CONTEMPLANDO
Palavras sujas

Podemos analisar o significado das palavras por várias perspectivas. A relação entre elas e o que nomeiam no mundo, a relação entre elas e os conceitos que estão na nossa mente, e a relação entre elas e a sociedade (incluindo-se questões ideológicas, sociológicas, históricas, políticas etc.) Um fenômeno bastante interessante que permite olharmos para as palavras articulando essas três visões é a nossa reação às palavras sujas, ou disfêmicas, como também são chamadas.
São várias as áreas da vida que podem ser objeto de tabu. Nas diversas sociedades, os temas mais comuns são a religião, a morte, as doenças, as entidades mágicas ou fantásticas, os fluidos ou dejetos corporais, o sexo e as partes do corpo nele envolvidas. Notem como praguejamos com frequência usando palavras do campo da religião: inferno, diabo, vá pro inferno, desgraçado, vá se danar, que se dane etc.; e um bom tanto das interjeições de surpresa e admiração no português invocam o nome de entidades sagradas: Minha Nossa Senhora! Virgem Maria! Jesus! Meu Deus do céu! Talvez o leitor não se dê conta imediatamente, mas o desgraçado é aquele que perdeu a graça de Deus, e mandar alguém se danar é expressar que você, falante, quer que essa pessoa queime no inferno. É difícil evitar essas palavras. Convido o leitor a pensar numa alternativa para expressar surpresa sem usar as palavras do campo religioso – e não usando palavrão.
Há alguns motivos para evitarmos falar diretamente dos tabus. No caso dos excrementos, a palavra feia parece remeter diretamente ao objeto referido. Compare as palavras merda, bosta, cocô, caca e fezes. Todas remetem ao mesmo objeto no mundo, mas não gostamos de ouvir as duas primeiras. O que elas têm de especial? Além dessa relação entre linguagem e mundo, as palavras sujas afetam nossa mente de maneira diferente. Estudos neurolinguísticos mostram que nosso cérebro reage de modo diferente quando ouvimos ou lemos um palavrão. Essa consciência do caráter interdito de algumas palavras é aprendido na infância. Ao mesmo tempo em que as crianças vão desenvolvendo sua consciência metalinguística, ali por volta dos cinco, seis anos de idade, elas também vão aprendendo o poder das palavras, que certas palavras são feias, sujas, ofensivas, agressivas, grosseiras, e que há um jeito educado de se falar. Assim, não é difícil perceber que, para o leigo, boca suja significa mente suja. Claro que devemos corrigir as crianças quando percebemos que elas estão aprendendo esse tipo de vocabulário. Mas a situação é uma instância daquele tipo de paradoxo “o proibido é mais gostoso”: a proibição vai reforçar o caráter interdito da palavra e incutir na mente da criança a força disfêmica e tabuística da palavra.
O vocabulário tabuístico também é fonte de inúmeras metáforas. Embora tenham um traço escatológico não evidente para todos, ninguém nega a força expressiva de expressões idiomáticas como cagar na cabeça, levar uma mijada, levar um esporro que são muito mais fortes do que verbos como repreender, chamar a atenção, advertir e similares. O termo foder é bastante plástico nesse sentido, podendo ser usado negativamente, como nas ameaças,vou foder com você, você tá fodido na minha mão, ele fodeu com o nosso plano; ou como um predicado atribuindo uma qualidade negativa a um indivíduo: O João é foda! Hoje tá foda! Mas, por outro lado, o mesmo conceito pode ser empregado metaforicamente para se falar positivamente: esse livro é foda!, Seja foda! (título do livro de auto-ajuda escrito por Caio Carneiro). Talvez pela sua presença constante na nossa boca, foda tenha sofrido o processo chamado de “saciação semântica”: os falantes já não sentem tanto sua carga pejorativa.
Embora consideremos algumas palavras feias e ofensivas, elas não saem da nossa boca. Não há notícia de sociedade que não tenha vocábulos considerados sujos ou que não veja como tabu temas como relações sexuais e partes do corpo envolvidas, e fluidos corporais. Mas como esses objetos e práticas fazem parte do nosso dia a dia, os falantes enriquecem as línguas com termos que mascaram a ofensividade, falando dessas atividades indiretamente. Veja que comer, no sentido sexual, é grosseiro (o sujeito é sempre o agente, e o objeto é paciente, passivo; quem come é quem desfruta), mas formas eufemísticas como dormir com, se deitar com e ir pra cama com podem tomar um sujeito composto em que descrevemos a atividade levada a cabo por dois sujeitos com intenção, João e Maria dormiram juntos, ou com um complemento verbal introduzido pela preposição com, que expressa companhia, João foi pra cama com a Maria. Ninguém é inocente numa história relatada nesses termos. Note como os termos neutros (também chamados de “ortofêmicos”) são sem graça ou muito formais: copular, ter relações sexuais, intercurso sexual.
A maneira indireta de se falar de objetos e atividades incômodas, é chamada de eufemismo. O vocabulário para se falar da nossa higiene pessoal está repleto de formas que “escondem” a atividade que de fato fazemos no reservado, no toalete, noWC, no banheiro, na casinha ou na patente. O próprio termo banheiro é um eufemismo, pois fazemos muitas coisas lá dentro além de se lavar. Cagar e mijar são termos ofensivos. Por isso dizemos que precisamos ir ao banheiro ou ao toalete, que estamos apertados ou apurados, que precisamos fazer as necessidades. Com as crianças usando os termos xixi e cocô, e com as crianças bem pequenas, falamos em pipi e caca.
Como parte do vocabulário das línguas, o vocabulário tabuístico é também um tema de estudo interessante, pois ilustra a relação de falantes (e da sociedade) com as palavras. As palavras não são sujas, feias ou grosseiras em si. O que determina essa faceta (o que chamamos também de conotação) é a percepção dos falantes, a nossa atitude coletiva diante delas, e não a relação da linguagem com os seus referentes no mundo ou conceitos na nossa mente.