No livro dos chistes de Freud aparece uma anedota segundo a qual alguém havia emprestado um caldeirão a um judeu. Ao constatar que o caldeirão estava danificado o segundo justifica dizendo mais ou menos assim: em primeiro lugar não emprestei caldeirão nenhum de você, em segundo, quando emprestei ele já estava assim, e em terceiro lugar lhe devolvi intacto. Freud usa desta anedota para destacar que o inconsciente desconhece a contradição, contrariamente ao discurso ordinário. Esta ausência de contradição também serve para destacar que o discurso se trai, revelando a verdade através de seus deslizes. Na semana passada pudemos ver a anedota ganhar vida no senado, o que surpreende mesmo aqueles que já a conheciam – eu não a achava possível senão em livros – no pomposo rebuscamento trivial do discurso do ex juiz e atual ministro da justiça Sergio Moro. Basicamente a resposta aos vazamentos de suas conversas foram respondidos conforme a anedota. Disse ele, resumidamente: Primeiro, não se lembra das mensagens; segundo, que o conteúdo delas não é ilegal; e em terceiro, que foram adulteradas. Vejamos, o ministro afirma que apesar de não se lembrar do que está sendo divulgado, não há nada de ilegal, mas se houver foram adulteradas. Há nisso uma profunda divergência da lógica que Freud indica ser a do inconsciente. Neste último, a ausência de contradição não se deve a desonestidade, mas a limitação da própria linguagem. Há na estrutura de linguagem incapacidades de formular o real, e isto se expressa através dos lapsos, dos erros. Na fala do ministro, ao contrário, há um sintoma, não uma expressa tentativa de desvelar a verdade, mas de antecipar-se a ela defendendo-se, montando frentes de ataque em diversos níveis, apesar destas frentes contradizerem sua versão dos fatos. Obviamente aqui não estamos diante de erros que levariam a verdade se bem interpretados, mas de meras divagações, de mentiras, como um criminoso que precisa ocultar seu crime criando pistas falsas. E como sabemos que são mentiras? Simplesmente porque aceitas suas explicações elas levam à necessária conclusão de que houve uma invasão em seu celular com o objetivo de publicar mensagens que não o incriminam.
Psicólogo clínico, especialista em Teoria Psicanalítica e em Neuropsicologia. Atende em Caçador e União da Vitória. giuliano.metelski@gmail.com – WhatsApp: (49) 99825-4100 / (42) 99967-1557.
28 de junho de 2019 – Giuliano Metelski