A situação é digna de um romance de cavalaria, mas se refere a uma peleja futebolística. Uma equipe formada por jogadores amadores realiza uma viagem cansativa até a capital para enfrentar um esquadrão profissional que, embora represente a mesma companhia, figura entre os principais do estado, com seus fartos recursos e seu estádio apto a receber partidas de Copa do Mundo. É fácil imaginar o ambiente no vagão da Rede de Viação Paraná Santa Catarina no qual viajaram os jogadores oriundos de União da Vitória. Expectativa, ansiedade, frio na barriga para uns. Para outros, presumivelmente, apenas uma viagem, uma partida grande no currículo, a chance de enfrentar grandes ídolos. Em todos, a vontade de aproveitar ao máximo a inesperada oportunidade. O resultado final, provavelmente, era o menos importante. Uma vitória do grande time da capital seria algo não apenas normal, mas esperado. O ideal, contudo, seria que não fosse por um placar muito dilatado, pois ninguém gosta de tomar goleada, ainda que de profissionais. Ah, que jornada deve ter sido aquela! Pois contra todos os prognósticos, ao final do dia o Ferroviário de União da Vitória voltou para casa com uma vitória de 3 a 1 na mala, contra o imponente Ferroviário de Curitiba, até hoje um dos maiores campeões estaduais, mesmo décadas após sua extinção na fusão que originou o Colorado e, mais tarde, o Paraná Clube. Davi vencera o Golias. Como tantas vezes se vê no futebol, mas poucas vezes se pode ler em um texto fluido e agradável como o presente em Balão de couro. Prélios de uma época memorável.
Neste novo livro, obrigatório na prateleira de qualquer amante do belo esporte, Jair da Silva, o Craque Kiko, nos brinda com um desfile impressionante de causos, jogos, fotos e descrições de partidas memoráveis que, não fosse seu empenho extraordinário na realização de uma pesquisa monumental que já rendeu outros dois títulos (Bola de capotão, também sobre o futebol amador do vale do Iguaçu, e Da caserna para se tornar o orgulho de um povo, sobre a Associação Atlética Iguaçu), provavelmente seriam esquecidos tão logo suas testemunhas oculares não mais estivessem entre nós. É precisamente isso que um dos principais autores de nossas cidades quer evitar. Durante a leitura dessas páginas, é praticamente impossível não simpatizar com, ao menos, uma das equipes que duelaram, outrora, nos gramados da região – União, Ferroviário, Juventus, Avahi, São Bernardo, Porto Vitória, entre muitas outras. Particularmente, digo que me tornei admirador do incrível Ferroviário, embora não deixe de simpatizar com o humilde Tupi, sempre pronto para uma peleja não obstante sofrer derrotas por sete, nove e até treze (!) gols de diferença. A persistência é um dos valores supremos do futebol, afinal.
Também é impossível permanecer neutro diante da descrição da morte do beque Frederico, em uma partida entre Ipiranga e Avahi realizada em Canoinhas. No meio do jogo, sem razão aparente, o zagueiro cai ao chão. Levado ao hospital, não resiste e morre pouco depois, vítima de colapso cardíaco. Descrição apavorante e que, ainda hoje, acredita-se que ocorra apenas nas concorridas partidas atuais, quase como resultado inevitável da profissionalização que cobra cada vez mais dos atletas. Kiko nos mostra que não é bem assim, e que também nos tempos idos, época do chamado “futebol romântico” – o fatídico acontecimento se desenrolou em agosto de 1950, poucos dias após a final da Copa do Mundo ocorrida no Maracanã, fatalidades podiam ocorrer nos gramados mundo afora.
Balão de couro é um livro extenso – quase trezentas páginas – mas, de modo algum, cansativo. Muito pelo contrário. Trata-se, na verdade, de uma obra perigosa, principalmente, para os fanáticos pelo esporte bretão. A esses, deixo um conselho que pode se tornar precioso: apenas inicie a leitura quando tiver tempo livre, obrigatoriamente sem nenhum compromisso marcado. Isso porque, uma vez realizado o mergulho nas histórias nela contadas, será difícil parar antes que as páginas tenham se esgotado. Até lá, pode ser que a comida queime, o mato reste por cortar, os animais de estimação passem um pouco de fome e sede ou, ainda, que o (ou a) cônjuge passe a reclamar por falta de atenção. Caso isso aconteça, não digam que não avisei. Com sua escolha criteriosa de causos interessantes e uma forma única de narrá-losna linguagem boleira hoje abandonada, em larga medida, Kiko representa uma verdadeira ameaça às relações sociais de seus entusiasmados leitores, ao menos durante as horas em que estiverem com este delicioso livro em mãos.
O vale do Iguaçu é uma região rica em histórias, paisagens, personagens. É rica, também, em autores dispostos a contá-las, apresentá-las, interpretá-las. Dentre esses, Craque Kiko é um dos mais profícuos e, devo dizer, é um de meus favoritos. Sua vasta galeria bibliográfica inclui crônicas, romances históricos, passagens autobiográficas e, claro, sua trilogia de escritos futebolísticos que, torço sinceramente e com mais ardor que pelos gols do meu amado São Paulo FC, em breve será aumentada. Agradáveis, acessíveis, tais obras podem ser adquiridas em pontos de venda espalhados pela cidade e com o próprio autor que, em sua comercialização, adota uma prática que revela muito sobre seu caráter, tão apreciado por todos que o conhecem. Acontece que, embora utilize recursos próprios para imprimir e publicar seus livros, Jair da Silva destina parte dos recursos oriundos das vendas para instituições voltadas para a melhoria de vários setores da sociedade em nossas cidades. Um verdadeiro gol de placa, que só poderia ser marcado por um grande craque! Craque nos gramados. Craque nas letras. Craque na solidariedade. Esse é nosso amigo, o Craque Kiko. Até a próxima.