PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Reflexão de tempos eleitorais

Considero os períodos eleitorais como verdadeiras viagens no tempo. Sem brincadeira. É realmente impressionante constatar como, nessas fases, são exatamente as mesmas promessas que voltam à tona. As mesmas posturas. Os mesmos comportamentos. E, a alimentar isso tudo, claro, as mesmas ignorâncias. Em minha caixa de correio pedacinhos de papel colorido com a cara de pessoas que nunca vi – e nunca verei – brotam sem cessar, dia após dia. Que será que pensam os candidatos? Que decidirei meu voto comparando a cor de seus respectivos olhos? A alva brancura de seus sorrisos, devidamente editados em programas de modificação fotográfica? Imagino que deva ser algo do gênero, porque a única coisa que sou obrigado a transportar de meu portão para a caixa de lixo reciclável são apenas fotografias, números, nomes. Nada de propostas. Nada de princípios e valores. Nada! Apenas caras sorridentes. Como eu dizia, eleições representam, para mim, verdadeiras viagens no tempo.

Uma das ignorâncias que mais saltam aos olhos em tais períodos diz respeito ao que, efetivamente, devemos considerar no momento de decidir nosso voto. Tem gente que escolhe candidato na base da sugestão de cônjuges, parentes, amigos, vizinhos ou, mesmo, de desconhecidos na rua. Há, ainda, os que decidem o próprio futuro com base em um aperto de mão na rua, em alguma manhã de sábado. Existem, ainda, os que decidem o país em que seus filhos irão viver em troca de camisas de futebol, coloridas e de material brilhante ou, mesmo, em troca de camisetas de algodão baratas. E, claro, há também quem decida o próprio voto com base nos famigerados “santinhos” que descrevi linhas acima, alguns dos quais já devem ter brotado na minha varanda enquanto escrevo esse texto. Uma chuva de justificativas. “Voto útil”; “voto de protesto”; “voto de descaso”; voto de… voto. Não seria melhor, antes de nos decidirmos, refletir sobre o que estamos, afinal de contas, escolhendo quando nos dirigimos à urna a cada dois anos?
Considerar que votamos para eleger aqueles que nos governarão por quatro anos é apenas parte da resposta. A questão toda não se resume a isso; de fato, ela se apresenta de modo muito mais amplo e complexo. Vivemos em um regime representativo. Uma república representativa, para ser mais exato. O que significa que o sistema político que nos rege é baseado na escolha democrática, realizada de tempos em tempos, daqueles responsáveis por representar os membros da sociedade. Representar, não apenas governar: pode-se representar sem governar (por exemplo, a família real britânica), assim como é possível governar sem representar (como, por exemplo, nas ditaduras e demais regimes de tirania). Urge, assim, que reflitamos por um momento sobre o significado do conceito de representação. O que é, afinal, representar? O que se espera que o representante faça, no exercício dessa função?
Um exemplo é bastante didático para se pensar a questão: o teatro. Quando um ator precisa encarnar um personagem, precisa atuar como se fosse esse mesmo personagem, investindo toda a sua energia para convencer de que ele é o personagem, dizemos que ele está representando um papel. Durante a representação, o ator renuncia à sua própria identidade para se tornar aquele personagem. Ele se metamorfoseia. Emagrece, engorda, coloca peruca, corta o cabelo: tudo para tornar sua representação mais convincente. Será tão mais reconhecido quanto mais bem sucedido for na realização desse objetivo. Eis a essência da representação, em uma palavra: atuar como se fosse. O bom representante precisa abrir mão de si mesmo em benefício dos representados. Precisa atuar como se fosse esses mesmos representados. Precisa defender seus interesses. Mitigar suas necessidades. Em suma, precisa decidir e atuar tendo em mente, durante cada minuto de seu mandato, tendo seus representados em mente.
Por outro lado, aos representados cabe escolher aqueles cujos princípios e valores mais se avizinhem dos seus. Não se trata, apenas, de escolher alguém para governar. A questão reside na necessidade de votar em alguém que, eleito, atuará como se fosse o próprio representado. Sua face e suas necessidades. Sua voz, sua indignação e suas propostas. Cabe ao eleitor escolher aquele que será sua imagem e semelhança na câmara de deputados, de vereadores; na prefeitura, na capital do estado ou do país. O eleitor precisa saber e refletir, a cada minuto em que define seu voto, que aquele que o receber será, pelo próximo mandato, como ele mesmo seria. Não há, portanto, que afirmar de peito cheio, passada a eleição, algo como “ele não me representa”. Representa sim. Pergunte para qualquer estrangeiro. A cara do Brasil é seu presidente da república. Sempre. Assim como sempre tendemos a personificar os demais países em seus mandatários. Compreendemos bem o luto dos britânicos pela morte de sua rainha, e nos sentimos um tanto perdidos. Falecida Elizabeth II, a maior representante inglesa nas últimas sete décadas, em quem pensaremos quando nos referirmos àquele país? Charles, provavelmente. Mas precisaremos de um certo tempo até nos acostumarmos à ideia e ao exercício mental necessário para isso.
Eis a questão fundamental de toda e qualquer eleição, lamentavelmente pouco referida em tempos tão decisivos como esses: votar é escolher quem atuará como se fosse nós pelos próximos quatro anos. Que cara queremos ter? Quais palavras falaremos? Quais propostas defenderemos e implementaremos? Qual imagem quereremos passar para os demais seres humanos do planeta? Questões centrais para a definição do voto que todos deveriam fazer, sem exceção. Eleição não é casa de apostas. Não temos que votar em quem achamos que vai ganhar, mas sim com aquele que, imaginamos, se parece mais conosco. Dessa vez, estranhamente, não há como se enganar. Em tempos de internet e redes sociais, todos os candidatos, de todos os níveis, estão claramente expostos ao público eleitor. Todas as suas opiniões são conhecidas. Seus princípios e valores já foram, todos, devassados e criticados. Não há o que esconder. Bom para os eleitores conscientes, que nunca terão tido tamanha facilidade em definir sua escolha baseados em sua própria personalidade. Qual a cara da sociedade brasileira, paranaense e catarinense? Em que acreditam nossos concidadãos, e quais valores eles consideram acima de quaisquer outros? Perguntas que serão plenamente respondidas daqui há alguns dias. Então, não será mais possível tergiversar, as cartas estarão todas sobre a mesa. Os eleitos serão a cara, a voz, os princípios supremos de todos os brasileiros. Será que iremos gostar do país que, então, se descortinará? Nosso voto será o único capaz de fornecer tal resposta. Até a próxima!

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