Resolvi dar uma saída, com a roupa de sempre (o sempre aconteceu depois da aposentadoria), legging, jaqueta de náilon, camiseta e tênis, tudo Black, inclusive a máscara. Não tive a decência de passar um lápis nos olhos; a pandemia minguou minha vaidade, apenas filtro solar facial, e tintura nos cabelos, coisa que eu não abro mão. Fone de ouvido alternando entre duas músicas, Beethoven com Fur Elise, e Ney Matogrosso com Balada do Louco. Quando gosto da música escuto pelo menos 200 vezes; mas vamos ao que interessa: na volta para casa resolvi passar num supermercado. Ao entrar me deparei com uma adolescente que oferecia aos clientes cupons promocionais, vi que uma senhora se recusou a preencher, eu aceitei. Ao escrever meu nome a moça perguntou timidamente: a senhora é a escritora? Quando entrou lhe reconheci, porém, não podia ter certeza, mas quando vi seu nome… Estava emocionada, mostrou as mãos tremendo e disse estar com vontade de chorar. Respondi sorrindo: melhor não! Contou ser aluna da terceira série e que leu meus livros mais de uma vez, afirmou ser minha maior fã, estava emocionada. Completou dizendo que ganhara o dia. Prometi levar meus livros autografados para ela. À noite, ao deitar, uma pergunta martelou meus pensamentos: por que não um simples lápis nos olhos, não custaria quase nada.
“Querida Julie, todas as fases da vida são especiais, porém a juventude talvez seja a mais bela, pois é na juventude que os sonhos começam. Abraço carinhoso.
10 de julho de 2021 – Alciomara M. Buch