COISAS DA BOLA

Ler para quê?

Em um dia, véspera de um feriado. Com visitas em casa, minha esposa não pode ir apanhar a nossa neta mais velha de seis anos após o término da aula daquele dia, às cinco horas da tarde, me incumbindo dessa tarefa gostosa. Chegando em frente ao colégio em torno de meia hora antes, sentei-me em um dos bancos daquela praça que leva o nome do fundador da cidade no lado paranaense. Enquanto me escondia do sol sob as árvores, eu me deleitava com aquele cenário lindo e muito bem cuidado. Várias pessoas sentadas nas muretas e nos vários bancos por ali dispostos, na maioria pessoas jovens, pais, mães e algumas vovós, que também esperavam pela saída da criançada. Percebia-se que o famoso celular era presença constante nas mãos da grande maioria, que com os olhos arregalados e os dedos em constantes movimentos, digitavam e não percebiam o tempo passar. Parecia que aquelas pessoas tinham esquecido do seu entorno tamanha a concentração, talvez fosse o Zap ou qualquer rede social.
Destoando de todos, sentada com as pernas cruzadas, sozinha em um banco, uma jovem, que pela feição demonstrava ter perto de 15 anos, estava entretida totalmente na leitura de um livro robusto. Aquilo me chamou a atenção, matutei comigo, uma raridade por aqui. Pensando em ir conversar com aquela garota para saber o que estava lendo, saber o seu nome e de que família era, lhe dar os parabéns por ler, não percebi que a sineta da escola tinha tocado comunicando para todos o final da aula. Senti um sobressalto, quando antes de se atirar nos meus braços e pedir a benção, a minha neta gritava Nono…Nono…Nono. Levando um susto abracei a netinha, abençoei-a, lhe dei um beijo no rosto e, quando procurei com os olhos aquela moça leitora para tentar prosear, ela tinha sumido. Aquele espetáculo raro, mexeu comigo, pois quando eu tinha aquela idade, nunca tive a oportunidade de ler livros, porque além de não ser incentivado, desde cedo eu já andava na lida. Hoje, quase um “setentão”, buscando o conhecimento, lendo muito, travo uma luta quase insana com o tempo, o que tem me gerado um pouco de ansiedade. Penso em realizar tanta coisa na minha vida e sinto os dias pequenos diante dos muitos projetos, um deles, escrever muitos livros, já publiquei alguns, e, muitos outros já estão redigidos e diagramados na minha cabeça.
Aquela cena na praça, contrastando com o que presenciei na capital portenha, quando passeando em uma praça naquele país, sentados nos bancos, ou mesmo na grama, as pessoas tinham livros à mão. Pensando nisso, como num relampear, uma ideia tomou conta de mim. Eu começaria a incentivar a leitura. Começaria abrindo mão do lucro das vendas de certa quantidade dos meus livros. Muito alegre, eu tinha tomado essa decisão. Como incentivo à leitura, decidi doar cinquenta exemplares da minha última publicação. Passaria em cinquenta estabelecimentos comerciais e doaria um livro para cada pessoa que gostasse e tivesse o hábito de ler. Se por ventura encontrasse mais pessoas interessadas não teria problema, doaria todos os exemplares que tenho à disposição. Da imensa alegria em incentivar a leitura à uma desilusão rápida e grande, quase me nocauteou, fiquei, extremamente, decepcionado. Tendo passado em cinquenta estabelecimentos comerciais, consegui doar dois livros, pois somente duas moças, acadêmicas em faculdades locais, tinham o hábito de ler. A cada desilusão, eu perguntava para as pessoas do porquê de não lerem. As desculpas mais esfarrapadas recebi e, a que mais me marcou foi quando um jovem, bem vestido e apessoado me respondeu através de duas perguntas: ler para quê? O que ganho com isso? E foi incisivo ao me dizer que tinha amigos professores que sequer liam um livro durante um ano. Diante da resposta tomei a liberdade de perguntar para aquele rapaz, se lia algum semanário, assistia um noticiário ou acompanhava a política e, ele foi mais incisivo em me responder, para quê? Só tem informações falsas e a gente fica com mais dúvidas em quem acreditar. Diante de tudo aquilo, me questionando internamente, me sentindo um estranho naquele ninho, cheguei a triste conclusão, que já desconfiava, de que nós estamos merecendo o país que estamos “tendo”, literalmente. Mas aí, se contrapondo aos meus pensamentos negativos, a conversa tida com um jovem em um espaço para a Cultura, me fez ver uma outra realidade que me encheu de satisfação. Com 21 anos, cabelos longos, tatuagens nos braços e usando um brinco em uma das orelhas, após me atender super bem, numa longa resenha me confidenciou não ser da terrinha, viera estudar para concretizar um sonho e buscar o seu espaço. Está no quinto período em uma faculdade local, adora ler e entre os dois trabalhos que tem para conseguir se manter, trabalha também na criação de capas para futuros livros.
Pensando naquele jovem, ao me locomover para casa, já estava discernindo de que não estou sozinho nessa empreitada, ainda mais, quando comecei a me lembrar de amigos, abnegados difusores da cultura, propaladores do bem, literatos, que fazem coisas do arco da velha para deixar as pessoas esclarecidas dos seus direitos e obrigações. Não mais me vi sozinho no ninho, percebi, que mesmo difícil, nem tudo está perdido.
No que diz respeito ao meu intento em doar livros, não foi em vão, doei dois exemplares para aquelas jovens balconistas e empenhei a palavra, de que todas as minhas publicações chegariam até elas. Quanto ao jovem de 21 anos, posso afirmar que as capas das minhas futuras obras literárias, passarão por suas mãos.

COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso

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