COISAS DA BOLA

Tributo para minha querida mãe Lourdes

Meio “borocoxô” pelo passamento da minha mãe Lourdes, tendo uma noite mal dormida, resolvi de manhãzinha que queria ficar sozinho naquele dia. Dando uma desculpa qualquer para a minha esposa, disse que precisava ir meio rápido resolver um problema lá na chácara e que só voltaria no final do período vespertino. Enquanto executava algumas tarefas lá no mato, com o rádio sintonizado em uma emissora local, as músicas tocadas eram daquelas que mexiam no fundo da alma, principalmente em quem estava com o coração em frangalhos. Após um pouco de lida, para descansar, sentei naquele banco embaixo das árvores, e sem conseguir me controlar desandei num choro total. Embora aparentemente seja visto como um machão, sou uma manteiga derretida e, facilmente, por ser muito emotivo derramo lágrimas, mas sempre procurando fazê-lo às escondidas, não sei se por vergonha ou medo de demonstrar a minha fragilidade. Após a morte prematura da minha querida irmã, Marcia, que quebrou a ordem natural do ciclo da vida, minha mãe, que já ao longo da sua trajetória travava sempre lutas para melhoras em sua saúde meio debilitada, em uma tristeza total, parecia que tinha desistido de tudo e jogado a toalha. Pelo sofrimento por que já tinha passado ao longo da sua existência, achava ela, que não era justo mais essa agrura, em uma dor imensurável, pois a sua única filha, companheira de jornadas diuturnas tinha ascendido precocemente e, estava impossível amainar a dor intensa. Procurando também nos fortalecermos e dar o devido conforto para nossa mãe, nós, os cinco irmãos, procurávamos realizar o máximo para fazê-la feliz, mas, por mais que cuidássemos não era como a nossa irmã, que sendo do mesmo sexo sabia das particularidades femininas.Também, agravado pelo início da pandemia da Covid-19, suas amigas começaram a ficar reclusas em seus lares, não indo mais visitá-la e, com isso, sua depressão foi mais intensa. No último ano, fazia uso de um aparelho de oxigênio para auxiliá-la na respiração, pois além das dificuldades pulmonares o seu coração estava enfraquecendo e, a cada dia ela estava mais dependente para fazer atividades mínimas como escovar os dentes, banhar-se ou mesmo ir até ao vaso sanitário. Deitada ou sentada em sua cama, não tinha forças para se locomover e fazer as suas necessidades fisiológicas, sentindo muita tristeza e vergonha. Certa feita quando ela estava com vontade de fazer xixi, colocando-a na cadeira de rodas levei-a até o vaso sanitário. Quando consegui acomodá-la, em prantos, ela me disse que estava com muita vergonha. Também em prantos, enquanto lhe limpava com uma fralda umedecida, eu lhe disse que não se preocupasse com isso, pois eu e meus irmãos éramos do mesmo sangue dela, e o que fazíamos não era por obrigação, mas sim porque nós a amávamos e ela podia contar conosco sempre. Em nossas conversas quando estávamos a sós, ela me confidenciou em detalhes coisas inimagináveis pelas quais passou, das várias vezes que foi execrada, desrespeitada e humilhada, mas que nem por isso desistiu de nós e nunca se queixou para ninguém. Me falou com muito sentimento, por não ter podido dar nenhuma riqueza material para nós filhos, pois a vida, em grande parte, lhe fora madrasta, mas se fortalecia na sua fé que nunca foi abalada, tendo a esperança de que todos os filhos teriam retidão nas atitudes. Contrapondo a ela, eu lhe disse, que a maior riqueza que ela poderia nos oferecer, nos deu com muito amor. Nos deu com imenso carinho, a educação e os ensinamentos baseados na lei de Deus. Afirmei que ela tivesse a certeza absoluta, que perante a sociedade nós éramos muito respeitados pelas nossas condutas, principalmente no tratamento com as pessoas, onde o respeito sempre se fazia presente. Que aquelas rezas do santo terço, quando ela e o pai, e nós seus filhos todos ainda pequenotes, ajoelhados ao redor da sua cama, foi o início para que aprendêssemos e incutíssemos em nossas mentes a adoração e o respeito para com Deus, seja por bons atos e obras aos nossos semelhantes. Por ser o primeiro varão, presenciei fatos de imensa dor, que nenhum dos meus irmãos sequer podem imaginar. E baseado nisso, afirmo de forma categórica, que a minha mãe Lourdes Crestani da Silva foi o verdadeiro baluarte da nossa família e, com sua fé incondicional ao Papai do Céu, fez das tripas coração por sua prole. Sempre estará na minha mente, quando nos vários domingos na parte da tarde, ela nos arrumava para irmos passear na casa das suas duas irmãs que moravam no lado paranaense, tia Landa e tia Rosa. Vestia-nos com as roupas feitas por ela em sua máquina de costurar utilizando peças de vestimentas descartadas por parentes. E lá íamos, ela como se fosse uma galinha choca com suas asas abertas tentando nos proteger, e nós os seus pintinhos, andando um atrás do outro, sempre com o maior na frente como se fosse uma escadinha.

Sabe minha mãe, por constrangimento você se preocupava com algumas verdades que serão contadas nos meus livros e, pedia para mim não o fazer, mas ainda em vida você ouviu eu lhe falar que não poderia atender o seu pedido, pois você não precisava ter vergonha de nada, porque mulher, mãe e ser humano do seu calibre são raridades neste mundo. Lembra minha querida mãe, de uma de suas maiores alegrias? Quando o seu cunhado, meu tio Orlando,que estava morando conosco para estudar na cidadee nos ajudou a fazer aquela surpresa? Era um domingo, dia das mães, e pela manhã ao levantar-se, você foi pega de supetão pelo o que nós, crianças de tudo e o tio Orlando lhe preparamos? Foi muito lindo aquilo. Da porta do seu quarto até a cozinha, naquele pequeno corredor, como se fosse uma passarela, toda enfeitada com flores e com várias cartolinas fixadas com percevejos nas paredes em madeira, continham frases desejando um feliz dia das mães e dizendo que nós a amávamos muito.
É minha querida mãe, é por esses fatos mencionados e muitos outros acontecimentos, que por ser o filho mais velho passei contigo e fui testemunha ocular e, que os meus manos sequer imaginaram me da o direito de dizer que você foi a melhor mãe do mundo. Você foi um verdadeiro cerne, enquanto que nós, ainda por aqui, somos como “pijucas”, meio carcomidos pelo tempo, pois o motor de alguns já começa a ratear e as peças necessitam de uma manutenção com mais frequência. E você mãe, aí de cima, tenho certeza, continua como aquela galinha choca, só que agora com as asas mais abertas, não só pela vigilância dos seus filhos, mas também cuidando dos seus netos e bisnetos. Você amada mãe, literalmente foi linda de corpo e alma, generosa como ninguém, pois se levasse um tapa em um dos lados da face, sem reagir, o outro lado também era colocado à disposição.
Querida mamãe! Sei que estás junto de DEUS num descanso eterno, porque ELE te esperava e te recebeu de braços abertos. E que nós, quando formos embora desta vida terrena, por merecimento, possamos ir para junto de ti e sermos também recebidos por ELE, também de braços abertos.

COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.

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