INQUIETAS PALAVRAS

Quando o Presente se esvai – ou do valor semântico do tempo verbal

A contagem da passagem do tempo é preciosa em nossa sociedade. Desde muito pequenos, aprendemos a dividir o tempo em três principais estágios em relação ao momento de fala: o antes, o agora e o depois. Estes três momentos são conhecidos de longa data em nossa cultura. Na língua portuguesa, as formas verbais de Pretérito, Presente e Futuro são usados para expressar fatos que ocorreram cronologicamente antes do momento da fala do enunciador (Pretérito), no momento da fala do enunciador (Presente) e posterior à fala do enunciador (Futuro). Mas nem todas as línguas funcionam assim e algumas têm as fronteiras entre os tempos verbais bastante borradas.
A tribo Pirarrã, localizada às margens do rio Maici, em Humaitá/AM, não possui uma definição clara para os tempos verbais, de modo que a referência temporal é entendida através da combinação de aspectos lexicais e de contexto. Isto quer dizer que todas as menções ao tempo são ambíguas e só podem ser depreendidas pela situação de uso e não por um traço na estrutura do verbo. Na nossa Língua Materna o contexto também é fator de marcação temporal, mas dispomos de um repertório amplo de possibilidades de menções temporais, como o uso de advérbios e locuções (amanhã, ontem, depois da aula etc). Além disso, temos flexões diferentes para os diferentes estágios do tempo, como o pretérito imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito. Estes tempos podem aparecer combinados com mais de um verbo e indicar, além da localização temporal, a durabilidade da ação, como na sentença:
(1) Voltei a estudar Literatura.
Na frase acima, o uso dos dois verbos é chamado de perífrase. Embora o verbo “voltei” tenha valor de passado, no jogo combinatório com o verbo do infinitivo, gera-se uma leitura de escala aberta, isto é, uma ação iniciada no passado e que se estende ao presente, uma ação em progresso. Esta é uma possibilidade rica do português, que permite localizarmos tanto o tempo, quanto o aspecto durativo das ações.
O interessante em relação às menções temporais é que embora elas mudem pouco em relação à sua estrutura sintática e mórfica, semanticamente adquirem novos traços. É o que vem ocorrendo com a menção ao tempo presente (do modo indicativo). Enquanto a gramática tradicional aponta que formas como – danço, canto, cozinho – indicam o tempo presente, as descrições sociolinguísticas apontam para outra direção: o presente assim conhecido (danço, cozinho, canto, por exemplo) já não mais são usadas em português para indicar o agora, a simultaneidade entre fala e ação. No Brasil, a flexão verbal do tempo presente indica passado e futuro e bem menos o tempo presente. Podemos facilmente testar estas asserções:
(1) Polícia apreende carros furtados em BH.
(2) Amanhã eu compro o ingresso.
(3) Costuro para uma escola de teatro.
(4) A água ferve a 100º C.
Na sentença (1), embora o verbo esteja flexionado no tempo presente, a leitura que se faz é de passado perfeito (apreendeu), construção muito comum em manchetes de jornal para criar efeito de atualidade. Já em (2), temos um exemplar da progressiva substituição dos verbos do futuro (comprarei) por verbos do presente aliados a um modificador temporal (amanhã); ou, ainda, a controversa perífrase verbal com ir+verbo (vou comprar). Ainda sobre os exemplos, qualquer falante de português entenderia a frase (3) como ação frequente, e não que o falante que pronuncia está costurando naquele momento específico. Por último, em (4), o verbo do presente não indica ação simultânea em relação à enunciação e, sim, uma característica permanente, as famigeradas “verdades universais”, como “O Sol é uma estrela”, ” A Terra gira em torno do Sol” ou “Os seres humanos pensam”, que são sempre mencionadas com o tempo presente. Tudo bem. Até aqui em nenhuma das ocorrências o verbo flexionado no presente indica necessariamente o agora, o simultâneo.
O que a sociolinguística nos ensina é que (se aguçarmos nossos ouvidos concordaremos) no Brasil temos utilizado as locuções verbais com gerúndio como indicativo de presente, como em:
(5) Estou escrevendo um artigo.
Este é o verdadeiro indicativo de tempo Presente da Língua Portuguesa, porque é assim que a grande maioria dos brasileiros constrói as frases para indicar simultaneidade à fala. Quer dizer, a nossa menção ao presente é locucional e diversa daquela apontada nas gramáticas tradicionais. Do lado oposto, a gramática descritiva registra e explica os fenômenos em curso.
Analisar os verbos, dentre outras propriedades linguísticas, é como fazer uma espécie de fotografia da língua em um momento específico, que nos permitirá registrar a “história” da nossa língua. A flutuação no uso do Presente é mais um indício de como nosso idioma é rico, polivalente e vivo; um sistema altamente organizado e que só de dobra a uma gramática: a sua própria.

21 de fevereiro de 2020 – Lorena Izabel Lima

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