INQUIETAS PALAVRAS

Desde sempre, os discursos em disputa

Quando, em uma manhã qualquer, olhos se sobressaltaram ao se chocarem contra um ou outro outdoor que se erguera sobre os passantes nas nossas cidades (que representam tantas outras cidades), houve quem dissesse que ali nascera uma guerra. A famigerada guerra dos outdoors. De um lado, o verde-amarelo – raptado da nossa bandeira – estampando o fundo das palavras Deus, família, liberdade. De outro; sobre um enlutado fundo preto, a sentença: “Negligência mata. Mais de 85 mil mortos. Quem é a favor da vida é #forabolsonaro”.
A disputa entre os discursos, que é uma das essências da linguagem, se materializa o tempo todo nos textos que produzimos. A neutralidade nunca foi uma opção possível quando se trata da linguagem. Mas de alguma maneira, quando discursos antagônicos se erigem materializados e estampados na nossa frente de forma grandiosa como em um outdoor, assim postos lado a lado, o assombro da polarização nos chega sob a pecha de guerra, como se agora, e somente agora, esta guerra começasse. Ledo engano… como se houvéssemos apagado das nossas memórias a guerra das hashtags #elesim #elenão, como se o país já não estivesse polarizado entre discursos pretensamente livres de ideologia e na outra ponta discursos, que (estes sim) seriam ideológicos.
É bom, mais uma vez, fazer o esforço de lembrar que a língua não é transparente, uma vez que as palavras não possuem sentidos próprios, mas sentidos que são atribuídos a partir do seu uso e dos processos de inserção nos discursos. Então, convém sempre perguntar: como este enunciado significa?
De um lado, as palavras Deus, família e liberdade funcionam como palavras-argumento, constituem etiquetas polêmicas, na medida em que condensam um conteúdo simbólico e menos palpável porque estão desvinculadas de uma sentença. Exatamente por isso, essas três palavras acabam então por gerar uma potência argumentativa muito elevada, uma vez que seu sentido recai em um obscurantismo facilmente engolido pelos membros apoiadores de Bolsonaro. Palavras que, inclusive, se referem mais a escolhas pessoais, como Deus e família, do que à posição Presidencial. Confundem-se então dois campos discursivos que se unem contraditoriamente à palavra liberdade. Ainda sobre isso, por meio de palavras carregadas de conteúdo semântico amplo, os autores do outdoor tomam para si e para seu Messias tais bens, como se fossem os ideais a serem perseguidos por um Estado laico. Ao se apropriar desse conteúdo, a leitura que pretendem é a de que aqueles que se opõem ao outdoor também se opõem a essas três instâncias. Desse mesmo lado da trincheira, a inscrição “Porto União da Vitória estão juntos com Bolsonaro”, atribui fraudulenta e insidiosamente um apoio generalizado, desrespeitando a coletividade.
Do outro lado, a inscrição as três asserções “Negligência mata. Mais de 85 mil mortos. Quem é a favor da vida é #forabolsonaro” sob o fundo preto são afirmações de dados que levam a uma conclusão silogística, também busca a adesão de uma comunidade e clama não por uma posição das escolhas individuais (como Deus e família), mas pela responsabilidade não de Bolsonaro enquanto pessoa, mas enquanto instância social, ou seja, o cargo por ele ocupado: a presidência. Se a negligência mata e os dados refletem um país que vem se colocando tristemente nos rankings de número de mortos por coronavírus, o sentido produzido aponta para a falta de políticas que deem conta de contornar esse quadro calamitoso de pandemia no Brasil – a palavra negligência aponta para isso.
Esta breve incursão por estes dois discursos sinaliza apenas para uma pequena e ínfima parte de como – me desculpem a pobreza desta metáfora – as palavras são armas. De fato, há uma guerra de discursos e sempre haverá. Os outdoors apenas funcionam como lupas, que nos permitem visualizá-la de maneira mais concreta. Não são apenas outdoors, mas a disputa por uma narrativa. É uma ilustração do que diz, no breve, mas potente A ordem do discurso, Michel Foucault: “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.” Os discursos interditados ou silenciados sempre cedem a outros que se instauram na memória discursiva e coletiva e se inscrevem na História e é por isso que silenciar não é uma boa opção, na luta de que nos fala Foucault.

8 de agosto de 2020 – Lorena Izabel Lima

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