PSICOLOGIA PARA HOJE
É o amor?

No dia 12 de junho temos o dia dos namorados. É a data de comemoração e/ou validação ou espera dela de um relacionamento amoroso, seja ele da natureza que for, namoro, casamento, modalidade heterossexual ou homoafetiva, ou seja, todas as formas de relacionamentos. É o dia do amor. E o que é o amor? Muitas são suas definições, sejam elas pessoais, filosóficas, psicológicas.
São muitos também os objetos de amor: aos pais, aos filhos, à família, amigos, trabalho, arte, e cada vez mais o amor aos animais está tomando lugar no coração das pessoas, mas este texto aborda do amor romântico. Robert Johnson, em sua obra We, expõe que o amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental, formando um conjunto psicológico de ideais, crenças e expectativas para o encontro de um sentido para a vida. É grande a ânsia por encontrá-lo ou por ele ser encontrado. Tenho dúvidas se o amor ganha do dinheiro na busca incessante por sua conquista, cada um com seu objetivo…
Mas o que é o amor? Sentimento frequentemente associado ao estar junto com quem se ama, para Abraham Maslow, psicólogo humanista, duas podem ser suas expressões. Uma delas, o amor D, ou amor de deficiência, direcionado a preencher algo pessoal, por necessidade de auto-estima, sexo, medo da solidão. A outra, o amor S, se interessa pela essência, pelo ser do outro, pautado em uma atitude taoísta de não interferir, aprecia o que é sem tentar melhorias ou mudanças no objeto amado. É o amor à beleza da flor onde ela está, ao filho amado com suas pequenas imperfeições. Este é duradouro e permanece novo, diferente do amor D, que quer cortar a flor para colocá-la em vaso e envelhece com o tempo.
Condição essencial para o amor S é a experiência da solitude ou capacidade de estar só, importante ao ser humano que necessita estruturar-se psicologicamente a ponto de sentir-se bem consigo mesmo, condição também essencial para poder relacionar-se saudavelmente com o outro. Esta capacidade não se estabelece magicamente na emergência da vida adulta, mas faz parte de um processo de construção de autonomia que se inicia junto com a própria vida.
A solidão, no entanto, é associada com incapacidade e abandono e leva ao evitamento do encontro da pessoa com seu mundo interno e seus sentimentos. Neste aspecto, a ampla rede de comunicação eletrônica como meio externo contribui para este evitamento. O aprisionamento aos meios de comunicação de massa, leva à crença de que a felicidade e realização estão no encontro com o que vem do mundo externo e a busca quase maníaca por esta resposta constitui um limitador e um atraso para o autoconhecimento e a autonomia. Este limitador ilude e impede a experienciação de momentos sós como oportunidade de crescimento, quando sentidos como vazio a ser preenchido por outras pessoas acessíveis em redes sociais, quando não por meio de medicamentos psicoativos.
Muitas são as formas de interpretação da solidão e isto reforça a necessidade de reflexão a respeito. À solidão se atribui um status negativo. Sua etimologia refere a “só”, do latim solus: desacompanhado e solitário. Daí a associação do termo à ideia de falta, carência, fraqueza e vazio. Mas também remete a único, singular, ou seja, ao descobrir e experienciar sua unicidade e singularidade, este estado pode ser fonte de significativas descobertas que enriquecem o ser e suas possibilidades de relacionamentos saudáveis.
Historicamente a solidão e momentos para estar só, na Antiguidade, se confundem com isolamento. Assim, o solitário é o que se afasta, por desejo ou não, impedindo a relação com os outros. Com o advento do Cristianismo, o exame de si mesmo é regulado por leis divinas e, Santo Agostinho, pensador cristão, afirma que o mal é a falta de Ser e este só se estabeleceria com Deus. Desta forma, inscreve-se no ser humano uma falta, que só a presença de Deus pode amenizar. A solidão, no Cristianismo, é vista como a marca do carente, do faltoso. Com estas crenças constituímo-nos como sujeitos temerosos à solidão e, na tentativa de fugir dela perde-se a oportunidade de vivê-la como recurso para o encontro consigo mesmo. A partir deste encontro seguro, é possível amadurecer e crescer significativamente na estruturação de melhores possibilidades de relacionamentos saudáveis, onde existem troca e crescimento mútuos. Nestas condições saímos do amor de deficiência para o amor do ser e muitos relacionamentos abusivos seriam evitados se, ao invés da carência e incapacidade de estar só, adentrássemos os meandros de nosso mundo interno e descobríssemos a riqueza da solitude.
Na contemporaneidade, a Internet e suas ferramentas são vias para relacionamentos. No entanto, estas mais desfavorecem do que propiciam contatos efetivos pela falta de proximidade concreta. Por elas dribla-se a solidão em trocas superficiais, quando não ilusórias: “No mundo on-line ninguém está tão distante que não possa ser alcançado por um click”, diz Baumann, em sua obra Amor Líquido. Na virtualidade elimina-se com uma mensagem o que não agrada, mas isso não significa que uma reflexão seja feita para analisar o motivo da não conexão. Isto reitera a solidão como ausência de si mesmo e não de outros, pois não se estabelece relacionamento e encontro consigo, a fim de reunir pensamentos, refletir, criar e dar sentido à experiência, condição necessária para relacionamentos saudáveis entre pessoas reais.
Pessoas reais se encontram com outras pessoas reais, aquelas que têm desejos, necessidades, acertam, erram, têm vontade de aprender e crescer com cada experiência, enriquecendo e fortalecendo seu modo de ser. Aquelas que sabem identificar, respeitar e administrar essas dimensões seriam as aptas a relacionamentos saudáveis e propiciadores de crescimento para si e para todos à sua volta. A estas, Feliz Dia dos Namorados e que estes se multipliquem para bem mais do que uma data comemorativa!