COISAS DA BOLA

Fogo na gaitinha prateada

Nos anos das décadas de 1960 e 1970, em um dos “points” muito frequentado, para que pudessem extravasar as “intempéries” do dia a dia, aqueles homens e mulheres pés de valsa compareciam quase sempre no bairro Tocos, num famoso salão de bailes, conhecido como Poeira. Com o fubá jogado na pista de danças para ficar mais lisa, aumentado pela poeira dos calçados que ali deslizavam, pelas frestas das paredes sem sarrafos, lá de fora se via, pelas réstias das luzes, aquele poeirão se misturar com a serração das noites escuras. Muito conhecido pelos habitantes de Porto União da Vitória, Severino e Américo, com seus respectivos instrumentos musicais animavam as noitadas naquele salão. Severino era excelente tocando um órgão e Américo era campeão em esfolar uma sanfona, fazendo com que aquele pessoal dançasse a noite toda. Era praxe, a cada duas músicas, se revezando, faziam a tradicional parada para que os dançarinos e dançarinas ingerissem goelas abaixo as famosas “loiras geladas” e também para quem necessitasse, que tivesse tempo de ir tirar a água do joelho ou da botija.

Meu amigo Dejaniro, companheiro de peladas futebolísticas nos vários campinhos existentes perto das nossas casas, era sobrinho do gaiteiro Américo, que por morar em uma cidade vizinha, sempre no final das noitadas ia dormir na sua casa e deixava a sua gaita sobre a mesa da sala. Meio às escondidas, Dejaniro com seu corpo franzino, no sacrifício, pegava aquela gaita pesada e lá no fundo do quintal, fechado dentro de um pequeno paiol para que ninguém ouvisse, esfolava aquele acordeon na tentativa de aprender a ser um sanfoneiro. O tio Américo percebeu o gosto do sobrinho pelo instrumento musical e certo dia, fazendo uma surpresa, comprou uma gaitinha prateada de oito baixos, já meia surrada, e deu de presente para o Dejaniro. Muito faceiro, o sobrinho vivia para lá e para cá esfolando aquela gaita na ânsia de logo aprender a tocar e, aquilo começou a incomodar o seu pai, fulano muito enfezado e metido a brabo, que por pouca coisa descia a bordoada nos filhos. Ainda mais, quando chegava de viagem e queria dormir durante o dia, e o nheconheco daquele instrumento musical lhe tirava o sono. Ficava numa ojeriza só, porque também não ia com a cara do cunhado Américo por ele tocar somente nos furdunços, pois além do Poerinha, ele também tocava nos salões Diogo, Primavera e Boneca do Iguaçu, que considerava como verdadeiros antros muito frequentados pelas meretrizes. Somente aturava o seu cunhado por causa da sua esposa, senão já teria feito ele armar a capa dali. Não aceitava que ele ficasse dormindo até o meio dia após as noitadas, e na parte da tarde ficasse ensaiando, influenciando e incentivando o seu filho Dejaniro, que já estava sendo alcunhado de “finalzinho de baile”, fazendo alusão ao tio Américo que era muito conhecido pelo apelido de “final de baile”, pois a última marca na noitada era sempre tocada por ele.
Dejaniro sabendo que não tinha o apoio do pai, para não correr o risco de levar uma sova, somente esfolava a pequena sanfona prateada quando ele estivesse viajando. Em uma certa tarde, após capinar e limpar a horta no fundo do grande pátio, o amigo Dejaniro fez um fogo para queimar o mato seco e, após a lida, pensando que seu pai estivesse viajando, pois não o tinha visto naquele dia, apanhou a gaitinha prateada e começou a esfolar dentro da sala. Levou um azar danado, seu pai tinha viajado a noite toda para retornar e estava dormindo. Ao ser acordado pelo nheconheco da gaitinha, seu pai levantou-se só de cueca samba canção e, como se estivesse expelindo fogo pelas ventas, puxou pelas alças a sanfoninha arrancando-a dos ombros do filho e aproveitando aquele fogo no fundo do quintal jogou a gaita nas chamas. Dejaniro se derramava em lágrimas, não pela tunda que levou, mas de desespero ao ver a sua sanfoninha arder nas labaredas. Muito sentido com o ocorrido, um ódio momentâneo habitou o coração do piá que, já no início da juventude, quando sua mãe ascendeu, ele abriu o arco por esse mundo chamado de Brasil. A raiva que tinha do pai passou e ele se tornou um homem de bem. Anos mais tarde, ao visitar estas terras vizinhas e encostadas nos trilhos ferroviários, outrora contestadas através da maior guerra cabocla nesta Pátria, numa roda de samba, após uma pelada de futebol com os amigos, alguém apareceu com uma sanfona e deu um verdadeiro show. Olhando aquele instrumento musical, ele relembrou este fato aqui narrado e aventou a hipótese de que poderia ter sido um grande gaiteiro, não fosse o ódio que pegou por uma sanfona.
Obs: algumas partes deste texto fazem parte do novo livro, já na Editora Viseu, com lançamento para breve, com o título de Missão dada – Dez meses para a forja de um caráter.

COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.

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