Na minha coluna anterior falei sobre o tema da gíria e toquei numa questão que me parece fundamental do ponto de vista da sociologia da linguagem: a atitude da comunidade diante desse conjunto de palavras. Como nossa sociedade é dinâmica, nossas atitudes também mudam, como mostrei.
A questão da atitude dos falantes diante de fenômenos sociolinguísticos de variação é antiga. Gramáticos desde sempre recomendaram não usar a fala popular na escrita literária ou formal e tiveram um olhar discriminatório em relação à fala das classes populares e grupos marginalizados. Na sua Gramática Normativa, Rocha Lima chama de ‘calão’ “a língua especial dos que vivem à margem da sociedade, de caráter acentuadamente esotérico, artificialmente fabricada… para poderem se compreender entre si os indivíduos de certo grupo, sem serem entendidos pelos não iniciados” (o destaque é meu). E acrescenta: “Como a fala das mais baixas camadas sociais, por exprimir a vida desses grupos, é naturalmente disfêmica, a palavra adquiriu a acepção vulgar de uso de termos chulos, gravosos, pouco limpos.” (destaques meus). Já falei do conceito de disfemia em textos anteriores, quando tratei de tabuísmos. Mas não custa lembrar. Um termo é disfêmico quando remete a conceitos tabu, além de seu uso ser considerado ofensivo pela comunidade de falantes (comparemos fezes, termo ortofêmico (neutro), com merda ou bosta, termos disfêmicos, ou com o eufemismo necessidades). Ou seja, o que torna o termo tabu não é apenas aquilo a que ele remete (senão acharíamos fezes também ofensivo), mas como os falantes se comportam quando ouvem a palavra e em que ocasiões aceitam seu uso.
Essa atitude está presente também na relação da sociedade com muitos sotaques e dialetos.
Podemos imaginar diversos motivos para termos uma forma correta ou mais adequada de expressão oral e escrita para uma língua tão diversa como o português brasileiro. A utilidade pedagógica e comunicativa podem ser dois desses motivos. Mas o ensino público e a necessidade de uma linguagem padrão na escrita oficial de órgãos de estado e na imprensa precisam mesmo diminuir as diferenças regionais, caracterizando-as como “esotéricas”, “fabricadas artificialmente”, vendo-as como mero traço cômico, muitas vezes?
Nessa semana, circulou no Twitter um vídeo de um grupo de pré-adolescentes andando de trator numa área rural (do oeste catarinense ou do norte do Rio Grande do Sul, não descobri de onde são exatamente), se divertindo. Mas o que chamou mesmo a atenção não foi eles estarem dirigindo um trator sem a supervisão de um adulto, mas o sotaque deles. Para muita gente do Brasil, aquela é uma fala muito diferente, quase incompreensível. Natural, já que muitos brasileiros não vão ouvir esse falar no rádio ou na televisão. Se alguém de Sergipe sintonizar o canal de televisão regional do oeste catarinense (de Chapecó, digamos), não ouvirá os jornalistas falando ‘caro’, ‘cachoro’, ‘roça’, ‘serote’ (peço ao leitor que faça o exercício de pronunciar essas palavras), isto é, usando um r fraco (tecnicamente, é um tepe), onde a maioria dos brasileiros usaria uma das opções do r forte. Não temos preconceito com a pronúncia do erre forte carioca, ou do famoso s chiado desse dialeto. Por que, então, incomoda a algumas pessoas o sotaque de alguns lugares?
De um ponto de vista objetivo (se é que isso é possível), no socioleto da região oeste catarinense (e esse fenômeno também ocorre em algumas regiões do Paraná com forte imigração polonesa e ucraniana, como Cruz Machado), as palavras carro e caro, murro e muro são pronunciadas da mesma forma: ‘caro’ e ‘muro’. Isso é um problema? Claro que não. A homonímia é um fenômeno presente em todas as línguas do mundo e não há relatos de falantes reclamando que palavras como manga ou banco significam duas coisas muito diferentes, embora tenham a mesma pronúncia.
Claro, não é apenas esse traço, a pronúncia do r, que caracteriza a fala desse grupo. Há uma certa musicalidade na pronúncia das orações, normalmente atribuída à influência de imigrantes alemães ou italianos, pra ficar apenas no plano sonoro. Isso não explica tudo. Italianos e alemães se espalharam por vários lugares da região Sul (Vale do Itajaí, litoral e oeste catarinense, serra gaúcha, várias regiões do Paraná etc.) e na capital e interior do estado de São Paulo. Todos vemos que esses descendentes não falam da mesma forma, pois além de muitos terem vindo de lugares diferentes desses países (países em que há muita variação dialetal também), foram influenciados de diferentes maneiras pelo contato com as populações locais. Sem falar da deriva natural da língua com o passar do tempo. O vêneto que veio para o Brasil no início do séc. XX não é o mesmo falado hoje lá na Itália.
Nosso julgamento diante de fatos linguísticos passa pela mentalidade de que existe uma forma melhor, mais correta e mais educada de se falar e escrever. Tudo que desvia disso é tratado como grosseria e burrice. A visão do gramático exemplificada acima diminui o valor cultural dessas manifestações linguísticas. Todos deveríamos aprender a respeitar essas manifestações como legítimas e como signo de identidade, pois elas nos caracterizam como membros de uma comunidade, de um grupo, da mesma forma que a gíria nos identifica como membros de um grupo de indivíduos com interesses ou comportamentos em comum.