NACO DE PROSA

Quanto vale um sorriso

Os dias têm sido mais frios do que o normal por aqui. Pela janela, observo a fina garoa que
insiste em cair sobre as delicadas pétalas das flores. O céu está cinza, o verde do morro
esconde-se dentro da neblina.
Sento-me no antigo sofá, herança do meu avô. Aconchego-me com uma manta e dou um gole
no chá, cuja caneca aproveito para esquentar minhas mãos.
Começo a lembrar das notícias que li naquela manhã, e uma delas me intrigou, ela vem lá do
Japão, mais especificamente de Tóquio.
O título da matéria: “Japão dá aulas para pessoas reaprenderem a sorrir depois da pandemia.”
Moro no sul do país, o que me traz ainda mais curiosidade neste assunto, pois somos
conhecidos por ser um povo mais “frio”, menos “alegre”, podemos assim dizer, se comparados
às pessoas do Rio de Janeiro, por exemplo, ou ao povo nordestino.
Mas, voltemos ao outro lado do mundo.
Em Tóquio, uma aula individual para aprender a sorrir custa a bagatela de R$ 272,00 por uma
hora. Porém, com direito à técnica de sorriso estilo Hollywood, que promete ensinar aos alunos a ter olhos crescentes, bochechas redondas e moldar as bordas da boca para mostrar oito dentes na linha superior.
Quando li, me peguei rindo tentando fazer esse sorriso, foi um desastre, com certeza seria
reprovada, (risos).
O mais interessante, é que usamos as máscaras durante a pandemia, mas brasileiro é assim
mesmo, esse povo incrível que sorri com os olhos, e não é uma máscara que vai enrijecer
seus músculos, muito menos da boca, para negar um sorriso ao sulista mais durão que pode
haver.
Lendo mais a fundo a matéria, uma das entrevistadas, sugere que tudo não passa de uma
questão cultural, ou seja, os japoneses estão menos inclinados a sorrir do que nós, ocidentais.
Talvez seja isso, ou é aquele tal do sangue latino que temos?
Seja a explicação que for, é interessante analisarmos fatos isolados como este. Reaprender a
sorrir.
Lembro-me quando passei uma situação bem delicada em minha vida, confesso que levei um
tempo para reaprender a me permitir ter boas sensações e trazer meu sorriso novamente.
Mas ele esteve dentro de mim, o tempo todo, guardadinho, na hora certa, ele veio, sem
professores, sem livros didáticos.

É algo tão natural para nós, quanto respirar.
Somos alegres, somos festivos, somos calorosos, mesmo aqui no sul do país, pode acreditar
que sim.
Sorrimos com os olhos, com os lábios, com as bochechas, entre abraços, tapinhas nas costas.
Seja por uma piada, por um cumprimento, por uma música, seja o motivo que for, sorrir
Aproxima pessoas, convida-as para entrar, aconchega.
E podem vir mais momentos em que precisaremos usar máscaras e tampar nossas bocas, mas
jamais tirarão de dentro de nós, motivos para sorrir, com os olhos e bochechas levantadas por
debaixo das máscaras.
Sorrir abre portas, sorrir traz amigos, sorrir faz o nosso dia e do outro ser melhor e mais leve.
Sabemos que sorrir é uma dádiva, é contagiante e que faz um bem danado. Sorrir com certeza, é colocar para fora a felicidade que está sendo sentida lá dentro do coração. É um gesto que deixa nosso rosto muito mais bonito e mesmo que estejamos a distância, exemplo: ao telefone, é fácil perceber que o outro que fala conosco está sorrindo. É a magia do sorriso.
“Vencer na vida requer muitos esforços, mas quem não sabe sorrir até mesmo nas adversidades perderá o maior aprendizado da vida, que é jamais deixar seu coração amargurado, e ainda a grandeza de ensinar outros a praticarem esse método contra a tristeza”.
E por ser tão bom, e fazer tão bem, é que me causa espanto ser de graça no Brasil.

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