Com o verão comendo solto, um calor brabo, acho que nunca visto pelos habitantes destas paragens, enfim, consegui ir e encontrar o meu barbeiro favorito, pois nas várias vezes que tinha passado por lá naquele janeiro infernal, recebi a informação que o homem estava no litoral salgando as partes. O pouco cabelo que ainda tenho estava por demais comprido e cheio de fiapos necessitando um bom trato, tanto que o corte demorou mais do que o tempo costumeiro. Sentado na cadeira, como prevenção contra o vírus-monstro, procurei não trocar palavras com o amigo barbeiro, mas fui obrigado a ouvir as conversas e histórias contadas pelos fregueses que passavam por ali, quando percebi que um deles tinha cadeira cativa naquele local, um conhecido amigo, corneta por natureza, flamenguista, famoso por ser escolhido, por méritos, como o melhor de todos os tempos na bola ao cesto no estado do lado de lá da antiga linha férrea.
Conversa daqui e conversa de lá sobre o futebol, tiravam sarro do meu querido Vascão, o torcedor dos “urubus” pediu para utilizar o vaso sanitário da barbearia, porque precisava, urgentemente, se desfazer de alguns excrementos, a sua barriga já reclamava e dava sussurros, pois se não fosse esvaziada com rapidez ela “falaria” pelo traseiro ali mesmo. Recebendo como resposta que a válvula de descarga estava com problemas, o amigo flamenguista foi orientado a atravessar a rua e pedir para utilizar o vaso sanitário da nova banca de revistas recentemente inaugurada, bem em frente à barbearia. Andando com as pernas quase juntas e retesando as nádegas para conseguir atravessar a rua e chegar, rapidamente, ao vaso, com a anuência do dono da revistaria se dirigiu, já arrastando os pés no chão, até o banheiro, não sem antes apanhar uma revista em uma das prateleiras.
Quase meia hora sentado no trono, após o serviço feito, aliviado, aquele basqueteiro abriu a porta e saiu encontrando a livraria apinhada de clientes, que, instintivamente, tiveram seus olhares meio que de revesgueio direcionados para o lado do banheiro, porque o odor oriundo de lá não era dos melhores. Colocou a revista na prateleira de onde tinha apanhado e ao se dirigir para cruzar a rua na intenção de voltar ao salão do barbeiro foi questionado pelo dono da banca:
- Não vai comprar a revista?
- Respondeu o homem do basquete – Não! Já li toda ela sentado no trono.
Puto da cara, mas mantendo a linha, o dono da Banca percebeu que vários clientes observaram a revista recém colocada na prateleira e muitos com cara de nojo, se desculpando vasaram dali.
Enquanto escanhoava a minha barba, pois o cabelo já tinha ficado no tipo, o amigo barbeiro orientava outro cliente que também tinha solicitado para ir ao banheiro, que atravessasse a rua e fosse na banca de revistas, o que ele fez numa agilidade possível. Ao chegar lá, teve negada a permissão para usar a patente. Pegando um balde de limpeza que estava na parte inferior de uma prateleira, o dono da Banca deu para o cliente do barbeiro, dizendo para ele usar o banheiro da barbearia e após enchesse aquele balde com água da torneira e jogasse no vaso. Por sorte, a pressa e necessidade em utilizar o vaso não era muita e, após soltar pela boca vários impropérios, aquele cliente do barbeiro e, talvez, futuro cliente da Banca de Revistas, literalmente chutando o balde, saiu dali resmungando. Em razão do acontecido, o relacionamento entre o barbeiro e o dono da revistaria ficou meio estremecido naquele momento.
Com o cabelo cortado no pedido e o rosto bem liso pela barba feita, mesmo que tenha demorado mais tempo que o usual, testemunha ocular do entrevero, entre muitos comentários e gozações pelo ocorrido, com a bexiga estufada eu não tive coragem de pedir para usar o sanitário. Rapidinho, com passadas rápidas, incólume, consegui chegar em casa para me aliviar.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.