ONDE COMEÇA A SAÚDE?

Programa Brasil Sorridente

É de comum ouvir que saúde começa pela boca, o que nos leva a uma reflexão em torno do quanto as políticas atuais de atenção à saúde bucal são efetivas na diminuição dos índices de cárie e doenças bucais no Brasil.

A promoção de saúde para todos os cidadãos implica desenvolver a capacidade de entender os problemas de saúde e implementar soluções viáveis para territórios onde tais problemas adquirem visibilidade. No contexto da saúde geral, observamos que, nas populações das diferentes regiões brasileiras, os problemas de saúde bucal são evidentes, tanto que é fácil encontrar sorrisos desdentados utilizados como exemplos de exclusão, pobreza e iniquidade.
O Ministério da Saúde do Brasil, com a Política Nacional de Saúde Bucal, efetivada pelo Programa Brasil Sorridente, pretende promover saúde bucal para todos os brasileiros, prescindindo, para tanto, da adesão dos municípios e do compromisso com a gestão efetiva desta política pública.
O Estado brasileiro compromete-se em promover a proteção social, que pode ser entendida como uma forma institucionalizada de garantir atenção aos membros de uma sociedade frente às vulnerabilidades da vida social ou natural, tais como doenças, velhice, desemprego, analfabetismo e outras formas de exclusão. A proteção social, portanto, incorpora um pacto entre o Estado e seus cidadãos para garantir uma sociedade dinâmica e desenvolvida, com o interesse de promover justiça social. O Estado é, portanto, o agente promotor da proteção social.
Contudo, em tempos de globalização e neoliberalismo, aspectos elementares da vida das pessoas, como o acesso a serviços básicos de saúde, continuam ocupando espaço secundário na agenda dos governantes, ainda mais em se considerando o caso brasileiro, onde a migração para os centros urbanos apresenta novos desafios para a saúde pública. Porém, a problemática da vida nas cidades traz consigo paradoxos. Ao mesmo tempo em que aglomerados de pessoas configuram a esfera sócio-política e econômica que o processo histórico permitiu ao homem, a ocupação desordenada do espaço urbano e sua conseqüente degradação, impuseram desafios aos atores do campo da saúde pública, como os problemas de saneamento básico que afetam principalmente populações que vivem nos limites dos recursos oferecidos pela sociedade capitalista.
Contribuindo para a busca de soluções para esses problemas, a epidemiologia e a geografia humana, além de novos conceitos apropriados das ciências humanas, permitem avançar na descrição, sistematização e reflexão acerca dos problemas de saúde das populações adstritas a determinados territórios. Isto porque a saúde das populações tem distribuição espacial desigual no Brasil e, a análise e a adoção de estratégias de ação que diminuam estas diferenças dependem do conhecimento da realidade, da interpretação desta realidade e das formas de atuação nesta com a finalidade de resolver o problema. As tentativas de compor tais estudos têm sido realizadas de forma fragmentada, incompleta, desarticulada ou deficiente.
O processo histórico de ocupação dos espaços populacionais interfere no processo saúde-doença, enfatizando que as formas de ocupação dos espaços urbano e rural determinaram condições favoráveis para a ocorrência de doenças transmitidas por vetores, doenças respiratórias e doenças de transmissão hídrica. Entre tais doenças podemos citar a febre amarela, a peste, a malária, a dengue, as leishmanioses cutâneo-mucosas e a doença de Chagas.
A saúde, nesta perspectiva, é um direito social básico, garantido constitucionalmente, que se incorpora às condições de cidadania da população brasileira. Um país pode ser denominado desenvolvido se seus cidadãos forem saudáveis, o que está atrelado à operacionalização do sistema de saúde e às condições gerais de vida da população, associadas ao modelo de desenvolvimento adotado. Uma economia dinâmica, taxas de crescimento elevadas e presença cada vez mais marcante no comércio internacional, não são o bastante se o modelo de desenvolvimento não incorporar a inclusão social, a reversão das iniqüidades entre as pessoas e as regiões, o combate à pobreza e a participação e organização da sociedade na direção de uma vida melhor.
A construção de consciência sanitária nas pessoas implica de princípio, que saúde deve ser entendida de forma integral, de modo que o sujeito e sua percepção de corpo saudável não podem ser fragmentados, nem tampouco seu corpo pode ser desarticulado e cuidado por segmentos dissociados. A definição de saúde integral extrapola a ausência de enfermidades e agrega a importância de um corpo indivisível e equilibrado física, mental e socialmente, interagindo com o meio ambiente ou ecossistema ao seu redor. É neste raciocínio que se insere a saúde da boca como pressuposto para a saúde geral. Portanto, é pertinente concordar com o jargão de que saúde começa pela boca.

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