Na maioria das vezes, a empatia pode salvar um coração triste. Percebi que poucas pessoas se colocam no lugar da outra, quando há necessidade de gastar seu valioso dinheiro. Assisti, na segunda-feira, à chegada de um ônibus, de uma cidade vizinha, que estacionou próximo ao hospital.
Os passageiros foram descendo eram de todas as idades, porém prevaleciam os mais idosos. O frio era cortante, o que me chamou a atenção foi que a maioria estava com roupas inadequadas para o frio. Uma senhorinha estava com um vestido de tecido fino, um casaquinho fino e uma sapatilha de plástico. Aproximei-me dela e lhe fiz uma pergunta retórica:-
A senhora está com frio?
Mas a resposta nem passou perto do que eu esperava, pois ela respondeu que não estava com frio, já estava acostumada com a friagem, disse-me, ela. Eu quase a peguei no colo e a levei para se aquecer.
Falei a ela que havia café quente, e estava em uma mesinha, na sala de espera, o qual era gentilmente oferecido pelos anjos, que usam a cor rosa.
Outro fato que me chamou a atenção, mas não me surpreendeu foi que ela estava sem cabelos, e nada para aquecer a cabeça. Falei a ela que deveria usar um gorro para esquentar. Sequer pensei que não tinha um. Respondeu-me que o único gorro que havia em casa, emprestou para a neta, ir à escola. Mas que havia trazido um lenço na bolsa, para usar na cabeça, porém o tecido era liso e não parava. Fiquei analisando o problema, e ela não era a única que estava mal agasalhada. Ao olhar ao redor vi mais pessoas sem cabelo, devido a quimioterapia. Penso que para os homens é mais fácil, pois usam boné ou chapéu, e tudo fica bem. Percebi que a senhorinha estava meio envergonhada, começou a tremer de frio, tentou despistar, mas pouco resolveu.
Dizem que o Universo conspira para que o bem triunfe. E assim aconteceu. Uma ex-aluna me viu e veio me abraçar. Aí, contei a ela o meu dilema, ela mais que depressa falou:
-Tenho a peça certa para dar a ela, vou em casa e volto logo, pode me esperar aqui?
Consenti com um aceno de cabeça. Passados alguns minutos ela veio com um gorrinho de pele sintética, tipo aqueles, que os russos usam. Disse-me que era da avó falecida. Fiquei tão contente que a emoção tomou conta de mim. A senhorinha pegou o gorro e ficou acariciando-o como se fosse um bichinho. Tomei a liberdade e o coloquei em sua cabeça. Ela meio sem jeito disse:
E ficou acariciando o gorro na cabeça.
Eu e minha ex-aluna, ficamos nos olhando, percebi lágrimas descendo pelo seu rosto. O que um simples gorro pode fazer por uma pessoa?
Despedimo-nos dela e fomos conversar mais adiante. Falamos sobre as dificuldades de tantas pessoas, mas que poucos recebem a ajuda exata de que precisam. Penso que poucas pessoas pensariam em dar-lhe um gorro. Daquele encontro surgiu uma grande ideia, fazermos gorrinhos para doar, pois os anjos de rosa (Casa da Bebel) estão sempre a postos para ajudar em tudo, mas se escapa-lhe alguma coisa podemos nós, fazer um pouco mais de trabalho, na caridade. Penso ser impossível que cada uma delas, vá a cada chegada de ônibus perguntar a cada paciente o que está precisando?
Nossa surpresa foi enorme quando um casal veio ao nosso encontro e nos perguntou se poderia ajudar, pois ouviu a nossa conversa com a senhorinha. Dissemos que sim. O senhor nos contou que fabrica bonés e ofereceu-se para colaborar. Estranho sentimento tomou posse de nós, dizem que quando você pratica a caridade é você quem ganha o maior prêmio, e ganhamos sim.
Por isso, um olhar mais apurado pode detectar uma necessidade, que, na maioria das vezes, fica veladamente escondida. Acabei indo com minha ex-aluna tomar um café, e conversamos sobre o assunto. Foi um dia de muitas vitórias!