A Páscoa sempre foi motivo de alegria em nossas vidas. Meus irmãos e eu preparávamos nossas cestas com caixa de sapato, decorando-as com papel de seda. A cola era Tenaz, mas caso faltasse servia a de trigo, feita na hora. A tesoura era única, então disputadíssima. Pintávamos casquinhas de ovos que nossa mãe recheava com amendoim doce e crocante. Em algum momento, creio que na véspera, nossos pais providenciavam os chocolates. Havia o ovo grande — nem era tanto — o médio e alguns pequenos, e maciços; tinha também o coelho maior e o menor. Os chocolates eram revestidos de papel chumbo, mais conhecido como ourinho, e as cores eram lindas! A noite da véspera era longa, tamanha a ansiedade para procurar, ao amanhecer, as cestinhas escondidas pela casa, embaixo das camas, nos armários, atrás dos sofás. Lembro duma vez que levantei antes de todos para procurar a minha, mas não a encontrei e pensei: O Coelho deve estar atrasado! Custei para adormecer. Quando encontradas conferíamos os chocolates e guloseimas para ver se todos haviam recebido a mesma quantidade, nenhuma bala a mais era permitida. Caso isso acontecesse o doce era dividido em partes iguais, se fosse uma bala uma de minhas irmãs a arremessava pela janela, antes mesmo que alguém pudesse contestar o desperdício. Nessa manhã, depois da missa obrigatória (e pouco proveitosa), na companhia dos primos, trocávamos doces e separávamos alguns para uma menina que morava perto, o Coelho não passava na casa dela. Nunca questionamos o fato, mas, no fundo, sabíamos que algo não estava certo, então desempenhávamos a função dele. Uma pequenina ação que nos enchia de alegria. Mesmo que não nos déssemos conta, sentíamos que o verdadeiro significado da celebração era mais que doces e chocolates; era união, empatia e solidariedade. Era repartir o pão, e sempre será.
Em tempos tão difíceis, as boas lembranças, recentes ou longínquas, são como bálsamos que reconfortam e fazem acreditar que há por vir tempos felizes. Feliz Páscoa!
26 de março de 2021 – Alciomara M. Buch