Ao iniciar, há alguns dias, a leitura do livro Do começo ao fim, de Marcelo Rubens Paiva, que narra a história de um amor ainda adolescente, de tabus como perda da virgindade, uso de drogas e todo o início do processo de desalienação, não pude deixar de fazer uma reflexão de como éramos, eu e meus amigos mais próximos. No livro, os personagens ainda muito jovens, mais ou menos dos 15 aos 18, já eram leitores contumazes e, possivelmente, a partir daí já questionavam os certos tabus que menciono, embora ainda não tivessem efetivas convicções políticas, portanto, muito mais afeitos a questões individuais. Comecei a ler livros, acho que tardiamente, aos 20 anos. Daí em diante fui me tornando, paulatinamente, um leitor compulsivo. Nesses primeiros anos, lia cerca de dois livros por mês, sempre ultrapassando os 20 por ano.
Em 1981, obtive, aos 23 anos, meu recorde até então. Li 69 livros, já enfronhado em teorias políticas que começavam a me seduzir, como o anarquismo, por exemplo. Ainda lembro que neste ano ao ler minha primeira obra sobre o movimento anarquista, em uma tarde de sábado, saí de casa e fui encontrar meu amigo Valmir de França, meu guru intelectual e marxista.
Eu já havia lido livros sobre o capitalismo, socialismo e comunismo, faltando o anarquismo. Me encantei com as ideias de Proudhon Malatesta e sobretudo Bakunin.
Percebi que aos 17 anos, eu e meu amigo Nivaldo Camargo, havíamos sido anarquistas, sem o saber.
Ainda hoje, como o grande escritor Carlos Heitor Cony, me sinto um anarquista entristecido.
De repente, quase em um átimo, trocamos as bolas de futebol e o próprio esporte bretão, pelo interesse por meninas, mas as coisas não ficaram só nisso, começamos a nos questionar, sobre coisas como liberdade e felicidade e, principalmente, sobre nosso lugar no mundo em que vivíamos.
Já escrevi por aqui que ao ouvir, recentemente, a canção, Por que nós, de Marcelo Jeneci, sentimos como se ele tivesse escrito a canção para nós, em nossos 16, 17 anos. Comentei isso com Margarete, mostrei a música para ela. Não pude mostrar para Nivaldo que em 2013, muito antes da hora, havia deixado esse mundo que conhecemos. Mandei a música para minha amiga de adolescência, Malu Longhi e trocamos infindáveis mensagens sobre minha descoberta e conexão com a canção.
Por que nós diz: Tímidos típicos sem solução, éramos únicos na geração, tínhamos dúvidas clássicas, muita aflição, éramos súditos da rebelião… sempre tem gente pra chamar de nós, sejam dois ou um milhão… nunca entendemos porque nós.
Era exatamente o que sentíamos, o que vivíamos.
E, entretanto, ainda sem engajamento político, começávamos a contestar a sociedade na qual estávamos inseridos.
Mesmo crescendo em plena ditadura e aí começarmos a construir nossas identidades, éramos mais influenciados pelas contestações derivadas do movimento hippie que começamos, em uma ideia meio esdruxula, a associar com ideias anarquistas, mesmo sem o saber.
Passávamos as tardes no escritório da imobiliária do pai de Nivaldo, arquitetando planos mirabolantes que visavam contestar a burguesia, a sociedade de consumo e a ideia do ter e não ser.
Para tal criamos um movimento, em cujo manifesto, que oportunamente, quero publicar, objetivava, abalar as estruturas de uma sociedade amorfa, alienada e alienante.
Fizemos algumas tentativas, uma malsucedida e a outra mais ou menos, porque não conseguimos divulgar nosso manifesto.
No início de 1976, Nivaldo iria prestar o serviço militar em Brasília, eu trocaria o Túlio pelo São José e me deslumbraria por um mundo mais glamoroso, exatamente, aquele que repudiávamos.
Fui abduzido e entrei em uma espécie de letargia intelectual, da qual somente sairia aos 20 anos, estimulado pelo cinema panfletário de Costa Gavras, pelas ideias anarquistas e pelas músicas de protesto, afinal como disse Chico Buarque, apesar de você, amanhã é outro dia, em clara alusão à ditadura militar.
É por tudo isso que insisto em dizer, não podemos voltar atrás.
Como disse o escritor e colunista da Folha de São Paulo, Marcelo Coelho, tirar Bolsonaro do poder é uma emergência civilizacional, na qual Lula é aquele que tem mais chances de derrotar esse candidato do atraso, do obscurantismo e da total ausência de ideias modernizadoras.
Ditadura nunca mais e que mais uma vez a esperança vença o medo.
Cabe somente a nós.