Curitiba. Uma madrugada como outra qualquer. Alto da Glória. O Vampiro sai do castelo. Dobra a esquina. Atravessa a rua. Esconde-se na capa preta. Ouve passos. Sabe que está sendo seguido. Encontra a Confeitaria Schaeffer aberta.
Pede um martelinho e dois pães de queijo. Uma jovem entra. Aproxima-se. Ah, perdição de velho! Ela, quase sem esperança, pede para entrevistar o vampiro, para um trabalho do colégio. Ele sorri e aceita. Foi Deus que mandou você. Ela fica surpresa. A rolinha quase bate palmas. Senta. Aperta as pernas. “Veja só, estou tremendo!” Ele oferece pão de queijo. “O café está quentinho?”. Ele fala o que ela quiser. Uma só condição. Ele também quer entrevistar. Ela acata. Os dois vão tirando as cadernetas dos bolsos. Ela empresta o lápis. “O que não me contam eu escuto atrás da porta”. Fala tudo o anjinho. Uma vez no banheiro, matando aula com um coleguinha. Uma outra, no vestiário da cancha, o selinho do primeiro amor, enquanto as meninas batiam bola. Outra, um beijo de língua na melhor amiga, em casa, enquanto faziam a lição de casa. Quando não tinha mais o que contar, inventava. Ele anotava. Ela levanta e vai pedir mais um café para ele. Quando volta, cadê o vampiro? Velho maldito, nem devolveu o lápis. Ele atravessa a rua e dobra a esquina. Ainda sobra tempo para escrever: “A cigarra anuncia o incêndio de uma rosa vermelhíssima”. Chega no castelo, na esquina da Amintas de Barros com a Ubaldino do Amaral, corre para a máquina e começa a escrever: “Curitiba. Uma madrugada como outra qualquer. Alto da Glória. O Vampiro sai do castelo…”.