PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Deixai toda a esperança, vós que entrais

A frase que dá título à coluna que o amigo leitor começa a ler estava inscrita, segundo Dante Alighieri, acima da porta do inferno, local que ele começaria a descrever. Quanto mais se aproximam as eleições de outubro mais me convenço, contudo, que bem poderia estar inscrita, em letras garrafais, acima do portão de desembarque do aeroporto de Guarulhos, bem visível a todos que chegarem ao país. Não encontro outra forma de explicar meu sentimento quando leio as notícias, as entrevistas, as frases ditas pelos principais contendores do próximo processo eleitoral. Raiva. Vergonha. Desesperança completa. Que outro sentimento poderia haver? Afinal de contas, vejamos.
Um dos possíveis novos presidentes do país é, precisamente, o atual presidente. Penso ser desnecessário repetir o que tantas vezes já escrevi nestas linhas sobre a criatura. De fato, minha visão sobre ela é de tal forma negativa que, nos últimos quatro anos, tive de me acostumar a ser chamado, por seus seguidores, de petista, comunista (já experimentaram perguntar a um deles o que significa a palavra “comunista”? Asseguro, as respostas são sempre hilárias!), antipatriota, e por aí vai. O caso, contudo, é que nunca fui nenhuma dessas coisas. Na verdade, na época em que vivíamos sob governos do Partido dos Trabalhadores os epítetos a mim direcionados – e com os quais também me acostumei – eram bem outros: reacionário, capitalista, explorador dos mais pobres, entre muitos outros. Pois bem, já estou resignado. Em uma sociedade que sofre de bipolaridade política, combinada com uma boa dose de esquizofrenia histórica, é condição necessária para todo aquele que queira defender seus princípios e valores pessoais o reconhecimento de que, estando parado, estar-se-á sempre oscilando entre um lado e outro do pretenso espectro político brasileiro – esse mesmo uma criação ilógica que se apresenta como prima da jabuticaba, ou seja, só existe aqui. E isso é real: experimente tentar explicar para um estrangeiro o que define “esquerda” ou “direita” por essas bandas. De novo, as reações que você verá serão, muito provavelmente, bastante engraçadas.
Mas vamos lá, escrevi acima que o tema da coluna, dessa vez, não seria o atual ser que, alçado à presidência da república, intenta por lá continuar. Mas, sim, seu principal contendor. Que pode ser escrito sobre alguém que, tendo estado por doze anos no cargo político mais importante do país, antes de terceirizar a função para uma correligionária por outros cinco, ainda consegue ter coragem de aparecer nos veículos de mídia se apresentando como o salvador da pátria que, da outra vez, já não conseguiu “salvar”? que dá entrevistas elogiando ditaduras em Cuba, em Honduras, na China e, mais recentemente, criou uma teoria geoestratégica curiosíssima segundo a qual o mandatário de um país invadido – no caso, a Ucrânia – é tão responsável pela invasão quanto seu agressor? Lendo a entrevista publicada na revista Time, dos Estados Unidos, fiquei me perguntando se o caro senhor ex-presidente usaria a mesma concepção intelectual para explicar, digamos, o caso de um estupro. Ainda mais espantado fico quando constato, em outra janela aberta em meu navegador da internet, que o discurso utilizado pelo Molusco Rei para defender seu “camarada” Putin se parece obscenamente com o utilizado por seu principal adversário político, que coloca o país em delicada posição diplomática ao se negar a condenar a Rússia pela guerra que ora se desenrola. Postura internacional imoral, condenável e que, já se pode antecipar, será mantida intocada mesmo com a vitória do candidato da atual oposição no próximo pleito. Aquele que se apresenta como a exata oposição ao que hoje governa. O que, cada vez mais fica claro, absolutamente não é.
Não se equivoque o leitor. É claro que não coloco os dois candidatos no mesmo degrau da hierarquia de valores morais; realmente considero que não é o caso. Nesse ponto, concordo inteiramente com Eduardo Bueno, historiador gaúcho que os definiu com uma precisão cirúrgica, a qual não me canso de evocar. Ambos são lixo. Sim, lixo. Essa foi a palavra empregada por meu caro colega. Ambos são ruins para o país, ambos representam o atraso e muito de ruim que existe na nação. Só que um, o barbudo, é lixo orgânico. Incomoda, cheira mal, quando aparece gera mal-estar. Mas, no final das contas, serve muito bem em uma composteira, e de suas ações e palavras podem resultar um adubo de excelente qualidade, fundamental para a germinação de bons frutos. O segundo, o atual presidente, contudo, é lixo nuclear. Tóxico. Desse nada se aproveita. O melhor é isolar e jogar no ponto mais fundo dos sete mares. E deixar por lá. Feita a hierarquização, contudo, retomo o ponto central da comparação: ambos são da mesma espécie. Ambos se retroalimentam, um se fortalecendo com as ações e palavras do outro. Ambos amam a polarização, cancro gravíssimo que não cansa de provocar danos a toda a sociedade. Ambos são folhas da mesma árvore, uma sociedade doente que se recusa a trabalhar pela própria melhoria e segue esperando, mais uma vez, pelo messias sobrenatural capaz de livrá-la de si mesma, de seus defeitos históricos e suas presentes limitações políticas. Os obstáculos que o país enfrenta há séculos não são intransponíveis e nem precisam perdurar para sempre. Mas apenas poderão ser vencidos quando todos se convencerem de que cabe a cada um fazer a sua parte pelo bem de todos, e que uma nação é feita de seres humanos, de animais e da natureza que os sustenta, e não de um pedaço de pano e uma melodia que, de resto, pouquíssimos sabem cantar e menos ainda sabem o que significa.
A resolução de nossos problemas passa por uma mobilização que envolva mudanças significativas na convivência diária, tanto nos espaços públicos quanto nos privados. Nada mudará enquanto vigorar a lógica do “jeitinho”, segundo a qual o que o outro faz é corrupção, mas o que eu faço sempre tem uma excelente justificativa. De nada adianta colocar o peso de nossas ações nas costas de outrem. Isso não deu certo há quatro anos. Como já não havia funcionado há oito, nem há doze, nem há dezesseis. Mais uma vez nos vemos como os ratinhos na caixa de sapato, prestes a completar mais uma volta atrás de nossa própria cauda. Entre as principais opções dadas, mais uma vez nenhuma se apresenta como o sinal de um futuro melhor para o país. Eis a razão para o título dessa coluna que, inicio agora a campanha, deveria figurar em todos os corredores de entrada do país, pelos próximos quatro anos: deixai toda a esperança, vós que entrais. Será lícito esperar por sorte melhor daqui há quatro anos? Não, considerar tal possibilidade seria um signo de esperança. E dessa bênção, presentemente, estou completamente falto. Até a próxima!