COISAS DA BOLA
Amigo ou traíra?

Criados não no mesmo bairro, mas morando nas proximidades, Sebastião e Dório, piazitos ainda, viviam jogando futebol pelos diversos campinhos nas adjacências de seus lares. É bom que se diga, que campinhos de futebol naquela época ainda áurea do futebol, eram encontrados em todos os cantos do nosso gigante país. Bastava ter um terreno baldio e, lá estava a piazada correndo atrás de uma pelota. Do nada eram criadas duas goleiras e o bicho pegava, se não tivesse gramado não tinha problema, mesmo que um poeirão levantasse. Fato é, que à época, surgiram craques a dar com o pé na prática do “Esporte Rei” jogando em campinhos, como o famoso camisa 7 do selecionado brasileiro, um tal de Mané. Da mesma idade, crescendo praticamente juntos, unidos como “bunda e calça”, já indo para a juventude, Sebastião e Dório começavam a pensar no ganha pão e andavam em busca de um trabalho.
Naqueles idos tempos, neste chão, principalmente na periferia, na plebe, os primeiros socorros médicos eram dados por um farmacêutico, que se locomovendo em uma bicicleta da marca “Prosdócimo”, fazia os atendimentos nas moradias. Para aplicar uma injeção tinha sempre na sua pequena mala de couro uma seringa de vidro, que junto com uma agulha, montadas na hora, eram colocadas em um recipiente cheio de água em cima das chapas dos fogões a lenha feitos de barros e tijolos, para que com a fervura sofresse a devida esterilização. O farmacêutico, muito conhecido e amigo da família do Sebastião, vendo nele o interesse em ir procurar um trabalho, sabendo que haveria um concurso em uma instituição financeira, comprou várias apostilas preparatórias e deu de presente para que ele estudasse e se preparasse para o concurso. Frise-se que, os funcionários daquela maior instituição financeira do país eram considerados como os “seus fulanos”, tinham muito reconhecimento perante a sociedade. Podia-se dizer que o proletariado vivia à margem daqueles funcionários. Trabalhar naquela instituição era sinônimo de status e bolso cheio.
Muito amigo de Dório, Sebastião o convidou para estudarem juntos e, de começo assim o fizeram na casa de “Bastião”. Em uma sexta-feira faltando praticamente dois meses para o concurso, Dório, alegando que queria mostrar para sua mãe, solicitou o empréstimo das apostilas, que prontamente foram colocadas nas suas mãos, mas com o compromisso de que na segunda-feira às devolveria. Passou segunda, terça-feira… e muitos dias da semana e nada de Dório aparecer para devolver as mencionadas apostilas. Se sentido incomodado e sem ter os livros para estudar Sebastião perdeu a viagem várias vezes indo na casa do “amigo”. Recebia sempre a resposta que ele não estava em casa ou que não poderia atendê-lo, nunca conseguia falar com ele. Foi como se ele tivesse evaporado.
A data do concurso se aproximava e Sebastião não tinha como estudar para se preparar, e não estudou. Naquele período de tempo somente conseguiu encontrar o “amigo” Dório, ainda que de longe, no dia da prova. Feito o teste, Sebastião que não estava devidamente preparado reprovou e Dório passou nas primeiras colocações, sendo logo admitido naquela instituição bancária. Muito triste, mas conformado, Sebastião nunca mais procurou ou soube do Dório, até que passados alguns meses, certa tarde ao pegar o ônibus lotação para ir trabalhar em uma oficina de bicicletas no centro das cidades, eis que encontrou o Dório sentado em um dos bancos. Se aproximando dele, Sebastião o cumprimentou e disse que queria falar com ele, recebendo como resposta que naquela hora não tinha tempo. Dório se levantou da poltrona e puxou aquele fio que tocava uma sineta, onde o motorista era avisado que no próximo ponto alguém desceria. Descendo do ônibus distante do banco cerca de uns dois quilômetros, só para não falar com Sebastião, Dório foi para o trabalho a pé naquele enorme calor daquela tarde de verão. Deixado falando sozinho dentro do ônibus, não acreditando naquela postura, muito triste e novamente magoado, nunca mais o Sebastião soube de Dório, seguiu o seu caminho e labutando em várias cidades deste mundão chamado Brasil não teve uma vida fácil, mas venceu financeiramente, formou uma linda família e vivia muito feliz.
Passados mais de cinquenta anos, já aposentado do seu ofício principal, passeando pelas cidades irmãs em uma véspera de Natal, tomando umas geladas com vários amigos na famosa “Boca Maldita”, onde a boleirada de Porto União da Vitória se reunia para falar, principalmente, sobre mulher e futebol, Sebastião viu adentrar àquele recinto o Dório. Quando este percebeu que Bastião estava por ali, bem à sua frente, fazendo uma meia volta volver, rapidamente, se escafedeu daquele ambiente. Aquele rápido encontro, cara a cara, trouxe à tona o acontecido lá atrás, onde entre lágrimas, talvez motivado também pelas cervejas já ingeridas, Sebastião confidenciou e desabafou com o narrador desta história. Disse ele, esse fulano que aqui esteve, muito meu amigo na infância e adolescência interferiu no meu futuro, talvez me cerceando de muito progresso pessoal, onde eu poderia ter tido uma vida mais fácil e não precisar sair desta nossa querida e amada terra em busca de melhores condições de vida. Ele que era meu melhor amigo, de casa, me sacaneou, foi mesquinho tirando a chance que eu teria de estudar e passar naquele concurso. Disse ainda, eu já o perdoei, pois talvez se o desenrolar tivesse sido outro eu não seria muito feliz como sou agora. Me dói na alma, porque eu só queria conversar com ele, porque tenho saudades daquele tempo quando ainda éramos jovens cheios de sonhos. Jamais eu perguntaria o porquê de ele ter feito aquilo. Quem sabe o remorso lhe coma vivo quando me encontra, mas se conversasse comigo, veria que não lhe quero nenhum mal, talvez o seu ato mesquinho à época, foi a maneira mais fácil de Deus me encaminhar para a felicidade.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.