PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Saudades do velho amigo desconhecido

Sinto saudades do silêncio. Enquanto escrevo essas linhas, ao lado de minha casa a serra elétrica trabalha sem cessar, desde as sete e meia da manhã. E, detalhe: produzo esse texto em um feriado. Logo abaixo de onde estou, um jovem passa, animado, com seu celular a soltar ruídos incompreensíveis, metálicos. Alguma música da moda da qual ele, certamente, gosta tanto que decidiu que todos devem escutar, ainda que pelos autofalantes distorcidos de seu aparato eletrônico. No terreno da frente, trabalhadores sobem, animados, um alto muro de tijolos e cimento. Um deles, mais feliz que a média, canta a alto som. Há poucos minutos, enquanto me deliciava com o canto de um sabiá, fomos interrompidos, ele e eu, pelo som de um daqueles caminhões de um século atrás, incrivelmente barulhento e insuportavelmente fumacento, que passou pela rua tremendo tudo ao seu redor. Da contemplação de um som sem dúvida divino, fui imediatamente jogado à reflexão sobre os modos pelos quais tamanhas geringonças ainda são permitidas de circular, sem que seus donos sejam molestados, enquanto eu me sujeito a tomar uma salgada multa por não trocar a lâmpada queimada de meu veículo de meros dez anos de idade. Pensamento que não ocorre no silêncio. Apenas no caos de um país injusto, desigual e… barulhento.
Que dizer então das relações interpessoais? Nessa semana presenciei um fenômeno singular. Duas pessoas iniciaram uma conversa, apenas para rapidamente desenvolverem uma acalorada discussão que, em um átimo de segundo, quase chegou às vias de fato. O motivo? Não sei precisar. O fato notório, contudo, foi que já na conversa ambos os dialogadores demonstraram grande empenho em se fazer ouvir, sem que o obséquio fosse estendido à outra parte. Apenas um episódio de fenômeno muito mais amplo. Singular espetáculo esse, de uma sociedade formada por pessoas ávidas por falar, mas impacientes demais para ouvir. Tão impacientes, aliás, que simplesmente se recusam a tal esforço. Proponho um exercício ao amigo leitor: busque pela atenção de um ente querido, de qualquer idade, por dez minutos. Peça que ele lhe ouça, atentamente, enquanto lhe conta alguma história. Observe o que ocorre. Durante muito tempo imaginei que esse fosse um fenômeno restrito aos mais jovens, mas já sei que não. Em lugares públicos, a quantidade de casais e amigos que compartilham o espaço físico enquanto viajam pelo mundo através da tela de seus celulares impressiona. O silêncio está lá, mas apenas na aparência. Pois nas mentes dos atores de semelhante espetáculo, fervilham fotos, vídeos, textos sem sentido, piadas, músicas e toda espécie de quinquilharias que nos impedem o repouso. De tempos em tempos, lemos ou ouvimos notícias acerca do aumento nos casos e estresse, ansiedade, déficit de atenção, incapacidade de concentração. Pudera! Como se concentrar e, no limite, produzir algo com tamanha cacofonia, com semelhante bombardeio de tudo quanto conspire contra o silêncio? Não se engane o leitor, vivemos tempos de guerra! Guerra contra a clareza de ideias, contra o sentido do raciocínio, contra o estudo diligente. Não por acaso, diz-se com frequência que somos constantemente bombardeados por informações vindas de todos os lados. Eu não poderia encontrar definição mais exata.
Durante séculos a fio, o silêncio foi buscado, acalentado, valorizado. Na literatura medieval, o amor entre duas pessoas se anuncia pelo silêncio que acompanha uma troca de olhares. A descoberta que faz a ciência avançar é antecedida por horas de ação imóvel, à luz de velas ou lampião, às quais se segue o inconfundível “eureca”! O suspense de livros e filmes não existiria, não fosse o silêncio dos minutos anteriores. O autoconhecimento jamais seria alcançado, não fosse o silêncio de uma boa meditação. Que foi feito disso tudo? Passei a vida em cidades grandes, urbes imponentes barulhentas e iluminadas em demasia, sonhando com o dia em que poderia me mudar para um lugar com menos pessoas e, portanto, com menos barulho. Cá estou. Comigo vieram todos os tipos de barulhos. Externos, a partir do caótico, violento e invasivo mundo que me rodeia, e internos, advindos da dúvida, da confusão, da descrença, da busca por respostas e rotas de fuga. Dos segundos, já me convenci, provavelmente nunca me livrarei, já que isso significaria que eu teria chegado a um estágio de sabedoria o qual, confesso, não possuo qualquer expectativa de alcançar. Com os primeiros, já me resignei, terei de conviver enquanto for levado a conviver em sociedades humanas – ou seja, para sempre. E tudo bem, é assim que as coisas são. Na maior parte do tempo simplesmente não penso nisso, me ocupo na preocupação com outros assuntos mais desimportantes. Acontece que, em dias como hoje, simplesmente me surpreendo nostálgico e pensativo. Quando me perguntam o que houve, sorrio e tranquilamente respondo, “nada”. Por dentro, contudo, um sentimento me toma por inteiro. Que saudade, que profunda saudade sinto do meu velho amigo jamais conhecido, o silêncio! Até a próxima!

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