PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Praça Coronel Amazonas: símbolo de grandeza de uma cidade

A Praça Coronel Amazonas, recém revitalizada, representa um dos mais importantes marcos urbanísticos de União da Vitória, inserindo-a em um grupo bastante seleto de urbes que inclui Salvador, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e, até mesmo, Paris. Um fato, aliás, pouco lembrado, que merece destaque como uma das grandes pérolas da história de nossa região. Para entendê-lo em todo seu alcance, façamos uma breve digressão
O Brasil é um país universalmente reconhecido como vanguardista na área de urbanismo, devido a seu longo e profícuo histórico de construção de cidades planejadas. Quando faço essa afirmação, certamente o amigo leitor se lembra de Brasília, a mais famosa de todas, inaugurada em 1960 após anos de elaboração nas mentes e pranchetas das equipes lideradas por Oscar Niemayer e Lúcio Costa. Mas o primeiro caso em terras brasileiras antecede a atual capital federal em séculos: trata-se de Salvador, Bahia, planejada e construída para servir como sede do poder português na América, em 1549. Nos séculos seguintes, várias cidades planejadas se seguiram. Para não me estender em demasia, vou me referir apenas aos exemplos mais emblemáticos e recentes: Belo Horizonte (1897), Goiânia (1933), São Paulo (passou por reurbanização entre o fim do século XIX e o início do XX, fase na qual foram construídas a Avenida Paulista, os bairros Higienópolis e Campos Elíseos, entre outros), Rio de Janeiro (reurbanizado pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX). Várias cidades do interior de São Paulo e do Paraná também tiveram seus traçados planejados. Penso, aqui, nos casos por mim bem conhecidos de São José do Rio Preto (SP), Araraquara (SP), Ribeirão Preto (SP), Maringá (PR) e Londrina (PR), entre vários outros que também poderiam ser citados.
Em comum a todas essas cidades, está a busca por uma organização racional dos espaços e do trânsito de pessoas. Até por isso, sua marca é a adoção de padrões geométricos na definição de ruas, avenidas e bairros, como uma breve consulta a aplicativos de GPS deixa claro. Trata-se de uma prática inaugurada pelo francês Georges-EugèneHaussmann, chefe das obras de modernização e reurbanização de Paris, realizadas entre 1852 e 1870. É seu o conceito que faz da Praça Charles de Gaulle (onde está localizado o conhecido Arco do Triunfo), o vértice geométrico de onde partem várias avenidas em direção radial (lembrando os aros de uma roda de bicicleta), todas elas ligadas por ruas secundárias que as cortam em sentido transversal.
Tudo muito certo e bonito. Mas, afinal, o que a Praça Coronel Amazonas tem a ver com todos esses casos? Bem, eu diria que tem tudo a ver. Explico. O acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina, assinado em outubro de 1916, estabeleceu nessa região a única fronteira bélica do país, criando uma situação única e, novamente, pouco lembrada. Embora o município de Porto União da Vitória tenha sido territorialmente dividido em dois, com base no leito do rio Iguaçu e no traçado da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, a maior parte das construções públicas e privadas, bem como grande parte da população aqui residente à época, acabou sendo transferida para o novo município de Porto União, localizado em terras catarinenses. A razão que explica o fato é simples. Conhecedores das cheias do grande rio era natural para os primeiros moradores e administradores públicos buscar concentrar a ocupação urbana nas regiões mais altas, com vistas a escapar da fúria das águas. É por isso que precisamos subir íngremes ladeiras para contemplar alguns dos mais antigos exemplares arquitetônicos de nossas cidades: o hospital São Brás, o Castelinho, a atual sede do grupo escoteiro, a loja maçônica, a basílica e o cemitério. Todos localizados em Porto União.
O problema criado pelo acordo de 1916 impunha-se, portanto, com claridade a todos. Uma vez que a aglomeração urbana histórica de Porto União da Vitória havia sido, na prática, transferida para jurisdição catarinense, como garantir a presença paranaense nas margens do rio Iguaçu? Como incentivar a ocupação das terras deixadas ao Paraná, motivando, na prática, a criação de uma nova urbe que viria a encontrar-se geograficamente com a antiga, apenas poucos anos depois? A resposta a essas questões foi planejada em escritórios de Curitiba na transição das décadas de 1910 e 1920 e resultou, na prática, na construção de um novo paço municipal alinhado com o que de mais moderno existia em termos de urbanismo e arquitetura: a atual Praça Coronel Amazonas. Recordemos: a modernização do Rio de Janeiro não havia completado, ainda, duas décadas. Belo Horizonte possuía aproximadamente essa idade, e Goiânia ainda estava sendo planejada, a seu turno. Projetos que adotaram conceitos e práticas criadas e implementadas pelo francês Haussmann, em Paris, poucas décadas antes. Ideias que, também, são facilmente reconhecidas em fotos aéreas de nossa centenária praça.
Construída em formato geométrico hexagonal, dos vértices de cada um desses lados parte uma rua, emulando o efeito implementado na praça parisiense onde foi construído o Arco do Triunfo. Em cada um desses lados, foram construídos prédios que representam a organização política e administrativa do novo-velho município paranaense: a prefeitura com suas secretarias, a cadeia, o grupo escolar, a catedral, o imponente Hotel Paraná. No centro, o mapa do Brasil, anos depois construído. À sombra da vegetação, bustos de grandes personalidades nacionais. À distância de poucos passos, a estação ferroviária, centro econômico e social de toda a região; e as ruas e construções da Porto União da Vitória histórica, agora Porto União, com a qual rapidamente se uniriam configurando a conurbação hoje carinhosamente conhecida como “Gêmeas do Iguaçu” (perceba o amigo leitor que, embora poético e carinhoso, trata-se de um apelido historicamente impreciso, dado o processo de constituição e ocupação geográfica de ambos os municípios).
Os prédios construídos, à exceção da catedral, utilizaram-se dos princípios do Art Déco, influente escola arquitetônica então em voga nos principais centros urbanos do mundo, que conta com o Empire State Building, de New York, com o estádio do Pacaembú, em São Paulo, e com o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, entre seus exemplares. A nova estação ferroviária, inaugurada na década de 1940, bem como os hotéis, cinema e demais construções da praça localizada ao seu lado, também foram desenhadas segundo essa escola, bem como as lojas e casarões erguidas na avenida principal, dividida pela fronteira representada pelos trilhos do trem – o atual centro histórico.
Os traços geométricos da Praça Coronel Amazonas e a organização de seus espaços nos remete a um passado distante, no qual União da Vitória ensaiava seus primeiros passos rumo à proeminência estadual. Posição que foi efetivamente conquistada nas décadas seguintes graças, em grande medida, à mesma ferrovia utilizada para separar, na política, cidades que nunca deixaram de viver juntas, na prática. Até a próxima.
26 de novembro de 2021 – Vitor Marcos Gregório