PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Sobre os 80 anos da Estação União

Há oitenta anos era inaugurada uma das construções mais icônicas de nossa região. Ponto de passagem de pessoas apressadas, de encontros e despedidas de casais apaixonados e famílias temporariamente separadas por motivos variados, de embarque e desembarque de mercadorias, cartas, encomendas e bagagens, de troca de notícias vindas das mais longínquas regiões. De fato, pode-se dizer que a Estação União, respeitável senhora quase centenária, é uma das principais razões de existência de duas cidades que, sem o movimento por ela proporcionado, dificilmente seriam muito mais do que acanhadas vilas localizadas em um dos muitos rincões do país.

O dia 15 de agosto de 1942 foi memorável. Autoridades afluíram em peso, ávidas por marcar sua presença nas imagens que marcariam a realização do grandioso evento. Populares também se fizeram presentes, atraídos tanto pela imponência e importância da construção, quanto pela grandiosidade da inauguração e pela presença dos convidados. Houve hasteamento de bandeira, execução do hino nacional, discursos (que, provavelmente, pareceram longos demais e ininteligíveis demais para quem estava impossibilitado de ver e ouvir em função da distância), caminhadas e, ao final, comida farta. Luxuosa servida em mesas cuidadosamente arrumadas nas salas do térreo da estação, para os convidados mais seletos. Para a população, servida em quantidade ao longo da extensão que ia até a oficina, também inaugurada na ocasião. Espanta, na verdade, a constatação de que esse evento seja muito pouco memorado nos dias que correm. Mais um dos inúmeros sintomas de uma sociedade que, decidida a não valorizar sua história, se encontra na contingência de seguir repetindo os mesmos erros incessantemente. Para os presentes, deve ter sido um evento difícil de esquecer. Para os que os sucessores, até mesmo a lembrança da data nas redes sociais e no programa de rádio que apresento gerou estranhamento. “Sério que a data é hoje? Não sabia!”
Dentro da rede ferroviária dos estados do Paraná e de Santa Catarina são poucas as estações que possuem a grandiosidade da nossa. Grandiosidade, é bom que se diga, em todos os sentidos. Em área construída – o arco que as cobre, projetado em concreto armado para cobrir duas plataformas e algumas linhas, ainda hoje maravilha por sua imponência. Em importância arquitetônica – trata-se de um dos mais belos exemplares da escola art déco, predominante no mundo ocidental na primeira metade do século XX. Em recursos investidos em sua construção – foram milhões de reais, em valores atualizados, que se multiplicam algumas vezes quando nos lembramos que, ao mesmo tempo, também a variante de São João, linha ainda existente que segue até Matos Costa, também estava sendo construída na mesma época. Na quantidade de passageiros que passaram por seus arcos durante os surpreendentemente poucos anos em que esteve em atividade.
A Estação União é grandiosa, também, em simbolismo para toda essa região. O simples fato de sua construção atesta a enorme importância que Porto União da Vitória tinha para a economia do sul do país no início da década de 1940, época marcada por enorme desenvolvimento da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina impulsionado, em larga medida, pelo racionamento de petróleo instituído em função da Segunda Guerra Mundial que, subitamente, tornou a já obsoleta – e destrutiva – utilização de madeira como combustível novamente interessante. Durante a primeira metade do século passado, as estações aqui localizadas sempre foram responsáveis pelos maiores lucros gerados por embarque e desembarque de passageiros entre todas as paradas da rede. Mesmo às vésperas da criação da Rede Ferroviária Federal, à qual todas as suas linhas seriam incorporadas, União da Vitória figurava, segundo relatório publicado em 1956, como a segunda cidade com maior movimentação de riquezas por via ferroviária em todo o Paraná, atrás apenas da cidade de Maringá – já importante centro de produção e distribuição de café.
Toda essa pujança contrasta duramente, contudo, com o abandono que se seguiu à privatização das ferrovias federais, no início da década de 1990. O impacto não poderia ter sido mais sentido em todo o vale do Iguaçu. É bem verdade que o tráfego de composições estava em decadência há algum tempo, mas também é fato que as opções de transporte rodoviário desde então disponíveis para os moradores e produtores da região nem de longe são capazes de substituir a grandeza um dia ofertada pelos trilhos ferroviários. O que acrescenta à Estação União mais um simbolismo. Aquele que representa um convite. Um convite à buscapela compreensão da trajetória de nossas cidades – não por acaso alcunhadas “terra de caminhos” – e por soluções capazes de a alçarem, novamente, a uma posição de protagonismo no futuro. A questão que se impõe é simples, ainda que dura. Imagine que o amigo leitor seja o representante de uma grande companhia cheia de dinheiro, planos e da necessidade de criar um centro produtor e distribuidor de mercadorias capaz de atender a todo o sul do país. Sem conhecer, em absoluto, nossas cidades e as pessoas que aqui moram, iria tal representante se propor a instalar aqui esse novo centro? Realizaria ele todo o vultoso investimento em formação e infraestrutura necessários para um projeto de tal porte? Pelo posicionamento geográfico extremamente favorável eu, pessoalmente, me sentiria inclinado a responder que sim. Até constatar que, a tal fator natural não corresponde a existência de eficientes artérias para escoamento da volumosa produção que, possivelmente, seria aqui originada. Ou o amigo leitor confiaria todo esse investimento a caminhões circulando lentamente pelas esburacadas, perigosas e antieconômicas rodovias que servem nossa região? Sim, a constatação é dura, é dolorida. Mas são a partir de questionamentos assim que planos eficientes nascem, e são de planos assim que essa região precisa, atualmente.
Ponto de passagem por décadas, a Estação União representa, hoje, um ponto de encontro. Encontro de épocas distintas, um passado glorioso e um futuro ainda por planejar e construir. Encontro de identidades individuais que, somadas, formam a identidade de toda a região. Encontro de histórias que, reunidas, contam muito sobre todos nós. Que ela possa seguir preservada e apta a representar, daqui a oitenta anos, a vitória de um modelo social inclusivo, justo, capaz de oferecer oportunidades de crescimento pessoal para todos. Viva a Estação União! Importante marco material e simbólico de nossa “terra de caminhos”. Até a próxima!

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