PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Pegasus

Ao longo desta semana, o jornal The Guardian, inglês, juntamente a outros órgãos de imprensa do mundo (entre os quais se inclui o estadunidense The Washington Post), tem lançado uma série de reportagens alarmantes que, sintomaticamente, não tem recebido muita atenção no Brasil: trata-se da publicação de uma série de atos de espionagem realizados mundo afora, a partir de um aplicativo comercial para celulares chamado Pegasus.
A história, basicamente, é a seguinte. Uma companhia israelense, chamada NOS Group, um belo dia teve a luminosa ideia de especializar-se na criação e venda de aplicativos móveis de espionagem avançada, conhecidos no mundo da informática como spywares. A proposta da empresa é ousada: oferecer aos seus clientes os meios necessários para “investigar” qualquer pessoa considerada “perigosa” tornando mais simples a repressão à atos de criminalidade e terrorismo. Nobre, a princípio. Para ter acesso à ferramenta, os potenciais clientes precisam cumprir uma série de requisitos e possuir muito, mas muito dinheiro, uma vez que os preços são elevados. O que restringe a lista de compradores, basicamente, a governos nacionais e suas respectivas repartições de segurança. O amigo leitor poderá estar pensando, neste momento, que nada disso soa como escandaloso ou digno de uma semana de reportagens. E, se fosse apenas isso, eu concordaria. O caso, contudo, é que esses mesmos governos que tiveram acesso ao Pegasus com o argumento de combater criminosos e terroristas, a estão utilizando para investigar opositores políticos, jornalistas, empresários, chefes de Estado de outros países, além de ativistas dos direitos humanos. Esse é o ponto que está gerando controvérsia nas altas esferas mundiais, neste momento. Governos de países como México, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Marrocos, entre outros, estariam investigando civis com a única finalidade de manter-se no poder, e de antecipar possíveis atos que coloquem em risco esse seu projeto. Um ataque direto à democracia, portanto. Algo execrável, certamente.
Embora a questão seja séria e mereça repúdio, a menos que nos consideremos um risco real a governos corruptos, incompetentes e autoritários (o que, para mim, seria uma honra, me faltando, contudo, os predicados necessários para bem cumprir essa função) ela tem pouco a ver conosco (ainda que o governo brasileiro, mundialmente reconhecido pelos adjetivos elencados no início desse parágrafo, esteja nesse preciso momento envolvido em processo de licitação de ferramentas do tipo). Somos “peixe pequeno”, utilizando uma expressão popular e, portanto, nada temos a temer com espionagens e coisas do tipo. Certo? Tenho minhas dúvidas. A questão que quero levantar hoje vai, na verdade, na direção oposta. O tema nos diz respeito sim, principalmente, porque somos espionados e investigados de modo contínuo todos os dias de nossa existência, através do mesmo equipamento pelo qual pagamos muito caro, e que tornamos o instrumento mais pessoal dentre todo o arsenal de objetos que manuseamos cotidianamente: nosso celular.
O caso é bem conhecido. Você está conversando com alguém sobre como seu tênis estar gasto e pedindo uma urgente substituição, e, imediatamente, começam a aparecer propagandas de lojas do gênero em suas redes sociais e páginas visitadas. Ou, ainda, aquela busca sobre um item ou pessoa no Google, hoje, quase sempre leva a uma inundação de propagandas sobre o assunto por semanas a fio, a qualquer momento em que você resolva navegar na internet. Como isso é possível? Será que isso, realmente, acontece, ou se trata apenas de mais um exemplo de nossa incrível capacidade de ver o que não existe ao longo de nossa existência? Infelizmente, caro leitor, isso é real, sim. Acontece, de verdade. Com você. Comigo. Com todos. O tempo todo. Porque nossos telefones nos espionam o tempo todo e, o que é mais assustador, com nossa permissão expressa. Lembra daquele texto enorme com letras miúdas depois do qual você simplesmente clicou “aceito” sem se dar ao trabalho de ler o que estava lá? Pois é. Você deu sua permissão. Ou, ainda, quando você compra um celular novo e, na configuração inicial, você é levado a uma tela na qual é obrigado a clicar no botão “aceito as políticas de privacidade da empresa X”, sem o que não conseguirá usar seu novo aparelho? Pois é, está lá, também. Basicamente estamos pagando, hoje, caro pela regalia de sermos investigados o tempo todo. Serviços, redes sociais, vídeos, oferecidos de modo, aparentemente, gratuito a nós representam, na verdade, uma porta aberta para que tenhamos nossos dados pessoais, nossas inclinações, nossas vontades e sentimentos esmiuçados a cada segundo, com vistas à formação de uma rede infinita de informações que, vendidas a empresas que sequer conhecemos – alguém aqui já tinha ouvido falar dessa tal NOS Group? Sério? – as tornam aptas a invadir nossa privacidade de um modo tão insidioso que mal nos damos conta de que está acontecendo, supostamente, com o único objetivo de direcionar anúncios mais “significativos” nos levando a aumentar nossos gastos mesmo nos piores momentos de crise.
A oferta de anúncios personalizados já parece, a mim, algo, suficientemente, incômodo e com o qual não quero compactuar. Contudo, o problema é um pouco mais sério. Os dados que direcionam propagandas são os mesmos dados que permitem a alguém mais atento saber, absolutamente, tudo sobre mim, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância. Saber meus pontos fortes e fracos. Saber meus segredos, mesmo aqueles que não confesso nem ao travesseiro. Permite, em outras palavras, deitar abaixo os muros que garantem minha privacidade, minha individualidade, valores esses fundamentais para toda a organização social ocidental ciosamente construída desde meados do século XVIII. Em um mundo no qual ninguém tem direito ao segredo, será que a civilização seria capaz de sobreviver como até hoje? Quais seriam as implicações de um cotidiano no qual carregamos espiões em nossos bolsos em um mundo gerido por governos autocratas e empresas inescrupulosas? Poderia ser algo bom, como, por exemplo, o acordar de manhã cedo com a seguinte mensagem no celular: “você teve uma parada cardíaca durante o sono, a qual debelamos com injeção de medicamentos e aplicação de leves choques elétricos em seu coração; procure, urgentemente, um médico”. Mas poderia ser algo francamente desastroso, como a série de reportagens acerca da ferramenta Pegasus vem demonstrando, e autores geniais como George Orwell e Aldous Huxley adiantaram em suas distopias. Será que o conforto de um aparelho ultra tecnológico vale mesmo o risco de termos nossa vida devassada, completamente, com reais riscos ao nosso modo de convivência?
Penso na questão com frequência, e enquanto recebo mensagens de meu Macbook informando que algumas de minhas senhas não são mais seguras devido a um dos diários vazamentos de dados conhecidos, e enquanto rejeito diários convites para aderir ao Facebook, o que, supostamente, me permitiria interagir com amigos e família (sou das antigas, amigos e famílias, para mim, são precisamente aquelas pessoas com as quais posso e gosto de interagir pessoalmente), mais uma vez fecho o WhatsApp, o qual não sai de minha gaveta, instalado que está em um celular antigo como estratégia de cumprimento desta nova obrigação profissional dos tempos contemporâneos – ter um determinado aplicativo instalado em seu dispositivo pessoal, e sigo tentando, na medida do possível, me manter alheio e a salvo dessa loucura que se tornou um mundo no qual todos parecem querer saber tudo sobre mim. Certa vez, alguém me disse que os sinais da velhice se manifestam com mais força precisamente naqueles que se recusam a aceitar as mudanças, sejam elas tecnológicas, sociais, políticas ou econômicas. Se assim é, do alto de meus trinta e oito anos, abraço a senilidade com o vigor e o entusiasmo de uma criança. Até a próxima!

31 de julho de 2021 – Vitor Marcos Gregório

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