COISAS DA BOLA
Malditas raposas. Foi de arrepiar até o pelo do saco.

Acompanhando as minhas redes sociais, em uma delas vi o anúncio de um muito conhecido e competente repórter esportivo, que por motivo familiar estava vendendo a sua chácara para estanciar, definitivamente, na parte central da cidade de Valões. Tal mudança de morada se fazia necessária e urgente. Para tanto, ele estava pondo para venda um galo, seis galinhas e vários pintinhos.
Tentando reativar o meu antigo galinheiro em um pedaço de chão que detenho na localidade conhecida como Terra das Melancias, me interessei pelo anúncio de venda e iniciei uma prosa com o conhecido repórter. Após muita resenha pelo Zap, nos acertamos no preço, mas ficamos num impasse sobre a transferência do bicharedo. Me explicou ele, que só estava na dependência em apanhar as aves, porque elas eram criadas soltas e ele teria chance de agarrá-las somente à noite, quando elas usam os galhos nas árvores como poleiros. Três dias se passaram até que ele conseguiu prendê-las. Comunicado de que as aves já estavam prontas para o transporte, precisávamos agora acertar minúcias sobre a mudança de domicílio. Após muita resenha, com os seis pintinhos acomodados em uma pequena caixa de papelão, o Galão e as galinhas acondicionadas em dois sacos de estopa, marcamos definitivamente o local para eu apanhar as encomendas. Elas seriam levadas até a balsa em Valões e eu me deslocaria por cerca de vinte quilômetros em uma estrada de chão e encontraria o repórter lá, só que no lado da Terra das Melancias. Perto das onze horas daquela manhã ainda cinzenta, cada um de um lado do Rio Iguaçu, acenávamos um para o outro como querendo saber como procederíamos, pois, estávamos sem o sinal de Zap. Nos enxergando e fazendo gestos, como que perguntando, e agora? Quem vai atravessar o Rio? Tomando a iniciativa, afinal era ele que tinha interesse premente em vender os galináceos, o repórter subiu na balsa e atravessou o Iguaçuzão.
Vinte e cinco reais estavam custando cada galinha. O Galão pomposo e parecendo um halterofilista sairia pela bagatela de trinta reais. Os pintinhos vieram de “nhapa”. Fui tentar fazer um Pix para efetuar o pagamento, só que a transação não foi possível. Sem sinal de celular para entrar em contato com o banco, eu conseguiria me comunicar só se fosse através de “sinal de fumaça”. E agora! O repórter foi ficando nervoso, pois esperava o pagamento em espécie. Ele tinha atravessado o rio só com o pó do bolso e estava contando com o dinheiro, até porque, teria que pagar ao balseiro, a vinda e o retorno. Em conversa com o balseiro ele deixou bem claro, que a palavra “fiado” por ali não existia. O repórter também não entregaria as penosas sem ver a cara das cédulas. Os impasses estavam criados. O pagamento da passagem da balsa foi resolvido, quando doei ao balseiro três livros, que por descuido eu tinha esquecido no banco traseiro do meu veículo. De posse dos livros e olhando as capas, surpreso, o balseiro me inqueriu: – Você é o Craque Kiko? Nas carnes, respondi na lata. Eufórico ele pediu para que eu autografasse aqueles livros. No ato redigi uma dedicatória carinhosa, pois ele se prontificou a pagar a minha dívida com os galináceos. Disse-me o balseiro: – Não se preocupe, quando você tiver retornado para o centro da Terra das Melancias, na hora que tiver tempo, me envie o valor por um Pix. Com o dinheiro da venda das aves já em seu bolso e com o translado garantido, o conhecido repórter retornou de balsa para Valões.
Já de volta no centro urbano e com sinal de celular, fiz a transferência do valor emprestado pelo balseiro e fui alojar as aves na nova morada, diga-se, um galinheiro muito chique e confortável. Um poleiro no tipo e seis ninhos individuais forrados com maravalhas faziam com que aquele galinheiro parecesse uma mansão. Em quantidade necessária, disponibilizei ração, milho e quirera para os novos moradores. Arranquei da horta umas folhas de couve, repolho, couve flor e deixei “a mão” dentro do galinheiro. Água corrente era o que não faltaria. Os bichos não teriam do que reclamar. Eu tinha a quase certeza que o Galão honraria a sua masculinidade e as galinhas botariam muitos ovos e chocariam muitos pintinhos. Pena que era uma quase certeza. Nada disso aconteceu.
A noite chegou. O dia amanheceu e não se ouviu uma buia no galinheiro. Perto das nove horas o Galão cantou, só que pareceu que estava com tosse comprida. O som daquele canto dava entender que ele estava gripado. Me dirigi até o galinheiro. Percebi que o Galão estava me fitando de frente. Contei todos os grãos do milho e da ração e percebi que estavam do jeito que deixei. Eles não comeram nada. Notei também que os seis ninhos não foram visitados pelas galinhas, estavam intactos. Pensei comigo, eles estão estranhando o novo lar, mas até amanhã, com certeza terão se adaptado e vamos ter outro ambiente no galinheiro. Me retirei e fui para a lida.
A noite chegou. Dormindo como gente grande tive um sonho esquisito. Sonhei que eu tinha um cacife político e estava com a faca e o queijo nas mãos, quando consegui construir uma ponte sobre o Rio Iguaçu, ligando a Terra das Melancias a Valões. No mesmo sonho, também foi inaugurado o asfalto entre a Terra das Cachoeiras e Santo Antônio do Iratim. Acordei e vi que tivera um sonho utópico. O dia amanheceu ensolarado e, novamente, não se ouviu nenhuma buia no novo lar das aves. Intrigado, pé por pé fui bombear. Novamente, estava tudo da maneira de dois dias atrás. Eles não tinham bulido no rango e os ninhos não tinham sido usados, somente a quirera tinha sido degustada pelos pintinhos. Notava-se facilmente, que de fome, o Galão e as seis galinhas estavam com os “garrões” moles. Encostado ao lado da porta do galinheiro o Galão tentava me fitar, só que desta vez com os olhos demostrando fraqueza, tristeza e um desacorçoamento. Como que pensando alto falei comigo mesmo:
– Porque será que os bichos não estão comendo? Será que eram tratados a caviar? O galinheiro é, praticamente, novo, foi todo remodelado. O que será que está acontecendo?
Nisso, totalmente surpreso, vi o Galão se movimentando e se escorando na tela para não cair ao me dirigir a palavra:
– Patrão novo! Nós quase morremos do coração ao atravessar aquela maldita balsa. O susto foi tão grande que até agora estamos com os bofes ruins. Sempre fomos criados soltos e escolhíamos o nosso rango. Somente a noite é que nós voávamos para os poleiros nos galhos das árvores. Aqui, fechados nesta prisão, o apetite passa por demais longe. E tem outra! Que fique claro. Com anuência do Sindicato informo que estamos em greve de fome, menos as crianças.
Muito surpreso e “p” da vida, tomando a palavra tentei me impor ao argumentar com o Galão:
– Aquela vida de antes já era. Vocês têm que se adaptar ao novo meio, não ele a vocês. Azar o de vocês, se não comerem vão finar já, já.
O Galão era esperto e me fez ver o outro lado da coisa. Explicando com sabedoria ele continuou:
– Para que nós não abotoemos o paletó pela fome e você não perca os R$ 150,00 que gastou para nossa aquisição, que tal, nos deixar livres. Te damos a palavra que durante a noite o poleiro e os ninhos serão utilizados.
Incrédulo pela capacidade de persuasão do Galão, baixei a guarda. Decidi que eles ficariam livres para ciscar e se alimentar na floresta e durante a noite viriam pernoitar no galinheiro. Deu tudo errado. Tomamos juntos no fiofó. Na segunda noite após o acordo celebrado, a raposada visitou o galinheiro e fez a festa. Com o galinheiro aberto as aves foram presas fáceis. Não sobrou nem um pintinho para contar os “avecídios”. Não acreditando naquilo, pude ver o Galão todo ensanguentado e estrebuchando no chão. Me encarando com olhos de morte, antes de ir à lona para sempre, ele ainda conseguiu balbuciar:
– Patrão Novo… Deu ruim.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.