades, noutro Clube Social da cidade, noutras oportunidades diversas houve enfrentamento que progrediram para agressões físicas mútuas. Não se esperava outro deslinde.
Os bailes outrora iniciavam no começo da noite, próximo às 21 horas. Ouviram-se os acordes da introdução musical da Orquestra Cassino de Sevilha, tudo estava, maravilhosamente, perfeito. Iniciado o baile, ultrapassado o show de apresentação da Orquestra, os rapazes disputando a preferência para convidar as moças para dançar, quando começaram a comparecer os “convivas” que atraiam as atenções das jovens. Os ânimos, rapidamente, se alteraram e as provocações de parte a parte evoluíram para agressões. E como dizia o dileto amigo “Nho Zé”: e o pau comeu!
Iniciado o conflito com poucos contendores, Tenentes versus rapazes ainda no átrio do Clube, logo o conflito foi generalizando. Os militares chamaram os soldados da P.E. que chegaram em viaturas do Exército. Invadiram o Clube levando de roldão os guardiões da portaria. Estava estabelecida a “batalha”.
O salão de bailes do Clube se tornou “praça de guerra”: tapa daqui; soco de lá; pernada; cabeçada; todos brigavam. Pai defendendo filho; filho auxiliando pai; soldado de todo lado. Moças gritando, mulheres chorando, barulho de cadeiras caindo, de copos, garrafas quebrando, inacreditável.
… e a banda tocando …
Com a intervenção de muitos, aos poucos e, definitivamente, encerrou a confusão. Muitas com lesões nos contendores e em outros, obra algumas vezes do cacetete dos soldados, de cadeiras lançadas, garrafas atiradas, foi o saldo. As roupas de todos demonstravam o quanto difícil foi a refrega; não sobrou penteado, nem nó de gravata caprichado; foi catastrófico o resultado.
O Baile da Primavera, evento, anualmente, esperado, naquele ano de 1957 que terminou pouco tempo depois que iniciou, foi por longo tempo lembrado pelos rapazes do dia, contado aos ausentes com orgulho na defesa da “propriedade do patrimônio” (as moças), cada um emprestando os matizes que melhor lhe pareciam.
“AQUI QUEM MANDA SOMOS NÓS!” – é o brado de guerra.
… e a manhã chegou, mais um dia à frente.

26 de março de 2021 – Irapuan Caesar Costa

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