A cidade do Rio de Janeiro apresentou um surto epidêmico de dengue no início de 2008, fato amplamente divulgado pela imprensa nacional, problema que permanece até os dias atuais. O mundo todo, exceto a Europa, sofre com a dengue, considerada pela Organização Mundial da Saúde um dos principais problemas de saúde pública no mundo, estimando-se que entre 50 a 100 milhões de pessoas se infectem anualmente, em mais de 100 países, de todos os continentes. Cerca de 550 mil doentes necessitam de hospitalização e 20 mil morrem em consequência da dengue. Desde 1986 algumas áreas urbanas do Brasil apresentam surtos epidêmicos da doença, que não é autóctone do continente americano.
Antes da colonização não havia na América o vetor hospedeiro do vírus da dengue. Quando os navios que passavam pela costa africana aportavam em terras brasileiras traziam consigo um mosquito hematófago, o Aedes aegypti, que se adaptou muito bem ao ecossistema tropical do Brasil e adquiriu notável capacidade de sobreviver no ambiente urbano peridoméstico. O estudo de Natal (2002) sobre a bioecologia do Aedes aegypti explica como este culicídio tornou-se antropofílico por excelência e demonstra como a dinâmica urbana das populações humanas contribui para a sobrevivência do referido mosquito. Este nefasto sinantropo e suas relações com os adensamentos urbanos, servem de bom exemplo de como a ocupação do solo urbano interfere no perfil epidemiológico da coletividade. A maior campanha de saúde pública hoje no Brasil está voltada ao combate à dengue.
O mosquito da dengue e sua interação tão íntima com o homem e seu ambiente urbano servem de ponto de partida para uma breve análise de como a ocupação do solo urbano, os fluxos e os fixos dos sistemas de engenharia citadinos, e o arranjo dos sistemas de saúde constroem a realidade sanitária das diversas regiões do Brasil.
Assim como a dengue, existem doenças chamadas de emergentes e reemergentes que podem ser analisadas sob o prisma da ocupação dos solos urbanos e a concentração demográfica pela qual passou o Brasil nas últimas décadas. A malária, por exemplo, continua sendo endêmica na região amazônica, mais uma vez posta em evidência pela mais recente mostra da garimpagem desenfreada em terras dos povos ianomâmis. A febre amarela, em sua versão silvestre, faz vítimas em algumas áreas. A tuberculose reemerge como grave problema de saúde pública e, por conta da resistência bacteriana, torna-se a cada dia mais difícil controlá-la, tanto no Brasil como na África. A AIDS configura-se como o grande flagelo emergente para os povos africanos, tendo também importante relevância na saúde no Brasil. A gripe aviária muito, recentemente, preocupou autoridades sanitárias do mundo todo. Em Santa Catarina, no mês de março de 2007, vinte e cinco pessoas, das quais três morreram, apresentaram doença de Chagas, possivelmente, ingerindo caldo de cana contaminado vendido num quiosque à margem da rodovia BR 101, no município de Navegantes. E no Paraná, por conta uma vigilância epidemiológica atuante, registra-se um terço dos casos de hantavirose do Brasil, especialmente, nos municípios abrangidos pela 6ª Regional de Saúde com sede em União da Vitória. O Paraná é também considerado importante foco epidemiológico da neurocisticercose, e a região de União da Vitória e de Porto União, esta última no norte catarinense, são áreas endêmicas pela existência de pocilgas em grande quantidade sem adequado controle sanitário.
Além das doenças citadas acima, a violência urbana e no campo tem ceifado muitas vidas no Brasil, e não poderia ser diferente na região compreendida pelo Planalto Norte catarinense e Sul do Paraná, onde se situam Porto União e União da Vitória respectivamente. O consumo de drogas, o tabagismo e o alcoolismo são outros fatores de comprometimento da saúde dos brasileiros. A visualização objetiva da realidade aferida pela epidemiologia é como poderemos aperfeiçoar o aparelho institucional no cuidado à saúde, descobrindo as necessidades reais da população, maximizando recursos e contextualizando a cultura regional na busca de soluções para a saúde da coletividade.
O ano de 2023, marca a condução da primeira mulher a assumir o Ministério da Saúde, a cientista Nísia Trindade, que tem muitos desafios a enfrentar na reconstrução e na retomada dos rumos da Saúde Coletiva no Brasil. Há uma esperança renovada de que possamos avançar dentro dos princípios da Reforma Sanitária e do SUS. Precisamos voltar a ser protagonistas no mundo de, por exemplo, campanhas de vacinação e atenção básica, fortalecendo o SUS como a principal estratégia para universalização do acesso e democratização dos serviços de saúde.