PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Reflexão sobre a crise

Todos temos medo da crise. Medo não: pavor, pânico, ansiedade. Sentimentos que paralisam o corpo e a mente, que congelam o instante preciso da percepção de que estamos enfiados em uma situação que não controlamos e que, mesmo assim, ameaça mudar para sempre nossas vidas. Não importa o momento, o motivo, a racionalidade da qual supomos ser portadores. A sensação de que estamos em crise assemelha-se àquela que nos assalta quando colocados frente a um perigo de morte iminente. Como quando estamos, tranquilos, na estrada de pista simples e percebemos o carro na direção contrária, em nossa faixa. Ou quando aqueles que temem baratas, aranhas, cobras, encontram tais animais. Ou, ainda, quando somos surpreendidos pelo assaltante na rua, arma em punho, gritando palavras incompreensíveis. Todas situações de medo intenso. Pois então. Como dizia há pouco, a crise provoca medo.
Agora, cabe perguntar, o que é crise? Quais são as características disso que tanto nos assombra? A resposta, simples, vem em uma única palavra: mudança. As crises caracterizam-se por serem momentos nos quais as respostas preparadas de antemão, prontas, para todas as situações que iremos encontrar em nossa vida após sairmos da cama, simplesmente não servem mais. Não servem porque atendem a questionamentos que não mais fazem sentido. A crise é o momento no qual percebemos que nossa cartilha de bem viver está defasada, que os conselhos que recebemos durante a vida de repente não fazem sentido, que nossas esperanças e expectativas ficaram esvaziadas simplesmente porque a realidade na qual se baseiam não mais existe. Um exemplo trivial que nos ajudará a entender. Aquela mulher deslumbrante, ou aquele homem charmoso, ambos portadores das maiores qualidades do mundo, ambos objetos dos mais ardentes desejos de vida conjunta, simplesmente desmontados por um comentário racista, por uma olhadela desrespeitosa a outro ser humano, por uma implicância grosseira e irritante com a toalha jogada na cama (ato imperdoável que, fica óbvio, jamais seria esperado do ser perfeito dos primeiros meses de namoro). Relacionamento em crise. Discussões. Lágrimas. E a necessidade imperativa da tomada de solução ante a desesperadora situação. Solução que necessariamente envolverá mudanças. Seja de comportamentos e expectativas, seja de parceiros amorosos.
Como toda mudança, as que provocam crises não necessariamente levam a situações piores que as anteriores. Na verdade, a regra é que ocorra o contrário. De crise em crise aprendemos a viver melhor, nos tornamos mais versáteis, ajustamos nossas expectativas ante um mundo que insiste em nos afrontar cotidianamente tornando-nos, em poucas palavras, mais fortes. Pense no relacionamento há pouco comentado. Você não iria querer continuar com alguém que não mais suporta certo? Crise que leva a uma melhoria da vida, mesmo que essa apenas seja perceptível após alguns dias – ou semanas, ou meses – de tristeza, lágrimas e mensagens não respondidas. Considere, agora, ganhar na Mega Sena da virada. Sozinho. Multimilionário do dia para a noite. Tentador, não? Prenúncio de crise. Você, caro leitor, acostumado com a vida nos eixos, com saber exatamente quem são seus amigos e quem são seus inimigos, como iria lidar com a multidão de pessoas que buscariam se aproximar de você tão logo soubessem da feliz notícia? Aquele seu primo distante, com o qual você brincava na infância, terá lhe procurado por genuínas saudades ou apenas como tentativa de resolver aquela antiga dívida com o banco? Pois então. Mesmo uma turbinada inesperada na conta bancária pode provocar medo, ansiedade e pavor.
A essa altura o amigo que me acompanha nessas linhas já deve estar se fazendo um questionamento bastante pertinente: mas, se toda mudança provoca crise, sendo boa ou má, sendo nós mesmos seres em constante mudança, assim como o ambiente que nos rodeia, quer dizer que somos criaturas constantemente em crise? De fato, excelente pergunta. E a resposta a ela, bastante simples, é: exatamente! A grande questão é que nós, como senhores de nossas existências, possuímos a liberdade de escolher quais crises iremos viver, e quais delas irão nos afetar. Posso escolher lamentar profundamente a derrubada daquela árvore que ficava defronte à minha casa, há anos, para construção de outra casa (de gosto estético duvidoso, aliás), enquanto opto por ignorar completamente a crise pandêmica que a humanidade atravessa ou a crise política e moral na qual o país está mergulhado há anos. Provavelmente serei chamado de fútil e alienado, afinal é próprio do ser humano convencer os demais de que as crises individuais são dignas de lamentação por todos. Não fosse assim, não teríamos tentado convencer nossos pais da tragédia inigualável que foi a perda da roda daquele nosso carrinho preferido, na infância. De fato, passadas décadas ainda podemos ser afetados por esse fato singular que, certamente, mudou para sempre nossas vidas. Aquela foi nossa tragédia, que provocou a nossa crise. Que ninguém entenda assim, não importa. Mudanças são acontecimentos percebidos de modo único por cada ser que as vivenciam, e o compartilhamento da dor nada mais é que uma construção teórica tornada possível pela Revolução Cognitiva ocorrida nas origens da espécie. Podemos optar por entrar no jogo e compartilhar da consternação geral. Ou podemos fingir sentimentos, lamentarmos e, simplesmente, seguirmos com nossa vida.
A lição que fica, portanto, é que crises são mudanças, geralmente para melhor. Que somos totalmente livres para escolher quais queremos viver e quais iremos ignorar, e essa escolha, sendo inerentemente individual, não diz respeito a mais ninguém. E que, uma vez escolhidas, todas as crises, como acontecimentos cotidianos que se repetem indefinidamente, todos os dias, enquanto dura a existência, podem ser interpretadas como sinônimos dessa mesma existência e, portanto, como definidoras de um dos axiomas mais perfeitos: aquele que diz que somos seres em constante mudança, geralmente para melhor, ao longo dos séculos. Não acredita? Tudo bem. Entre uma crise e outra haverá algum momento no qual a opção será pela reflexão íntima e pela ignorância de todas. A meditação tem o poder supremo de trazer clareza a todos quantos a pratiquem, no silêncio da calmaria interior onde o barulho externo diminui de intensidade e importância e onde podemos encontrar com nossa própria essência. Que o próximo ano traga momentos de paz e conhecimento interior, e que possamos ter liberdade e discernimento para escolher quais crises iremos viver permitindo que nos mudem. Até a próxima!
23 de dezembro de 2021 – Vitor Marcos Gregório