MEMORIA E DISCURSO

Cristofascismo e Bolsonarismo: entre o religioso e o político (I)

A pandemia da Covid-19, não deixou somente milhares de mortes no Brasil, também trouxe à tona dois conceitos que interage na atualidade no campo social, político e religioso, estamos falando do Cristofascismo e Bolsonarismo.

O conceito “Cristofascismo” pertence à teóloga alemã Dorothee Sölle, que em 1970 cunhou o termo, para definir uma postura política que combina cristianismo com fascismo, baseando-se no fato das relações do partido nazista alemão com as igrejas cristãs daquele tempo. Antes de tudo, cristofascismo e bolsonarismo representam uma mistura perigosa na política e na religião no Brasil, nos últimos anos.
No conceito cristofascismo, antes de tudo, descobrimos uma retroalimentação entre o político e o religioso e que serviu de motor para o fortalecimento do bolsonarismo desde 2018. Sobretudo, essa junção fez surgir um movimento de cunho político liberal complementando-se num discurso fundamentalista religioso, na qual foram capturados setores do catolicismo conservador e parte importante das igrejas pentecostais evangélicas, como “arma” para combater, políticas públicas e sociais de cunho “comunista” e de esquerda.
Sendo assim, é importante destacar e elucidar, que o Cristofascismo é a vertente contraria ao verdadeiro cristianismo. O cristofascismo prega e defende desde uma estrutura religiosa fundamentalista e doentia, a naturalização de uma dosagem de violência como forma de vivência existencial com o Sagrado. Logo, o cristofascismo prega um cristianismo sem Cristo, sem amor, sem compaixão, sem misericórdia.
Ainda, o cristofascismo é fonte geradora de discurso de ódio. Neste sentido, invocar o conceito “Deus” para uma finalidade puramente ideológica é tão perverso e barbárico, como utilizar o conceito “Deus” para ameaçar a consciência e o livre arbítrio dos outros, como o fez, recentemente, o pastor Andre Valadão, pregador bolsonarista, que afirmou durante um culto que, se pudesse, “Deus matava” e ‘começava tudo de novo’, se referindo à comunidade LGBTQIA+.
Contudo, nos últimos anos, presenciamos um crescimento exponencial de líderes religiosos de cunho fundamentalista ocupando espaço dentro do bolsonarismo, sejam eles, na política ou na estrutura hierárquica do cristianismo no Brasil. No primeiro (na política), com discurso moralizante obtuso, retrógrado, doentio. No segundo (na religião), na existência cada vez mais frequente de jagunços de Deus, nas igrejas, nas comunidades e nas famílias.
Como resultado, o discurso cristofascista no bolsonarismo ocupa, atualmente, uma parcela importante do imaginário religioso e político no Brasil Contemporâneo. A primeira (cristofascismo), como ideia fundamentada numa teologia do poder autoritário com extrema perversidade. A segunda (bolsonarismo), como movimento de cunho personalista, raivoso e intolerante contra todo tipo de diversidade e pluralidade, seja no campo das ideias, como na vida social.
Assim, o cristofascismo e o bolsonarismo, marcam seu território, ora, desde o campo religioso para o político, ou, realizam o caminho inverso, desde o político ao campo religioso. Existe uma dimensão camaleônica nesta ação. Tudo justificado em nome de Deus, Pátria e família.
Como é sabido, religião e política, são duas armas que estão presentes ao longo da história do Brasil. Cada uma delas manifesta-se de forma singular, principalmente, em movimentos autoritários. Compreender esse movimento nos ajudará interpretar com maior clareza, que existem, ora, uma relação de aproximação, ora de distanciamento entre estes dois conceitos que de forma gradual se convertem em movimento nocivo para o processo civilizatório. Daí a necessidade de compreender que o jogo discursivo que o cristofascismo defende não surge pelo azar da história. Sua construção se dá por meio da “banalização do mal” e a instrumentalização da religião.
Ao aderir ao projeto Cristofascista, as igrejas cristãs, aderem a uma maquinaria estatal profundamente perversa. Segundo Fabio Py, “O que parece evidente é que as ações desses discretos religiosos remontam ao mal que as pessoas comuns podem praticar nos contextos autoritários, quando deixam de refletir criticamente. Retomando as reflexões de Arendt, a banalização do mal ocorre quando um governo se baseia em concepções que levam à tentativa de tirar a humanidade do “outro indesejável” e acabam por fomentar nas pessoas mais comuns a incapacidade de compaixão pelo próximo”.
Sem dúvida, está foi a tônica constante durante os quatro anos do governo Bolsonaro, uma vivencia religiosa desde a teologia do poder autoritário que se concretizou em um ideário político de cunho sociológico-religioso, anti-humanista e anticivilizatório. Esta formula se concretizou desde uma interpretação medíocre, leviana, criminosa e literal de trechos do Antigo Testamento por parte de uma parcela importante de lideranças religiosas cristãs, com a clara intenção de estabelecer e fortalecer a “banalização do mal” em potência máxima.
Nesse contexto, as características próprias que estabelecem uma aproximação entre o cristofascismo e o bolsonarismo, se concretizam em uma cruzada moralista, reivindicando uma virilidade patriarcal misturada com um autoritarismo de caserna que defende um processo civilizatório de índole barbárica, como doutrina política, manipulação ideológica, ideais nacionalistas tentando legitimar, desde a instrumentalização da religião para alicerçar um Estado paralelo entre milícias, fundamentalistas religiosos e fascistas com roupagem conservadora de índole cristã. Basta lembrar, as manifestações de bolsonaristas – após as eleições de outubro de 2022 – desfilando nas ruas ou rezando terço ajoelhados na frente de um pneu em plena via pública.
Resumidamente, no cristofascismo e no bolsonarismo, encontramos a concretização do contraditório para a banalização do mal, que abarca a instrumentalização do imaginário religioso e a máquina do poder autoritário. O bolsonarismo buscou e ainda procura fortalecer sua estrutura de poder desde diferentes discursos teológicos de extrema perversidade, para fundamentar seu desejo de poder autoritário e anticivilizatório e com ele alimentar e fortalecer a estrutura perversa do Cristofascismo no campo político e religioso.

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