BREVES HISTÓRIAS

Conservadorismo e obtusidade

Em março deste ano, eu e Margarete estivemos em Portugal. O país é belíssimo e os portugueses são gentis e muito acolhedores.

Viajei com o intuito de comprar uma camiseta que aludisse a Revolução dos Cravos que em 25 de abril de 2024, completará 50 anos.
Foi, exatamente, o movimento denominado de Revolução dos Cravos que pôs fim a ditadura de António de Oliveira Salazar, instaurada em 1933 e que durou, portanto, 41 anos.
Antes de viajar pesquisei se havia um memorial ou museu referente a aludida efeméride e para minha surpresa, descobri que nada há.
Diante disso, logo em nosso primeiro dia na bela Lisboa, saímos à caça da dita camiseta e em cada loja que vendia souvenir ou mesmo camisetas, perguntávamos e mais uma vez perplexo, percebia que algumas pessoas nada sabiam da Revolução dos Cravos. Entramos já no fim do périplo, ao cair da noite, em uma loja especializada em produtos derivados da cannabis, que é, totalmente, liberada naquele país. O proprietário da loja era um sujeito simpático e instruído e nos disse que não deveríamos achar a camiseta em nenhum lugar. Fomos conversando e fui percebendo que estava diante de neoliberal, progressista apenas nos costumes, mas que sob o viés da economia era um emérito direitista. Iniciamos aí uma discussão de cunho ideológico, na qual procurei demonstrar para meu interlocutor o atraso que representou o governo Bolsonaro, que paulatinamente foi descontruindo a ciência, a educação, a saúde, a cultura, exacerbando os privilégios de uma casta dos amigos do rei, como diria Manoel Bandeira, em seu célebre poema, Passargada.
No dia seguinte, em nosso primeiro passeio dirigido, perguntei ao guia sobre a possibilidade de encontrar a referida camiseta. Nova negativa e nova estupefação. Ele, meio que tateando em um terreno pantanoso da ideologia, me disse que Salazar, apesar da truculenta ditadura, também havia tido atos positivos ao que argumentei que um tirano sanguinário nunca conseguirá apagar seu tenebroso passado, nem que faça milagres. Ele continuou tentando justificar até que resolvemos mudar de assunto. De novo havia me deparado com mais um direitista.
A viagem seguiu ele tinha um ótimo conhecimento histórico, embora distorcido sobre certo período, além de possuir excelente repertório sobre arquitetura. Mais tarde ele nos contaria que era arquiteto.
Em determinado momento, não lembro, exatamente como, entramos na questão de gênero e ele ali na proa do ônibus, disse que não era homofóbico, mas que ainda estranhava ver casais, ora formados, só por homens, ora só por mulheres. Quase que, imediatamente, foi interpelado por uma senhora, pasmem, detentora de pós-doutorado, que também disse que como ele ainda estranhava ver um homem se relacionar, afetivamente, com outro homem, assim como as mulheres. Não pude ficar quieto e disse que aquele tipo de postura me decepcionava. Os demais passageiros preferiram silenciar. Eu estava pronto para o embate.
De novo eu me via diante de mais conservadores, que ao longo da viagem defenderiam a monarquia como regime ideal de governo.
Em uma outra noite ouvi acerbas críticas contra Lula, o mensalão, corrupção e até homicídios contra adversários. Mais uma vez não me calei, dizendo que, primeiro não era petista, mas contra Bolsonaro votaria até em um cachorro e segundo, que desde 2010 voto no PSOL, e, terminei dizendo que as pessoas não podiam se esconder atrás de uma miopia proposital e esquecer que Bolsonaro era miliciano, altamente corrupto, assim como seus filhos, ligados a rachadinhas e, provavelmente, ligados ao assassinato de Marielle Franco. Novo silêncio.
Para terminar, uma das companheiras de viagem falou para o guia sobre o Aleijadinho. Como nesse dia ele atuava também como motorista, já que o titular havia faltado, ele não ouviu bem o que disseram a respeito de Aleijadinho e fez uma piada de absoluto mau gosto, dizendo que o Brasil havia tido um presidente aleijado. Mais uma vez não me calei e disse com todas as letras, lá do fundo do ônibus, que de fato o Presidente Lula não tinha um dedo, mas muito pior que isso era que o ex-presidente bolsonaro não tinha cérebro.
Novo silêncio e o guia disse, vamos mudar de assunto.
Resumo da ópera, a viagem foi fantástica, Portugal é magnífico, mas tive a infelicidade de me deparar com conservadores e com sua obtusidade.
De qualquer forma é preciso dizer que Portugal está longe de ser o paraíso dos conservadores, ao contrário, é progressista.
É isso.

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