MEMORIA E DISCURSO
Cristofascismo e Bolsonarismo: entre o religioso e o político (II)

Dando continuidade ao nosso artigo anterior e buscando ampliar nossa análise as diversas fontes do cristofascismo e do bolsonarismo, sejam elas de índole religiosa ou político, dentro de um contexto específico de formação de um Estado totalitário é oportuno lembrar as palavras do estudioso português de governos autoritários
Manuel Loff, para quem o bolsonarismo é um movimento político defensor de uma sociedade totalitário que mistura, “nostalgia da ditadura, discurso sobre a corrupção” e “ligação ao mundo evangélico”. Certamente, esta “ligação” não traz consigo uma síntese da realidade toda, mas nos ajuda a abrir o horizonte para expandir na complexidade desta “nostalgia” que mistura de certa forma trono e altar e uma nostalgia mais próxima da santa inquisição cristã.
Para o doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RIO e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF, Fabio Py, o filósofo e pensador Alemão Walter Benjamin, já ressaltava a barbárie do fascismo como processo anticivilizatório que mistura uma concepção moral conservadora, na qual transforma o Estado de exceção como arma de controle e de extermínio. O conservadorismo é um espaço fértil para condensar barbárie e religião: “O conceito cristofascismo também se liga ao que o pensador alemão, Walter Benjamin, descreve como fascismo. Para Benjamim, a barbárie fascista não representa uma regressão civilizacional, mas está contida nas próprias condições de reprodução da nossa civilização liberal e burguesa. Para o autor, a ação fascista se beneficia das concepções conservadoras sobre a moral, a família e o progresso, transformando o todo nacional em um estado de exceção efetivo. Assim, o dispositivo autoritário do bolsonarismo se projeta, a partir da associação ao religioso, para defender uma concepção simplificada de família para a eliminação de seus adversários, bem como os indesejáveis – neste caso, aqueles que não se adequam ao projeto moral de nação estabelecido”. O bolsonarismo adota esta estratégia de modo sistemático e difunde a validade do discurso moralizante no imaginário da sua militância. Esta militância por sua vez, carece de um senso político abrangente, se aproxima muito mais ao analfabeto político que fazia referência a Bertolt Brecht. Assim, o cristofascismo e o bolsonarismo se estruturam e se aproximam de forma simétrica cada vez mais para ser um movimento anêmico, barbárico e profundamente antirracional, se for analisado desde uma conjuntura sociológica mais profunda e abrangente.
Nessa perspectiva, Py, ressalta o que configura a fé cristofascista do Bolsonarismo, dentro do contexto social do Brasil contemporâneo: “A doutrina da fé bolsonarista se conecta diretamente com uma nuvem densa de religiosos e cristianismos hegemônicos que sustentam o maquinário de sua gestão cristofascista. No apoio desse maquinário que tomou o Estado brasileiro se tem pelo menos três grandes pilares de intelectuais teológicos: a primeira dos pentecostais ligados à teologia da prosperidade que enchem o governo de expressões diárias de fé; a segunda aresta, os protestantes tradicionais (principalmente batistas e presbiterianos) que salpicam Bolsonaro com brindes teológicos do naipe de “eleito para governar a nação”; e a terceira tem “longa duração” como a espinha dorsal que estruturou o Brasil, o catolicismo conservador”. Três pilares que se intercomunicam no agir e no pensar no sistema de pensamento bolsonarista e que impacta toda a cadeia de “pensamento” que os militantes do bolsonarismo reproduzem.
Neste sentido, o contínuo movimento que estabelece o cristofascismo bolsonarista no imaginário da sua militância é cada vez mais hipocondríaca e antirracional. Alimentado por um imaginário escatológico e restaurador, em nome de uma moral cristã pura e delirante, com ideais de anticorrupção, o militante bolsonarista tornou-se uma pressa fácil para ser abduzida a um mundo fantasioso da realidade, na qual as piores alucinações podem produzir neles um efeito catalisador. O bolsonarismo como movimento seja político ou religioso, se tornou como uma religião de “ópio”, parafraseando Karl Marx, para uma parcela importante dos seus adeptos, na qual, a regra básica parece ser é proibido pensar com categorias racionais.
Este “ópio”, que ocupa no imaginário de uma parcela significativa do bolsonarismo se concretiza desde o discurso político puritano que aproxima a figura do Jair Bolsonaro com seu público evangélico e católico que se denominam de“conservador”. Ambos demonstram um saudosismo de um Estado totalitário e de uma religião que dita valores morais contra aqueles que não compartilham as mesmas visões de mundo. Desde uma religião carregada de pureza e “doença” sejam elas, psíquicas, comportamentais ou de visão deturpada da realidade, o cristofascismo empodera seus adeptos para se tornarem jagunços de Deus. O bolsonarismo cristofascista, assim, adotou nos últimos anos, como forte tendência seu impulso de profanar a política e os direitos humanos com a única finalidade de tornar caótico o processo civilizatório, construído com base no Estado democrático de direito presente na Constituição cidadã de 1988. O bolsonarismo mais obtuso demonstra um profundo desprezo pelo processo civilizatório e as leis.
É justamente, neste ponto, que podemos dividir e comparar como o Cristofascismo vai ocupando espaço na sociedade política e religiosa brasileira de forma gradual, embrutecendo seus adeptos desde a irracionalidade. Este foi o tema desenvolvido por Raphael Fagundes, em seu artigo publicado pela Revista Fórum, que leva por título “O cristofascismo é o novo projeto de nação”. Fagundes sustenta que: “Nada de erradicar a fome, ou o analfabetismo. Muito menos combater a corrupção. O cristofascismo é o novo projeto de nação inaugurado pela facção da burguesia que assumiu o poder. Este projeto tem como foco despolitizar a classe operária de modo a retirar o elemento econômico de sua moralidade. Deste modo, a causa dos problemas sociais seriam elementos comportamentais, ideológicos, espirituais etc., jamais a prevalência dos interesses do capital em relação ao trabalho”.
Em plena campanha eleitoral de 2022, foi publicada uma carta iniciativa de lideranças cristãs do Estado do Paraná, sob o título “As religiões são instrumento de paz e não de ódio”,o respectivo documento, resgata a dimensão humanista do cristianismo e repele qualquer tipo de instrumentalização dos seus princípios, como argumentos para fundamentar violência, racismos e qualquer tipo de discriminação: “Como cristãos, entendemos que as religiões, fiéis aos ensinamentos bíblicos e de Jesus Cristo, têm um compromisso com uma cultura da não-violência e do respeito à vida, compromisso com a solidariedade, a tolerância e, acima de tudo compromisso com os mais pobres e vulneráveis. Religião vem de “re-ligar”, portanto deve ser fonte de união e solidariedade, de respeito ao diferente, e não propagadora de ódio e divisão (…) O compromisso de um verdadeiro cristão é com a defesa dos valores universais, do Direito à Vida, do Estado Democrático de Direito, do Estado Laico, das políticas públicas de proteção social, dos direitos humanos e do trabalho, da proteção da natureza e contra todas as formas de violência que se manifestam no racismo, no machismo, em todos os preconceitos e na intolerância religiosa”. Em resumo, já é possível afirmar que o verdadeiro cristianismo e a verdadeira religião cristã que fala de amor, compaixão, acolhida, perdão, misericórdia e empatia, pertence ao polo oposto, em que está situado o cristofascismo e o bolsonarismo.